Criação


Criação é feito nos padrões de filme-para-ganhar-prêmios. Tem figurino de época, direção de arte diversificada, um personagem central forte e roteiro baseado em uma conhecida biografia (Annie's Box, de Randal Keynes). Não é de se estranhar que o filme não tenha obtido este tipo de êxito.

Charles Darwin, cientista e naturalista britânico, autor do livro A Origem das Espécies, elaborou a teoria da evolução das espécies a partir de um ancestral comum, por meio da seleção natural. Suas ideias são difundidas e estudadas até hoje e todo mundo sabe um pouquinho sobre ela. O filme propõe-se retratar a época da escritura do livro, na qual Darwin passava também por problemas familiares, após a morte de uma de suas filhas, Annie.

A grande falha do roteiro é concentrar a história no drama pessoal do cientista e praticamente deixar de lado as descobertas dele, o processo de observação dos seres e a consequente elaboração da sua principal teoria, que ia, na época, contra os preceitos da Igreja. O conflito científico e o conflito religião versus ciência pouco são abordados. Assim, a obra torna-se uma visão reducionista do trabalho de Darwin, um trabalho equivocado e desperdiçado. Ora, se fosse para contar a história de um pai de família com alucinações e traumas pós-morte da filha, porque então escolher Darwin como personagem-tema?

Seria um enorme prazer assistirmos ao filme e termos a sensação de descoberta junto com o protagonista – interpretado sem a devida entrega por Paul Bettany (Dogville). A história dava margens a belas cenas de licença poética e cores destacadas dos seres por ele estudados, mas o que vemos é uma fotografia sem vida, com cenários que abusam do marrom e deixam tudo mais sem graça.

Mesmo no âmbito do drama familiar, o filme não consegue desenvolver o seu potencial, deixando o bom trabalho de Jennifer Connelly (Requiem Para Um Sonho), como a esposa de Darwin, relegado a poucas falas e pouca relevância, esquecendo-se de retratá-la como “a grande mulher por detrás do grande homem”: uma mera espectadora.

Por mais que “A Origem das Espécies” seja uma teoria amplamente difundida, roteiro e direção não poderiam partir deste pressuposto e deixar de explicar os seus pormenores. Engana-se quem pensa que vai entender ou captar alguma informação relevante sobre tal teoria ao assistir este filme. Ela não é nem citada por cerca de 40 minutos e de repente, uma sequência de menos de um minuto resume com pensamentos sobrepostos e não-interligados os pensamentos de Darwin e logo em seguida, voilá, eis o livro pronto.

Criação é dirigido por Jon Amiel, cujo trabalho concentra-se na tevê, que aliás, seria o nicho mais adequado para se lançar este filme. Tem mais cara de minissérie da tevê a cabo do que de cinema – não que eu queira rebaixar uma coisa a outra.


Nota:
Crítica por: Fred Burle (Fred Burle no Cinema)