Direito de Amar


Há tempos que o cinema não apresentava uma narrativa de tema geralmente polêmico (homossexualidade) com tanta delicadeza. Direito de Amar, estranha adaptação do título original, A single man, é um dos melhores filmes dramáticos de 2009. Somando acertos desde a escolha do elenco, que traz um Colin Firth inspirado, até no que tange os aspectos técnicos, como a fotografia e trilha sonora, o filme é uma magnífica obra de arte. A trama é baseada na obra literária de Christopher Isherwood e a trilha sonora assinada por Abel Korzeniowski, que lembra bastante o trabalho de Philip Glass no filme As horas.

Arrasado pela morte de seu namorado de longa data, após um trágico acidente, George Falconer (Colin Firth, excelente) mantém as aparências, ainda visto por outros como um homem no controle. Em um ensolarado dia no sul da Califórnia, onde ele criou raízes, este professor de inglês se vê no limite da sua vida. Ele vai descobrir os ecos do passado no presente e vislumbrar formas alternativas do futuro - incluindo a possibilidade de nenhum futuro para si mesmo, pensando em suicídio. Neste seu cotidiano, há espaço para a sua amiga confidente Charley (Juliane Moore, estupenda) e outros coadjuvantes.

Na coletiva de imprensa do filme, discussões acerca dos direitos dos homossexuais eram a tônica da vez. Direito de amar toca na ferida dos homossexuais que não são aceitos pela família, vítimas do preconceito velado. Depois de construir uma relação de amor e respeito com seu parceiro, o professor George sequer tem o direito de ir ao enterro da pessoa no qual conviveu durante quase quinze anos. Outra citação interessante é um aluno conversando com George e alegando que as minorias são percebidas quando ameaçam a maioria, evidenciando um dos temas de abordagem do bojo acadêmico dos estudos culturais.

Dirigido por Tom Ford, estilista de sucesso estrangeiro, que esteve ao lado de Sarah Jessica Parker (quem conhece Sex and the city vai entender a ligação) na entrega de uma das estatuetas do Oscar 2010, o filme não vai se preocupar em dar foco aos bem recortados vestidos da personagem de Julianne Moore, ou então, no belo terno do professor vivido por Colin Firth. Tom Ford é um ótimo diretor e vai se preocupar em adaptar de forma coerente a história do professor George.

Para George, o dia é um tormento e ele não pensa em outra coisa: a chegada da noite, hora de dormir e esquecer mais um dificultoso dia de vida. Há uma referência Psicose, quando o professor George está passeando pelas redondezas e encontra uma espécie de James Dean contemporânero, que o paquera. Na cena da conversa entre os dois, um enorme cartaz do clássico de Hitchcock estampa a cena.

Mesmo que não tenha levado a estatueta do Oscar de Melhor ator para casa, Colin Firth mostrou para o público e para a crítica especializada, que é um dos melhores atores de sua geração, afinal, se compararmos aos antagônicos personagens construídos em O Diário de Bridget Jones e esta pérola chamada Direito de amar, percebe-se de imediato a capacidade do ator de ir a extremidades bem distantes.

Com 99 minutos de duração, traz o espanhol Eduard Grau na direção de fotografia, e como personagem coadjuvante, a modelo Aline Weber, que mesmo entrando muda e saindo de forma semelhante, vai apresentar um olhar enigmático desconcertante.

Nota:
Crítica por: Leonardo Campos