Do Começo ao Fim

Algumas produções cinematográficas deveriam trocar de título: ao invés de nomeadas como filmes, deveriam ser nomeadas de “polêmica”. Do começo ao fim, produção mais recente que aborda o universo dos homossexuais é nada mais que um filme interessante, que tenta algo mas que, infelizmente, naufraga nas intenções.

Eis o enredo: a médica Julieta (Julia Lemmertz) é mãe de Francisco (Lucas Cotrim quando criança e João Gabriel quando adulto), fruto de seu relacionamento com o argentino Pedro (Jean-Pierre Noher). Depois da separação, ela conhece o arquiteto Alexandre (Fábio Assunção), com quem tem outro filho, Thomás (Gabriel Kaufman/Rafael Cardoso). Como cria os meninos juntos, Julieta é a primeira a perceber que no carinho dos irmãos se desenha uma sólida paixão. A falta de cuidado da direção para um filme que conseguiu adentrar a linha do cânone é o principal problema do filme Do Começo ao Fim.

Onde mora o problema? Explicarei mais claramente: produções deste tipo ainda causam um grande impacto na platéia, visto que o filme ganhou espaço de exibição em salas de cinema tradicionais, não ficando perdido apenas nas salas de arte desabitadas das cidades. Filmes onde homens se beijam e dançam nus ainda causam risinhos e cutucadas de constrangimento no cinema, vide que as pessoas ainda não estão preparadas para tal, emoldurando situações polêmicas deste tipo em espetáculos circenses protagonizados, a exemplificar, por Madonna, Britney Spears e outras genéricas.

Do começo ao fim não é um filme só de problemas: a narrativa divide-se em duas partes. A primeira, evocando a infância dos rapazes, emoldura a fase em que os meninos apresentam um carinho em excesso. O narrador, Thomas, vai iniciar o filme citando que a história ali narrada trata, entre tantas coisas, sobre livre arbítrio. Além desse tema, Do começo ao fim trata de forma singela sobre a fugacidade da vida, mostrando como algumas pessoas passam em nossas vidas, marcam e depois seguem o seu caminho. Ainda nesta primeira parte, as cenas de banho dos irmãos na banheira incomodam um pouco, tornando a situação redutora, beirando ao estereotipo de gays que iniciam suas atividades ainda quando criança: faltou para Aluisio, diretor do filme, pesquisar mais e perceber que cada caso, é um caso. A mãe e o pai de sangue de Francisco, percebem desde cedo e se preocupam na sexualização daquele carinho mutuo, portanto, preferem observar tudo e esperar o momento certo para comentar, o que não vai acontecer, vide que ambos irão morrer antes do meio do filme. Daí , inicia-se a segunda parte do filme: o amor dos rapazes enfim, vai se consumar, da forma mais sexual e explicita possível.

A cena que inicia a segunda parte é ruim, digna de filme B: a primeira noite (tarde, creio) de amor dos dois é iniciada com um despir de peças bem formulaico e hollywoodiano, um tanto implausível: um tira uma peça, o outro tira a outra e assim vão ficando sem roupa e começam uma transa selvagem.

Do começo ao fim conseguiu algo que diversos outros filmes da mesma linha tentaram mas não conseguiram: ganhar espaço no circuito tradicional de cinema. O grande problema do filme mora na carga excessiva romântica da temática, que seria muito mais interessante se abordada de forma realista. Outro problema que não chega a ser muito grave é a noção da dependência que o filme transmite: segundo a narrativa, os dois rapazes vivem numa dependência exorbitante, não conseguindo viver um sem o outro. Seria assim, a vida real?


Nota:
Crítica por: Leonardo Campos

 


 


 

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