Não seria difícil duvidar da eficácia de "O Lutador", novo filme de Darren Aronofsky e estrelado por Mickey Rourke. Isso porque "O Lutador" conta a história de um decadente campeão de luta-livre, muito popular nos anos 80, e que hoje em dia precisa trabalhar carregando caixas para conseguir pagar o aluguel de seu trailler. Não,você não está lendo uma biografia de Mickey Rourke, essa é apenas a sinopse do filme.

Aronofsky é um conhecido diretor de filmes independentes, entre eles "Pi" e "Réquiem Para um Sonho". Mickey Rourke é o galã de filmes dos anos 80 como "9 ½ Semanas de Amor" e que, após um breve sucesso, largou tudo e foi lutar boxe, além de se envolver em diversos escândalos. Diante disso, não parece um filme interessante. No entanto, Mickey Rourke foi indicado aos principais prêmios da indústria cinematográfica e seu filme é comentado em todo lugar. A verdade é que Rourke interpreta a si mesmo a maior parte do tempo e, com isso, é relativamente fácil conquistar o público com o sentimentalismo fácil presente no longa.
Todos os grandes clichês necessários para comover a platéia estão presentes. O "monstro" se apaixona por uma bela mulher numa posição que não favorece sua dignidade, e só ele a enxerga de verdade. O desencontro de vontades que é necessário existir para provocar a simpatia e a cumplicidade do público em relação a história também está lá. Em prol de sua carreira bizarra, Randy "The Ram" abandonou sua filha e agora, ao receber notícias de que sua saúde não é mais a mesma, resolve procurá-la para pedir perdão. A filha, claro, tem um quê de revoltada e tudo indica que sua revolta em relação ao pai se reflete até mesmo em sua sexualidade.

No discurso de Randy no ringue, antes da luta com seu rival de 20 anos atrás, "Aiatolá", ele agradece a todos e diz que é grato de estar ali. Muitas pessoas haviam dito que ele nunca mais lutaria novamente, e que era um perdedor. Fala sobre quão dura é a vida e diz que hoje em dia não ouve muito bem e que esquece as "coisas". Não é Randy que está falando, e sim Rourke. Em decorrência de sua carreira como lutador de boxe, Rourke teve que fazer inúmeras cirurgias, e algumas delas não conseguiram evitar a perda parcial de audição e nem os danos cerebrais que provocam amnésias temporárias. Por 2 décadas, Mickey Rourke era persona non grata em Hollywood, e agora, em sua volta aclamada pela crítica, sente-se na obrigação de se desculpar como um bom menino.
"O Lutador" se encerra como uma fábula de autodestruição e libertação, com Randy deixando para trás toda a maturidade que se espera que um homem em sua idade tenha e literalmente lutando pelo que ele realmente gosta: a luta livre.