| Maldito seja o criador desta infame narrativa cinematográfica. Como espectador assíduo das produções no campo da Sétima arte, não abandono uma sala de cinema sem que o filme tenha encerrado. É fato. Pela primeira vez, foi por poucos segundos que não abandonei a minha poltrona e fui circular pelo shopping no dia da cabine de imprensa deste filme tão vergonhoso. |
Após sair da sessão, pesquisei e estava tudo explicado: a sinopse oficial entregava o responsável por tamanha mancada no painel do cinema nacional atual: Bruno Mazzeo, criador, roteirista e protagonista deste Cilada.com, filme que pretende ser uma comédia, mas que em nenhum momento sequer é engraçado, apostando em piadas de mau gosto, por vezes escatológicas, brincando com deficiências e temas afins.

Vamos a sinopse oficial: Bruno (Bruno Mazzeo) é protagonista de um vídeo que vira hit na internet - a transa com sua namorada (Fernanda Paes Leme). Tudo isso é resultado de uma vingança, já que Bruno a traiu. A superexposição é apenas a primeira das grandes ciladas nas quais ele se envolve. Ele tenta pedir ajuda a Marconha (Serjão Loroza), seu amigo cineasta.
Os protagonistas seguem o roteiro de forma constrangedora: Fernanda Paes Lemes e Bruno Mazzeo seguem à risca as fragilidades da narrativa, num estrondoso caso de vergonha alheia. José Alvarenga Jr. em nenhum momento tenta disfarçar o argumento televisivo: diretor de programas como A Diarista e responsável por assinar boa parte dos filmes de Os Trapalhões, o diretor comete aqui mais um dos seus equívocos atrás das câmeras.
Os coadjuvantes também não ficam atrás: a pequena participação de Luís Miranda como um pai de santo é forçada, estereotipada e vergonhosa. Um comediante talentoso perdido neste tenebroso mar de pretensões. Além destes problemas, Cilada.com não propõe nada de interessante no que tange a linguagem do cinema: planos, cores, cenários e trilha sonora. É tudo mais do mesmo.

As novas tecnologias (internet e os sites comentados no filme), que poderiam servir de sustentação para um enredo contemporaneamente interessante resultam frágeis, artificiais e adornos para uma historinha que tenta ser engraçada ao brincar com um assunto que poderia ser meu ou seu, de qualquer espectador da sala de cinema, e não apenas alguma aventura de um herói imaginário.
Não podemos culpar o Cinema da retomada. Explico: uma das características do nosso cinema dos anos 90 é o intenso diálogo do Cinema com as produções televisivas. A ideia é buscar o público da televisão para as salas de cinema. Há programas que não comportam o formato “tela grande”, e dessa forma, deveriam ficar apenas no suporte de gênese. Só para refrescar a memória, quem não se lembra do tamanho equívoco de Wagner Assis ao adaptar A Cartomante, conto de Machado de Assis, para a contemporaneidade? Protagonizado por Luigi Barricelli e Deborah Secco, a trama apostou no sucesso da dupla na novela A Padroeira, portanto, não previam o fracasso crítico e de bilheteria.

O resultado final, creia, é frustrante. Se você achava que Cinderela Baiana era a pior coisa da história do cinema brasileiro, pode ir trocando de opção: Cilada.com é um filme produzido por gente que sabe o que está fazendo, porém, prefere arriscar a dignidade assinando um roteiro fraco, inseguro, politicamente incorreto (esse é, digamos, o menor dos problemas) e sem nenhuma criatividade. Nem os clichês da narrativa são reciclados.
Com 100 minutos de duração, Cilada.com tem pelo menos uma coisa de boa: o trailer. A compilação de imagens promete uma história muito divertida. Pena que os responsáveis não souberam utilizar o pouco material que tinham em mãos, investindo em algo no mínimo plausível. Um festival de escolhas errôneas e atuações idem. Vergonha mesmo. Muita vergonha. Acredite.