Cabeça a Prêmio


Tudo em Cabeça A Prêmio se movimenta para sair do lugar. Muitos percalços depois, o caminho leva de volta ao ponto de onde partira. No entanto, o desvio usado para fugir das situações originais as reencontra potencializadas. De uma condição antes estável, então em seus primeiros estágios de desmoronamento, cai-se nas consequências mais extremas. O filme não é só sobre a derrocada de pessoas e sobre suas tentativas de escapar, mas também sobre a moralidade intrínseca a tais temas.

Os vários personagens se mantêm atrelados à família de um rico criador de gado, Miro (Fulvio Stefanini). O ciúme que sente da filha Elaine (Alice Braga) ameaça a relação da moça com o piloto de seu pai, Denis (Daniel Hendler). Ele voa pelas fronteiras do Brasil com cargas ilícitas. A presença do irmão do fazendeiro, Abílio (Otávio Müller), atrapalha os negócios, tornando a relação familiar tensa. Para proteger seus entes queridos, Miro mantém o capanga Albano (Cássio Gabus Mendes) e contrata Brito (Eduardo Moscovis), que tem seus próprios dramas.

No mundo ríspido que o diretor Marco Ricca constrói, os afetos não têm vez. O romance proibido de Denis e Elaine, assim como a aproximação entre Brito e Marlene (Via Negromonte) nunca alcançam a plenitude. Não é um ou outro obstáculo, mas toda a existência naquele universo que restringe as emoções humanas. Apenas um dos personagens é capaz de mudar algo com seus “sentimentos”, e a natureza dessa mudança explicita as regras do jogo.

Também é curioso como o carinho que Elaine recebe do pai não raro soa incestuoso, mesmo que só na imaginação do espectador. Outro bom indício de como funciona a moral do roteiro de Ricca e Felipe Braga está na forma como Miro tenta cuidar da família. A incapacidade de perceber os problemas da esposa Jussara (Ana Braga) contrasta com a proteção que sufoca Elaine.

O aspecto que mais enfraquece o corpo da obra é sua estrutura. Embora a trama se desdobre entre os personagens e seus anseios, a trajetória cíclica nunca é perdida de vista. Esse processo de fuga perde a força na medida em que elementos banais (o romance Romeu/Denis e Julieta/Elaine, o doentio ciúme paterno, as estranhezas de Brito) unem, fragilmente, as formas gerais que Ricca e Felipe Braga pretendem criar.

A moral básica da história também acaba danificada. A ausência de uma conclusão definitiva oferece possibilidades que remetem à natureza moralista do roteiro – que não é um defeito. O problema é que, entre corroborar o moralismo, negá-lo, afastar a catarse e duvidar de sua existência, o filme parece fugir de sua postura original de reagir à desumanidade. Tudo aponta para um final, e, quando ele surge, coloca em xeque coisas cuja integridade nunca foi enfrentada, talvez para evitar a alcunha de “moralista”.

De outra maneira, pareceria apenas uma continuação da linguagem interessante criada pelo roteirista e pelo diretor. Apesar da predominância das entrelinhas e dos subentendidos, nenhuma informação se perde por falta de clareza, resultando em uma alternativa muito bem-vinda a uma narrativa expositiva. A encenação inteligente de Ricca oferece tempo e espaço para as tensões se desenvolverem em silêncio, indo além do campo-contracampo tanto em olhares unidirecionais quanto em planos abertos.

A valorização do elenco também é notável, dando muito mais liberdade de imagem que outro ator-diretor, Selton Mello, deu em sua estreia. A intensidade dos intérpretes é capturada com eficiência, independentemente do formato da cena. Embora não haja elos fracos, merecem destaque as valorosas participações de Ana Braga e de Negromonte, assim como Alice Braga, que vai se intensificando ao longo da história.

Com uma potência nítida em cena, Gabus Mendes traz um cinismo efusivo e Moscovis rebate com uma postura lacônica mas muitíssimo expressiva. Cada um tem suas hesitações, mas Albano representa uma conivência com o “lado errado”, enquanto o “bom” Brito se esforça para escapar de um círculo vicioso em que a frieza afasta a ternura, levando a mais frieza. Os dois representam o que há de mais brilhante no elenco, o que diz muito sobre a posição dos roteiristas perante sua obra.

É triste que o final, nas variações que consciente ou inconscientemente possibilita, acabe drenando parte da firmeza de um conto de moral bem construído e recheado de ótimos atores.

 

Nota:

Crítica por: Pedro de Biasi (Universo Animado)


 


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