Do Começo ao Fim

Antes de tudo, é preciso considerar que, apesar de “Do Começo ao Fim” tratar de temas polêmicos como o incesto ou a homossexualidade, a obra é uma grande história de amor, daquelas que, acima de retratar a realidade, buscam inserir no espectador a esperança de que o mundo real pode ser complicado, mas ainda há como tudo dar certo.

Diante disso, são injustas as críticas que colocam o filme como distante da realidade de dois temas tão espinhosos. O longa, dirigido por Aluízio Abranches (de “Um Copo de Cólera”), conta a história de Thomas e Francisco, dois meio-irmãos (filhos apenas da mesma mãe) que, na fase adulta, assumem uma relacionamento amoroso. Abranches optou por fugir do clichê na hora de abordar tais assuntos. Isto pois, na maioria das obras que tratam de tabus, o que se vê é um mar de lágrimas e situações que só reforçam que aquela “diferença da sociedade” não é bem vista. Em “Do Começo ao Fim”, o tratamento é dado quase como em tom de conselho: “as adversidades existem, mas há como dar certo”.

Na direção de Abranches, o choro é substituído por um amor incondicional. Amor dos pais para os filhos e, principalmente, de Thomas para Francisco (e vice-versa). Se infância (quando os personagens são vividos por Gabriel Kaufmann e Leandro Cotrim) vemos os dois demonstram uma imensa paixão e admiração um pelo outro, na fase adulta (quando, de maneira elogiável, Rafael Cardoso e João Gabriel Vasconcellos assumem os papéis) vemos que tudo o que construíram na infância nada mais foi que uma grande junção de amor, afeto, cumplicidade e necessidade do outro.

Para alguns, o filme padece da ausência de conflitos. “Como pode uma família aceitar tão bem a relação dos dois? Como podem os dois irmãos não se questionarem quanto ao que sentem um pelo outro?” Entretanto, são nítidas as sutilezas que Abranches adota que fazem tais impressões caírem por terra. Na infância, em vários momentos vemos a dor e a angústia dos pais (vividos por Júlia Lemmertz e Fábio Assunção e Jan Pierre Noher) ao perceberem tamanha proximidade entre os filhos. Se tais sensações não são mostradas como alguns gostariam, está ali, nos gestos, nos olhares, na tensão presente na feição de cada um. Mas o maior conflito existente no filme está mesmo no “embate” entre a projeção e o espectador. Ver uma relação tão feliz e entendida até mesmo pelos pais dos envolvidos certamente leva o público a se perguntar os motivos de tamanha naturalidade naquela família. Diante disso, cada um sai da projeção se questionando sobre qual seria sua reação ao se deparar com um casal de pessoas que, como a grande maioria das pessoas, apenas quer ser feliz um ao lado do outro. “Mas são irmãos”, dirão alguns. “E daí?”, parece responder a telona. E está justamente em mostrar como uma situação tabu pode ser “normal” é o grande mérito da película.


Nota:
Crítica por: Rodrigo Soares