Identidades imaginadas. Identidades trocadas. Máfia. Estaríamos falando da Trilogia Bourne, com Matt Damon? Ou seria uma referência ao frenético A Rede, com Sandra Bullock? No que tange à temática, sim. Um sujeito sofre algum tipo de ataque ou acidente e de repente acorda num mundo em que todos estão contra ele.

Desconhecido, novo suspense estrelado pelo ótimo Liam Neeson é carregado de cenas de ação sufocantes, porém, nada mais é que comida requentada: redondinho para agradar ao grande público em busca do cinema escapista e inferior aos seus amigos de prateleira: A Trilogia Bourne e A Rede, citados anteriormente que fizeram tramas parecidas e bem melhores.
O filme começa com a chegada do Dr. Martin Harris (Liam Neeson) e sua esposa Elizabeth (January Jones) à Berlim para uma importante conferência de Biotecnologia. À caminho do hotel, o casal sofre um grave acidente e o Dr. Martin acorda após quatro dias de coma. Constatando que a sua vida está pelo avesso, e que para alguns ele na verdade nunca existiu, precisa o mais rápido possível recobrar a sua memória e descobrir o que realmente aconteceu. Um detalhe importante: algumas vidas estão em jogo, inclusive a dele e a de alguns coadjuvantes que acabam sofrendo ao cruzar o caminho deste novo desconhecido. Pelo que consta, Dr. Martin está sendo perseguido por criminosos, e o pior é que alguns transeuntes da narrativa acabam pagando por isso, mesmo que não tenham nada a ver com os problemas deste perturbado homem temporariamente sem identidade.

A pancadaria é garantida: Joel Silver é um dos produtores, responsável por clássicos do gênero ação como Duro de Matar e Máquina Mortífera, filmes que marcaram uma parte das carreiras de Bruce Willis e Mel Gibson, respectivamente, como heróis de ação. Destaque para Diane Kruger (de Bastardos Inglórios), carregando bastante no sotaque. Após salvar o Dr. Martin do acidente de carro, é procurada pelo mesmo e acaba fazendo parte de toda a saga em busca da verdade.
Desconhecido é uma trama que traz um interessante feixe da globalização: diretor espanhol, ator principal irlandês e com uma história situada na Alemanha, o filme carrega todo o tipão estadudinense, onde um herói americano precisa salvar alguém. Nesse caso, a si próprio, buscando a redenção necessária depois de todo um passado pregresso que só não ganhará maior espaço aqui para evitar spoilers.
Alguns aspectos técnicos estão de parabéns: a fotografia consegue imprimir a gélida impressão que a história pretende nos transmitir. O primeiro plano na cena do orelhão, quando a câmera foca na aliança de ouro na mão esquerda do Dr. Martin nos reforça a ideia de que o mesmo, apesar de não saber a sua real identidade, já foi casado e por isso encontra-se angustiado por descobrir o que lhe aconteceu, inclusive a possibilidade de sua esposa estar em perigo.

Desconhecido custou U$60 milhões e tem a direção assinada por Jaime Collet-Serra, responsável por filmes como A Casa de Cera e o assustador A Orfã. Por trazer um elenco tão afinado, ouso declarar que Desconhecido peca também por deixar de lado alguns temas contemporâneos tão interessantes: a globalização, as identidades ambivalentes, as comunidades imaginadas e outros temas dos estudos culturais.
Você, leitor, pode me acusar de injusto ao pedir tanto academicismo a um longa-metragem que busca apenas entreter o público. Defendo-me alegando que não: há sim, como o diretor dosar ousadas cenas de ação com discussões acirradas sobre temas da contemporaneidade, não relegando Desconhecido apenas ao roll dos filmes de ação, mas deixando-o tão poderosamente intenso como O Jardineiro Fiel ou Cidade de Deus, por exemplo, filmes que agradam, como diz o velho e bom ditado, aos gregos e troianos.
Identidades imaginadas? Talvez. Identidades trocadas? Pode ser. É preciso ver o filme para saber. Adianto que o trailer já nos entrega detalhes cruciais da trama, e espectadores astutos já acostumados a tramas luxuosas como O Silêncio dos Inocentes ou Magnólia, por exemplo, já tiram de letra os mistérios acerca da trama de Desconhecido, filme que pela atmosfera (e fotografia) nos remete também ao recente O Escritor Fantasma, de Roman Polanski.

Apesar dos pontos críticos observados neste texto, Desconhecido é uma ótima opção para quem busca um bom entretenimento. Defendo que o cinema é um veículo carregado de ideologias, e por isso, precisa trazer sempre mensagens elevadas e discussões que nos permitam dialogar de forma intertextual, acredito que a ideia genuína, desde a época do “primeiro cinema”, de entreter o público também seja válida, afinal, não se vive apenas de crítica social. As observações realizadas aqui são apenas constatação de fatos. Não pretendo diminuir alguns valores da trama. Longe disso.