Não é difícil identificar o motivo para tanta aclamação de “Inverno da Alma” (Winter's Bone), filme independente que tem arrebatado prêmios nos principais festivais de cinema independente – como o Gotham Awards, o Independent Spirit Awards e o Festival de Sundance – e ainda tem sido indicado em algumas premiações políticas e industriais – como o Globo de Ouro, o National Board of Review e agora também o Oscar.
O roteiro, adaptado por Debra Granik (também diretora do filme) e pela estreante Anne Rosellini, é baseado no romance homônimo de Daniel Woodrell e tem como protagonista uma garota de 17 anos, Ree Dolly, obrigada a se virar para sobreviver com os dois irmãos mais novos, após a morte da mãe.
Seu pai, acusado de trabalhar para o tráfico de drogas, colocou a casa da família como garantia de um negócio e desapareceu. Agora, a menina precisará encontrá-lo, para evitar que a casa seja vendida e o que restou de sua família seja ainda mais devastada.
Sem saber em quem confiar, em meio a vizinhos e conhecidos misteriosos, a garota partirá às cegas, em busca de algo que não sabe exatamente o que é, apenas tem certeza de que o perigo é iminente.
As atitudes dos personagens secundários são ambíguas e nunca se sabe o que os move a querer ajudar ou atrapalhar a jovem. A explicação talvez resida no fato daquela ser uma sociedade caipira, na qual a preocupação com a própria imagem, leva as pessoas a agirem por ora com bondade e por ora com frieza e desprezo. É o retrato de uma sociedade que, no filme é interiorana e regional, mas que na verdade pode ser encontrada em quaisquer outros lugares e níveis sociais.
Com ares de suspense, o filme não passa, na verdade, de um retrato de adolescentes que lutam desde cedo para sobreviver e cuidar (do que resta) da família, precisando tomar conhecimento do seu passado, ao mesmo tempo que precisa encontrar forças para seguir em frente.
A fotografia de Michael McDonough (“Nova Iorque, Eu Te Amo”), acinzentada, explora o lado sombrio das locações da região do Missouri, EUA e amplifica a opressão e o medo que toma a personagem principal, ajudando a manter a tensão até o final.
De roteiro bem lapidado, focado estritamente no que interessa (o drama da protagonista) e um elenco competente, com destaque para uma medonha Dale Dickey (“A Troca”), um irreconhecível e excelente John Hawkes (“Eu, Você e Todos Nós”) e a revelação Jennifer Lawrence, o filme é, de fato, um bom filme, mas está longe de ser arrebatador. Sua digestão não é fácil e deve ser apreciada apenas por aqueles que gostam de uma boa dose de introspecção.