O Discurso do Rei

 

Com onze indicações ao Oscar 2011, incluindo melhor filme e melhor diretor, O discurso do rei (The King's Speech, 2010), do diretor inglês Tom Hooper traz Colin Firth (indicado a melhor ator) na pele do gaguejante rei George VI da Inglaterra e Geoffrey Rush (indicado a melhor ator coadjuvante) como o nada ortodoxo terapeuta que o ajuda com suas dificuldades de fala.

O drama histórico narra a ascensão de George VI ao poder após a abdicação de seu irmão, o rei Edward VIII (Guy Pearce), que fez a opção de se casar com uma mulher divorciada e de reputação duvidosa - e portanto não-aceita pela corte e tampouco pela igreja - pouco depois de ser coroado rei, seguindo a morte do seu pai, o rei George V.
A cena de abertura apresenta George ainda enquanto Duque de York em sua tremenda precariedade de dicção durante um pronunciamento público, mostrando o seu enorme grau de tensão em tal ocasião e diante de situações menos ou mais formais nas quais precisa se expressar, posicionando-se diante dos demais.

Helena Boham Carter (numa interpretação sensível e revigorante depois de alguns longos anos em papéis de Harry Potter e Tim Burton) interpreta Elizabeth, a leal esposa de "Bertie", tal como ela o chama, que acompanha o marido aos mais diversos especialistas em fala, assistindo-o submeter-se aos mais estapafúrdios procedimentos e "tratamentos". Saturada dos médicos e da tortura sofrida pelo marido, ela descobre ao acaso o terapeuta Lionel Logue, um homem peculiar que oferece um tratamento diferente dos que haviam sido apresentados até então.
Os métodos informais e pouco usuais de Lionel contribuem para criar uma forte desconfiança da parte de "Bertie" e Elizabeth, o que parece ser um dos grandes trunfos de que o filme faz uso para construir a magnífica tensão entre os personagens de Rush e Firth.

As tentativas de Logue de desarmar o futuro rei, despindo-o dos formalismos da corte e de sua posição tornam O discurso do rei um filme pungente, graças aos extensos recursos de Rush como ator, que vai compor um personagem com diversas nuances: um terapeuta atento e tenaz e ainda um pai criativo, que sublima a frustração de não ter obtido sucesso como ator, estimulando a verve artística em sua prole.

É precisamente a relação terapêutica que se estabelece - ou melhor talvez seria dizer psicoterapêutica - entre "Bertie" e Lionel que confere uma camada a mais à trama, que do contrário talvez carecesse de charme, a despeito das soberbas atuações de Firth, Rush e Carter.

Perscrutando o passado e a infância do rei, Logue vai buscando as respostas para a sua gagueira incapacitante e ao mesmo tempo vai abrindo uma fissura na carapaça rígida e sisuda de "Bertie", forçando uma abertura para o surgimento de uma amizade inusitada, ainda que errática.

 

Nota:

Crítica por: Rita Isadora Pessoa (Blog)