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Dragão Vermelho (Red Dragon)

Até agora, o psiquiatra-canibal Hannibal Lecter, criado pelo escritor Thomas Harris, teve uma carreira tortuosa pelos cinemas. Sua primeira aparição ocorreu em "Dragão Vermelho" (1986), de Michael Mann, um filme pouco visto mas que fez a cabeça de muitos críticos à época de seu lançamento. Depois, a consagração de Lecter se deu com "O Silêncio dos Inocentes", grande vencedor de 5 prêmios da Academia, dirigido por Jonathan Demme e estrelado por Anthony Hopkins e Jodie Foster, os três com uma estatueta cada.

Depois de "O Silêncio...", a pressão para que Thomas Harris escrevesse a continuação da saga do canibal cresceu. A editora aguardava ansiosamente o término de "Hannibal", e o estúdio só esperava a autorização do escritor para levar à história às telas. E foi assim que Ridley Scott, convocando Julianne Moore para o papel que fora de Jodie Foster, lançou "Hannibal", o filme, em 2001. Apesar do sucesso de bilheteria, a produção decepcionou por ser muito, mas muito inferior ao filme de Demme. A saga do canibal mais famoso do cinema parecia ter chegado à seu fim.

Parecia. Como em Hollywood alguns verbos vêm sempre no pretérito imperfeito, uma refilmagem de "Dragão Vermelho" entrou em pré-produção. Anthony Hopkins assinou novamente para viver o personagem, seguido por Edward Norton, Ralph Fiennes, Emily Watson e Harvey Keitel. Brett Ratner, o homem mais improvável para o cargo, assumiu a direção.

Este novo "Dragão Vermelho" tem a felicidade de ser muito menos pretensioso e mais eficiente do que o "Hannibal" de Ridley Scott. Basicamente, tem a mesma estrutura de "O Silêncio dos Inocentes": detetive brilhante é auxiliado por Hannibal Lecter para achar um assassino serial. Mas, ao contrário da obra-prima de Demme, "Dragão Vermelho" se concentra no caso envolvendo o detetive e o serial killer, e não no jogo psicológico entre o detetive e Hannibal, the Cannibal. Nosso admirado personagem, que sempre foi o mais importante dos outros dois filmes (ao lado de Clarice), agora virou um coadjuvante.

Convenhamos: se assim não fosse, Brett Ratner poderia ser processado por plágio e Thommas Harris acusado de charlatanismo. Felizmente, "Dragão Vermelho" segue por rumos diferentes, e com isso, traz alguma novidade à saga do Dr. Lecter.

Para começar, como já foi dito, Ratner acerta ao focar seu filme na história do psicopata do título. O filme começa quando Will Graham (Edward Norton), um jovem e brilhante detetive, é atacado pelo doutor Hannibal Lecter (Anthony Hopkins), que até então o auxiliava em suas investigações.

Alguns anos depois, e afastado do FBI, Graham é convidado por seu antigo chefe (Harvey Keitel) a voltar à ativa, para resolver o caso de duas famílias que foram massacradas pelo mesmo serial killer. O assassino, de nome Francis Dolarhyde (Ralph Fiennes) deixa poucas pistas, e se auto-denomina "O Dragão Vermelho". Sem outra chance de pegá-lo, Graham acaba pedindo auxílio à Lecter novamente. O canibal dá pistas do comportamento do assassino ao detetive em troca de algumas regalias, e, escondido de todos, arma um plano que pode colocar a vida da família de Graham em perigo.

"Dragão Vermelho" não se limita à uma simples história policial. No meio do caminho, algumas subtramas interessantes e personagens muito bem aprofundados aparecem para enriquecer a obra. A mais marcante, sem dúvida alguma, é a personagem de Emily Watson (numa boa atuação). Cega, ela e o assassino acabam se envolvendo, num caso bastante curioso e tenso.

O fato da personagem ser cega é crucial para que Dolarhyde se envolva com ela. Ao que parece, o assassino tem problemas com sua aparência. Uma cicatriz de uma cirurgia nos lábios talvez seja o motivo. Isso fica mais claro quando, ao chegar ao museu com o qual se correspondia sempre, Dolarhyde se espanta quando a responsável pelo local diz que o imaginava diferente.

O comportamento instável do sujeito também tem uma explicação: quando criança, Francis era maltratado por sua avó severa, que o ameaçava constantemente quando o garoto urinava na cama. Esse é um dos pontos fracos de "Dragão Vermelho": ao reduzir as causas de um comportamento psicótico à mals-tratos na infância, o filme faz uma simplificação boba e batida.

Por outro lado, a "transformação" do personagem no Dragão Vermelho é fascinante. A ótima interpretação de Ralph Finnes, ameaçador e bastante soturno, contribui sobremaneira para isso.

Hannibal Lecter, como se percebe, virou coadjuvante de luxo nessa história toda. Ainda assim, os momentos em que o personagem se encontra com detetive Graham são bastante interessantes e capazes de provocar calafrios na espinha (a grande interpretação de Anthony Hopkins, mais uma vez, é a responsável por isso).

Edward Norton, por sua vez, se encontra bastante apático, numa atuação que não foge do convencional em momento algum. Talvez seja esta a sua interpretação menos memorável em anos. Também não ajuda o fato de seu personagem adivinhar do nada o comportamento do suspeito logo no início do filme.

Há ainda um outro problema: a revelação final de "Dragão Vermelho" parece ter sido criada somente para que o filme se alongasse por mais 10 minutos. Até então, tínhamos um desfecho coerente e forte para a produção. Com essa reviravolta, o filme perde um pouco, ainda que a cena final (um gancho para "O Silêncio dos Inocentes"), seja ótima e empolgante.

E, mesmo assim, não chegando aos pés de "O Silêncio...", "Dragão Vermelho" acaba sendo um suspense/policial dos bons, dirigido com segurança a surpreendente maturidade por Brett Ratner, e que, milagre dos milagres, é mais focado nos personagens do que na trama propriamente dita. Uma grata surpresa.

Nota: 
Crítica por: Diego Sapia Maia
Site Oficial : ---

 



 

 




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