A falta de controle dos pais na educação de um filho, inevitável especialmente quando a natureza da criança é cruel desde sempre. Os medos psicanalíticos e o poder que exercem quando as pessoas os deixam dominá-las.

Estas são as principais temáticas de Caso 39, filme disfarçado de terror, dirigido pelo alemão Christian Alvart (do elogiado Anticorpos e do medíocre Pandorum).
O roteiro foca as atenções em Emily, uma assistente social que impede um casal de cometer uma crueldade com a própria filha, Lilly, que fica então sob a guarda de Emily até que pais adotivos sejam encontrados para ela. Mas o que levou os pais de Lilly ao limite da loucura? Até onde vai a inocência daquela criança?
O longa inicia-se como um drama simples, mas o terror toma conta da história gradativamente e a atenção do espectador é presa por um texto muito bem escrito, mas que sofre do mal da expectativa, ou seja, a trama desenvolve-se muito bem, mas não consegue desembocar num desfecho satisfatório e bem explicado.

Com poucas, mas impressionantes cenas de efeitos visuais – como as vespas que atormentam o psicólogo aspirante a namorado de Emily, interpretado por Bradley Cooper –, Caso 39 tem seu trunfo no elenco e na utilização de truques antigos: de câmera, como a abertura de lentes e o chacolhar da mesma; de montagem, com imagens em retrocesso ou aceleração repentina; e de direção de arte, com a construção de cenários maleáveis, como a casa da assistente social que diminui de altura e seus corredores tornam-se mais estreitos à medida que o suspense aumenta, dando a sensação de sufocamento gradativo.
Reneé Zelwegger encara bem o seu papel, longe das comédias a que está acostumada, mas são a mãe (Kerry O'Maley) e a menina (Jodelle Ferland) que materializam o medo e a loucura em suas atuações. A primeira atriz é de atuação mais visceral, completamente entregue aos delírios de sua personagem; a segunda é uma dessas crianças-adultas de atuação deslumbrada que, enquanto o filme concentra-se no drama, é insuportável, mas quando o tom ditado é o de terror, aí sua interpretação irritante torna-se adequada e medonha.

Apesar de querer contar uma história de várias camadas através do drama, o diretor não consegue fugir do lugar-comum do gênero e entrega uma obra que entretem, mas que, em consequência de um final mal elaborado, não consegue ser algo além do que um mero filme de terror.