Último dia da Mostra de Cinema de Tiradentes. 20h, sessão de estréia em Minas Gerais do filme 'Batismo de Sangue', do mineiro Helvécio Ratton. Sala lotada: todas as cadeiras ocupadas centenas de pessoas sentadas no chão ou de pé. Inspirado no livro homônimo de Frei Betto, o filme mostra a participação de freis dominicanos na luta contra a ditadura militar no Brasil, no final dos anos 1960. Daniel de Oliveira (Frei Beto) , Caio Blat (Frei Tito) , Odilon Esteves (Frei Ivo) e Léo Quintão (Frei Orlando) vivem os freis que colaboram com o grupo guerilheiro Ação Libertadora Nacional, comandado por Carlos Marighella (Marku Ribas). Vigiados pela polícia, logo são presos e cruelmente torturados até dizerem onde se encontra o líder do grupo. 'Batismo de Sangue' talvez seja o retrato mais cru e dolorido de todo o período da Ditadura Militar no Brasil. Sem esconder, Helvécio mostra toda a crueldade e sofrimento dos freis nas mãos da Ditadura, representando ali todas as pessoas que morreram ou tiveram graves problemas graças a esse período nefasto da nossa história. Comparando com outros trabalhos recentes que também abordam este período ('O ano em que meus pais saíram de férias', 'Sonhos e Desejos' e 'Zuzu Angel', só para citar alguns), Ratton opta em centrar sua história basicamente no processo de tortura (tanto física quanto psicológica) que estes freis são submetidos. 
Os quatro protagonistas merecem elogios, dando veracidade à todo aquele sofrimento aos quais os freis são submetidos, com destaque para as atuações de Odilon Esteves e Léo Quintão. A agonia vivida por Frei Ivo e Frei Fernando parece não ter fim e dói no espectador, bem como o processo de loucura que toma conta da vida de Frei Tito. Uma pena que Marku Ribas e principalmente Cássio Gabus Mendes estejam um tom acima em suas interpretações (as cenas em que Freio Tito relembra as torturas que sofreu de Fleury, interpretado por Cássio são quase caricaturais). Além disso, o filme se prolonga demais nas cenas de tortura, levando o espectador a se emocionar não pelo contexto da história, mas pelo choque das cenas em si. Este talvez seja o ponto mais falho de 'Batismo de Sangue': há pouquíssima explicação do que os freis fazem para serem vítimas da perseguição. Como combatentes da ditadura, o filme pouco mostra as ações do grupo para colaborar com o fim de tal regime. Da forma que está, há sempre a dúvida do espectador sobre de que forma os freis atuaram, e uma diminuição de diversas atitudes e posturas (sejam políticas ou em combate com a própria igreja) tomadas por eles, por esta opção de dar um tempo maior que o necessário para as sessões de tortura. Ainda assim, sem dúvidas é um filme que merece ser visto é discutido, seja pelos vários aspectos positivos do longa (as atuações dos freis, além da belíssima fotografia e reconstituição de época), seja pela discussão de um período que tanto nos envergonha.
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