Destinos Ligados


Embora o cartaz faça Destinos Ligados parecer um drama (ou uma dramédia) suave, a impressão inicial é bem diferente. Karen (Annette Benning) é uma mulher amarga que engravidou aos 14 anos e a entregou o bebê para adoção logo após o parto. Agora com 37 anos, sua filha Elizabeth (Naomi Watts) é uma advogada de sucesso e vive por conta própria, já que se afastou dos pais adotivos e nunca conheceu a mãe verdadeira. Outra linha narrativa mostra o casal Joseph (David Ramsey) e Lucy (Kerry Washington), que quer adotar uma criança.

A história é claramente sobre pessoas infelizes que buscam algo que as complete: Karen escreve cartas para a filha, mas nunca as manda; Elizabeth é realizada profissional e financeiramente, mas não cria elos com ninguém; Joseph e Lucy, por fim, querem construir uma família. Que fique claro que o problema maior do filme não é ser a sucessão de infortúnios e angústias que é, pois se fosse um roteiro luminoso sobre as alegrias do relacionamento materno, ainda pesaria o sério problema do determinismo.

Tudo que o diretor e roteirista Rodrigo García mostra são pessoas marcadas pelos erros do passado, tanto os seus quanto os de outros. A advogada cresce fria e dona de si própria por ter sido privada do amor materno. Karen também não foi apresentada a sentimentos como afeto e intimidade, e não compreende a boa relação que sua própria mãe tem com a empregada doméstica, Sofia (Eldipia Carrillo). Lucy escapa da fórmula, pois seus problemas para engravidar não definem sua personalidade inteiramente. As outras personagens de destaque sofrem por se esgotarem em suas cicatrizes psicológicas e emocionais.

Outro defeito sério é a proposta de García como diretor, de tomar certa distância das pessoas que filma. Estereótipos como os do filme (a mulher rude marcada por um erro, a balzaquiana rica e fria) precisam do oposto, de intimidade. Só assim pode-se criar personagens com algum corpo dramático. A frieza com que a história é contada apenas chama a atenção para conflitos esquemáticos entre rascunhos grosseiros de seres humanos. O máximo que o roteiro consegue é revelar burocraticamente quais traumas produziram personagens tão simplórias – o que, novamente, só enfraquece o filme.

Mesmo que encarnem tipos engessados, Benning e Watts conseguem construir emoções genuínas. Centradas no momento, e não em uma construção gradual que García seria incapaz de permitir, as atrizes se saem bem. Especialmente Watts, que consegue dar credibilidade mesmo quando Elizabeth passa por transformações notáveis. Não que Karen não mude ao longo da narrativa, mas o processo é muito mais brusco e Benning nem sempre o acompanha. Washington, por sua vez, vai da graciosidade ao desespero com eficiência. O chefe de Elizabeth vira uma figura terna na pele de Samuel L. Jackson, e o mesmo se pode dizer do Joseph de Ramsey e da ótima Sofia de Carrillo. É curioso como os personagens periféricos soam muito mais interessantes que os centrais.

É bom citar que as três histórias (que viram quatro ou cinco quando convém a García) são contadas independentemente, e só no final se unem. E se Karen ri quando descobre uma tremenda coincidência, é difícil achar qualquer graça em uma fórmula de tramas cruzadas que ainda se julga interessante. A melhor expectativa que se pode ter para Destinos Ligados é a de um roteiro fraco mascarado por uma sinceridade superficial.

 

Nota:

Crítica por: Pedro de Biasi (Universo Animado)


 


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