A cartilha das comédias românticas de Hollywood já deve estar com suas páginas amareladas de tanto ser utilizada. Nenhum filme do gênero lançado ultimamente foi capaz de proporcionar sequer um sopro de originalidade à já tão combalida fórmula da(o) mocinha(o) que não sabe se fica com fulano(a) ou beltrano(a). Quando um filme, além de seguir à risca essa nem tão extensa cartilha, é certinho e redondinho feito uma roda, a irritação certamente é maior. É o caso de "Doce Lar", tentativa de comédia estrelada pela estrela do momento, Reese Whiterspoon. Depois do sucesso de "Legalmente Loira", a atriz virou um verdadeiro ícone entre as patricinhas descoladas. Tudo aquilo que ela veste ou usa em seus filmes acaba se tornando sucesso de vendas. Fica mais do que óbvio, então, constatar porque um filme raso como esse fez tanto sucesso assim nos EUA (arrecadou mais de 130 milhões de dólares por lá). A verdade é que "Doce Lar" não merece nem um quinto disso.  | Além de preguiçoso, piegas e previsível, o filme não funciona nem como diversão ligeira: seus 110 minutos são extremamente arrastados para quem já viu pelo menos um filme do tipo. O espectador, aqui vítima de uma história que não consegue sequer garantir um mínimo de interesse, acompanha sonolento (às vezes interrompido por uma ou outra risada) o desenrolar de uma trama previsível desde os letreiros iniciais. |
Reese Rainha-das-Patricinhas interpreta uma estilista chamada Melanie Carmichael, que vive em Nova York há 7 anos e namora o filho da prefeita. Depois de ser pedida em casamento, Melanie precisa voltar à sua terra natal para consertar alguns problemas que deixou para trás. No Alabama, ela precisa conseguir o divórcio de seu marido (que ficou a ver navios quando Melanie o abandonou) e se acertar com seus pais, que já não vêem mais a filha da mesma maneira. O retorno à seu "lar-doce-lar", no entanto, trará mais confusão à vida já confusa da jovem. No clímax da história (na verdade, um anti-clímax, porque todo mundo sabe como acontece), Melanie precisa decidir se se casa com o filho da prefeita e segue sua vida bem-sucedida em Nova York, ou se fica no Alabama e volta a viver com seu marido, por quem ela se apaixona novamente. O problema é que a personagem só volta a prestar atenção em seu marido caipira depois que o sujeito se mostra um empresário bem-sucedido no ramo da fabricação de cristais. Essa moral-da-história, convenhamos, é bastante questionável e desprezível. Também é possível notar em "Doce Lar" uma incômoda exaltação dos valores conservadores sulistas norte-americanos. O american-way-of-life com sotaque do sul (notável por suas altas doses de preconceito e conservadorismo) é visto aqui como o modo de vida mais aprazível do mundo (o pai da personagem faz questão de expor a cada minuto sua raiva contra os "malditos ianques do norte"). A ridícula simulação da Guerra Civil Norte-Americana, um costume que realmente existe por lá, também dá as caras na tela (para se ter uma idéia, até os Democratas, que formam o partido de oposição ao presidente George W. Bush, são ridicularizados em boa parte do filme). Chamá-lo de "filme-símbolo da era Bush", nesse caso, não seria um exagero. Felizmente, a embalagem de comédia romântica açucarada e a presença de Reese Whiterspoon acabam atenuando boa parte de todo esse ranço. Reese merece algum crédito. Mesmo carregando uma personagem extremamente boçal e covarde nas costas, a atriz ainda consegue ser carismática. Mas capaz de fazer coisa melhor ela certamente é. Basta escolher um roteiro menos idiota e previsível da próxima vez.
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