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Espíritos - A Morte Está Ao Seu Lado

AHá muito, muito tempo, eu tive o prazer de descobrir a Sétima Arte através do terror. Freddy Krueger era um ícone que me fazia borrar as calças, mas minha primeira experiência em matéria de horror nos cinemas foi assustadoramente inesquecível. O filme era “Pânico 2” (Scream 2), a sala estava inteira lotada. Eu não sabia, mas o gênero havia sido reinventado por essa franquia, e a sala lotada era um indício disso. Sustos, gritos, histeria coletiva. Tudo aquilo era novo para mim, mas igualmente divertido e inspirador. Alguns filmes se seguiram e tiveram o mesmo impacto para mim, mas logo fui me acostumando e o gênero teve seus altos e baixos. Mas todas essas sensações foram revividas em minha memória ao assistir “Espíritos – A Morte Está Ao Seu Lado”, que estreou ontem em todo o Brasil.

Seqüências de arrepiar são o que não faltam nesse filme tailandês de 2004. Sustos muito menos. Também não faltaram gritos na sala de cinema, fatos que há muito, muito tempo eu não pude presenciar e participar. Usando de um assunto sempre controverso e inédito no cinema, “Espíritos” usa como mote principal a existência de provas de que fantasmas existem capturados por lentes fotográficas. Thun e Jane é um casal de fotógrafos que saem de uma festa um pouco embriagados. Por um momento de distração, eles acabam atropelando uma garota que atravessa desavisadamente a estrada no meio da madrugada. Desesperados pelo horror da situação e receosos de que possam ser punidos pelo acidente, eles decidem abandonar o local quando um carro pára para socorrer a garota. Atormentados pela culpa, eles passam a ter terríveis pesadelos que mais se parecem com a realidade. Mas o verdadeiro está para começar, a partir do momento em que eles percebem que há algo de muito estranho acontecendo com as fotos que tiraram depois do acidente. Vultos sinistros e alguns até semelhantes a um rosto humano começam a aparecer inexplicavelmente nas fotos. Eles tentam provar o contrário, mas tudo leva a crer que eles estão capturando uma força sobrenatural em suas lentes fotográficas e teme pelas suas vidas.

Nos últimos cinco anos, o mundo entrou em contato com o horror nipônico através da refilmagem norte-americana “O Chamado” (The Ring) do filme “Ring – O Chamado” (Ringu). O original data de 1998, mas somente passou a ser conhecido e reconhecido em 2002 com a estréia do fenômeno de bilheteria protagonizado por Naomi Watts que logo levou o original ao mercado de fora do Japão. Esse sucesso todo se deve à criatividade oriental em criar histórias originais em contextos de arrepiar. Fitas mal-assombradas, casas e apartamentos amaldiçoados. Os temas eram muitos, mas fantasmas e vingança eram sempre os mais recorrentes. Com “Espíritos” não é diferente. Mais uma vez tudo gira em torno de um fantasma e como todo bom espírito cinematográfico que está preso ao mundo dos vivos, ele tem assuntos pendentes a resolver, mas esse é o grande mistério reservado para o final do filme, um final realmente interessante e perturbador, algo que muitos filmes vêm tentando fazer a algum tempo, mas sem o resultado esperado.

“Espíritos” é capaz de capturar a essência do medo e jogá-la na tela para nossos pobres olhos acompanharem aterrorizados. Apesar de ficção, “Espíritos” mexe com um assunto bastante comentado (a existência de fantasmas comprovada por fotos) e polêmico, mas que não possuía um filme que tratasse do assunto. Não é só assustador porque pode ser real. É assustador porque pode acontecer com qualquer um; pode estar acontecendo conosco nesse exato momento. O mistério da morte não será nunca solucionado, mas para onde vão os que não estão mais entre os vivos? A partir do momento em que a vida acaba, está tudo acabado mesmo? Onde estão todos os que já se foram? Eles se foram mesmo ou estão ainda conosco? É dito em determinado momento do filme que esses fantasmas continuam no mundo dos vivos por alguma razão, seja para resolver um assunto em aberto ou por não conseguirem se desligar das pessoas que amam. E se não bastasse todo o assunto ter natureza assustadora, os diretores Banjong Pisanthanakun e Parkpoom Wongpoom conseguem criar tensão e sustos das mais simples cenas. Basta observar os pequenos detalhes assustadores que o longa apresenta em seu decorrer. Por exemplo em determinado momento em que Thun se encontra na sala de revelação de sua casa e que uma mulher (que supomos que é Jane) entra e para ao seu lado, sem que a câmera mostre seu rosto. Thun a cumprimenta. Toca o telefone e Thun sai para atender, só para constatar de que é Jane ao telefone avisando-o de que irá se atrasar. Um pequeníssimo detalhe mas que se mostra extremamente aterrador como muitas outros detalhes como um rosto estranho no meio de um turma de formandos ou então cabelos saindo de uma pia cheia de água. Mas os diretores seguram até onde podem, mas logo que a verdadeira face do fantasma e do que está ocorrendo se mostra, tudo se torna graficamente ainda mais assustador, com um fantasma com visual ainda mais assustador do que a Kaiako de “O Grito” (The Grudge). Aliás, “Espíritos” guarda muitas semelhanças com o fraco “Ju-On – O Grito” (Ju-On), embora se saia muito melhor em termos de história e sustos.

Se a direção primorosa já era um dos pontos fortes do filme, tudo é ainda melhorado pelas atuações do casal protagonista Ananda Everingham e Natthaweeranuch Thongmee. Não é nada pessoal, mas um motivo pelo qual eu acabo preferindo certas refilmagens em relação ao filme original é o que se refere ao sentimento. Por desconhecer a língua e boa parte de suas culturas, os orientais mostram-se frios e desprovidos de emoção. Não há como comparar as atuações de, por exemplo, Naomi Watts e Jennifer Connelly com as respectivas protagonistas dos originais de “O Chamado” e “Água Negra”. É emoção pura e interpretações realmente arrebatadoras. Já em “Espíritos”, o casal de protagonista possui atuações realmente marcantes, agindo naturalmente entre si e ainda apresentando grande carga emocional para platéia. A nossa “vilã”, apesar de não abrir muito a boca também consegue se destacar pela emoção que transborda de seus olhos, revelando uma tristeza e solidão imensos.

Terror do começo ao fim, sustos realmente assustadores (não existe susto falso, são todos bem verdadeiros), personagens complexos interpretados por bons atores, um assunto mais próximo da realidade, um fantasma que temos a impressão de estar sempre pronto para assustar a platéia e um final com revelações de deixar o queixo caído, "Espíritos - A Morte Está Ao Seu Lado" é sem dúvida uma obra-prima do terror, um filme que há muito tempo os fãs do gênero esperavam por.


Nota:
Crítica por: Arthur Castro
Site Oficial : www.terror24horas.com.br

 



 

 




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