Lanterna Verde
25.08.2011
Caio Viana

Quando comecei a escrever essa crítica, o processo desandou e acabou gerando um artigo sobre espectadores acéfalos. Nele, falo do problema evidente que obras do “gênero” de Lanterna Verde vêm criando para aqueles que apreciam o bom cinema, que friso, pode ser divertido sem diminuir sua inteligência.

A película é mais uma produção que visa a arrecadação pura e denota a falta de esmero de seus desenvolvedores, entregando ao espectador um dos lixos com a quantidade mais absurda de efeitos visuais que qualquer um já presenciou. Lanterna Verde não traz qualquer tipo de reflexão ou sensação que o público possa digerir após a exibição, se concentrando tão simplesmente em esconder suas falhas, sem sucesso. Esse não é mais um trailer de duas horas da Marvel como preparação para Os Vingadores, mas poderia muito bem se encaixar na categoria.

Logo que o filme tem início, conhecemos a história de alguns dos habitantes do planeta Oa que, no passado, enfrentaram um grande mal chamado Parallax, mas conseguiram detê-lo. Nos dias de hoje, com o despertar do vilão, a tropa dos Lanternas Verdes acaba recebendo a inesperada ajuda de Hal Jordan (Ryan Reynolds), um terráqueo que enfrentará inúmeras dificuldades até alçar o posto de herói. Com a ajuda de Sinestro (Mark Strong) e Tomar-Re (Geoffrey Rush), Jordan baterá de frente com o Dr. Hector Hammond (Peter Sarsgaard), assecla de entidade Parallax, enquanto tenta se entender com a mocinha Carol Ferris (Blake Lively).
Qualquer um que acompanhe a indústria cinematográfica mais a fundo sabe que, quando um filme nasce errado, tende a terminar pior do que começou. Nessa trajetória, Lanterna Verde se inclui. Não acompanhei as notícias de bastidores, mas tomando como fato apenas a projeção, já é possível notar os irreparáveis problemas que a produção enfrentou desde o princípio. O filme é uma clara tentativa da DC Comics de bater a hegemônica Marvel – que só perde para Batman – e, portanto, não é de se surpreender que tenha sido feito “nas coxas” para encarar a enxurrada de lançamentos da concorrente. Assim, é latente que Martin Campbell, normalmente um diretor competente, aqui se rende a um roteiro pedestre e acaba tendo que fazer contorcionismos para esconder os problemas que têm nas mãos.

Durante toda a sessão é possível notar cortes repentinos, momentos que não se concatenam e cenas que ocorrem sem a menor explicação, evidenciando sérias dificuldades de montagem e outros aspectos de uma pós-produção que já tinha no colo uma obra fadada ao fracasso. Num instante, acompanhamos Hal indo a uma festa da qual jamais seria convidado devido os problemas que causou. Como e por que ele está lá, ninguém sabe, exceto que Lanterna Verde precisa fazer sua primeira aparição e salvar a mocinha. Noutro momento, vemos o Dr. Hammond atentando contra a vida de cientistas e, inesperadamente, Jordan surge, já travestido como o herói, como se tivesse feito uso do seu sensor-aranha, audição superaguçada ou algo similar. Como explicar então a relação entre o senador e seu filho, que é envolvido em um projeto ultra-secreto por interferência daquele para, instantes depois, ser chutado de seu escritório e desprezado no restante da projeção? Ou mesmo a reação de Parallax ante seu servo que, já de posse do anel de Jordan, é castigado por ter “falhado em sua missão”?

Esquecendo a montagem, que poderia até ter suas falhas superadas por outros atributos do filme, inexistentes, diga-se de passagem, nos deparamos com uma história tão piegas e sem qualquer inventividade quanto a do recente Capitão América: O Primeiro Vingador. Temos um homem intrépido – Jordan – que tem desejos maiores que suas limitações e, subitamente, se vê lançado numa montanha-russa de transformações só por conta do “poder verde da vontade e coragem”, que aqui se equipara ao “coração puro” de Steve Rogers. Do outro lado da galáxia estão as Grandes Mentes do Universo, anciões do povo de Oa que lideram as decisões desses, mas que surgem como completos incompetentes capazes de permitir que o grande mal que gerou Parallax retorne às mãos dos Lanternas simplesmente porque não conseguem pensar numa opção melhor. E basta que Hal Jordan aponte quão incongruente é essa decisão para que seus pensamentos mudem, demonstrando que nem mesmo os que estão à frente de tudo têm alguma noção do que fazem.

Pior ainda é contar com um filme que se entrega descaradamente aos efeitos visuais sem pestanejar, utilizando-o não de forma orgânica, para auxiliar a história que está sendo contada, mas sim como um personagem principal que domina até mesmo os aspectos mais simples da produção. Não há como negar que certos detalhes de Oa impressionem, como os pedestais onde as Grandes Mentes do Universo se reúnem, mas os excessos no uso do CGI são tamanhos que, em muitos momentos, julgava estar vendo uma animação, e mesmo que o verde salte aos olhos, não justifica a indolência de seus idealizadores. Até mesmo uma desnecessária aplicação que se resolveria com lentes de contato foi dada aos olhos de Hal Jordan quando esse assume o papel de Lanterna Verde, trazendo das animações computadorizadas o aspecto de “olhos vidrados”, que a tantos incomoda, e diminuindo a interpretação de ator que já não é tão expressivo assim.

Ryan Reynolds, com um tino para comédias, repete aqui seus trejeitos e, auxiliado por um texto infantil e cheio de piadinhas, faz de suas aparições algumas das melhores passagens do filme. Se por um lado Jordan acaba assumindo uma postura juvenil que nunca seria aceita no âmbito de seu trabalho, por outro, é carismático o bastante para nos manter interessados em sua próxima tomada de decisão, ou falta dela. Já Tim Robbins, Blake Lively e Peter Sarsgaard pouco podem fazer por seus papéis. Robbins, um ator veterano surge em cena com a única missão de criar um drama para um vilão que também não tem qualquer motivo para existir, exceto chamar a atenção de Parallax para o planeta Terra no terceiro ato. E Blake Lively entra como o par romântico de Reynolds, mas não cria qualquer interesse no público quanto ao desfecho de sua relação com o herói, já que não há química entre os dois. Assim, o único que se salva é mesmo Mark Strong que, quase irreconhecível, acrescenta a Sinestro o peso de sua atuação carregada na voz e na impetuosidade – pena que tenha sido completamente sabotado pelo roteiro numa cena pós-créditos que tem como função exclusiva gerar uma continuação, que pelo andar da carruagem, jamais acontecerá.

Tendo como pontos altos apenas a narração inicial feita por Geoffrey Rush, que remete aos grandes clássicos da ficção científica graças a sua voz única, e alguns aspectos da fotografia, como as cores dessaturadas empregadas no flashback em que Jordan se recorda da tragédia que seu pai sofreu, Lanterna Verde é um filme que deve ser esquecido, já que não desperta qualquer tipo de emoção no espectador e, como espólio artístico, não deixa nenhum legado que mereça ser usado como exemplo em produções futuras. É apenas uma obra banal onde muitos meteram as mãos numa tentativa de conserto sem sucesso que, logo mais, deverá ser reiniciada a fim de se criar uma nova possível franquia.


Nota:

Crítica por: Caio Viana (Blog)