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A Mão do Diabo (Frailty)

Quem diria que Bill Paxton, ator sempre renegado à papéis secundários e nada expressivos em filmes como "Poderoso Joe" e "U-571", um dia chegaria a dirigir um filme? E mais: quem diria que o mesmo Paxton conseguiria uma estreia tão excepcional na direção? Seu "A Mão do Diabo" é, provavelmente, o melhor suspense do ano e a melhor surpresa que os cinemas brasileiros receberam nesses últimos meses.

Sem exageros: é uma raridade, quase um milagre, que um novato consiga estreiar tão bem ao assumir a cadeira do diretor. Poucos conseguiram tal feito, e Bill Paxton merece considerável reconhecimento por isso. Além de sua direção aqui ser segura e contida, ele ainda cria uma atmosfera de suspense que deixaria mestres orgulhosos.

Assim, o filme acaba se transformando num exercício de suspense crescente, do tipo que pega o espectador desde o começo e o tortura (no bom sentido) com cenas opressivas e situações extremas, tudo através do ponto de vista de um dos personagens principais, um garoto pré-adolescente.

Paxton soube trabalhar o pesado texto de Brent Hanley com sutileza, nunca apelando para cenas de violência sanguinolentas ou para vísceras espalhadas. A sugestão, portanto, acaba funcionando muito bem, e é um dos trunfos do filme.

Outro acerto, obviamente, é o roteiro de Hanley, que, além de assustar e impressionar com diálogos e cenas bastante criativas e macabras, ainda traz uma reviravolta excepcional em seus últimos 15 minutos, ainda que o restante do filme não seja especialmente imprevisível.

A história se passa numa cidadezinha do interior do Texas (essas histórias sempre se passam em lugares assim). Fenton Meeks (Matthew McConaughey), depois de ficar sabendo de uma série de assassinatos, vai até a delegacia para contribuir para as investigações. Ele sabe de coisas que podem resolver o caso do "Mão de Deus", um serial killer que já matou 6 pessoas. Fenton diz que seu irmão Adam é o responsável pelas mortes. No começo, o xerife local não acredita muito no sujeito, mas vai ouvindo sua história.

Fenton então narra os trágicos acontecimentos que marcaram sua infância. Um dia, depois de ter uma suposta visão de Deus, seu pai (Paxton), resolve seguir as ordens "enviadas" por um anjo e começa a caçar e a destruir "demônios" que se camuflam na pele de humanos normais. Fenton, então um pré-adolescente (interpretado por Matthew O'Leary), não acredita que seu pai possa sair por aí matando pessoas. Mas quando o primeiro "demônio" é "destruído", as coisas começam a se complicar, e Fenton se desespera. O fanatismo de seu pai, cada vez mais cego pela suposta "luz divina", se torna uma séria ameaça à sua vida e à de seu irmão, Adam.

A partir daí, a história começa a se desenrolar de maneira cada vez mais trágica e obscura. A "loucura" do pai de Fenton é capaz de tudo, até mesmo de aprisionar o garoto num porão que ele mesmo cavou, sem direito à comida nem água. A tensão entre Fenton e seu pai cresce cada vez mais, ao ponto deste achar que o filho é mais um dos demônios que ele tem de destruir.

Em meio à essa "caça aos demônios", os dois garotos acabam participando de assassinatos brutais, executados com um machado no quintal de sua casa. Ainda assim, a quantidade de sangue mostrada pelo filme é mínima. O que o espectador vê são alguns vultos, além de ouvir os barulhos abafados das machadadas fatais desferidas pelo cada vez mais alucinado e ambíguo personagem de Bill Paxton (algumas cenas chegam a lembrar "O Iluminado").

Como se já não bastasse o grande suspense criado ao longo da maior parte do filme, "A Mão do Diabo" ainda traz em sua conclusão uma reviravolta excelente, capaz de fazer o espectador repensar tudo o que fora visto.

O maior mérito dessa reviravolta, no entanto, é que, além de ser coerente, ela é capaz de despertar grandes discussões acerca do comportamento do assassino do filme. Afinal, estaria o serial killer realmente seguindo ordens divinas ou tudo aquilo não passa de alucinações de sua mente perturbada pelo fanatismo? O fato do filme ser narrado em primeira pessoa, felizmente, diminui as possibilidades de se saber a verdade ou de se conseguir respostas fáceis às indagações que surgem quando os letreiros sobem.

Contar mais alguma coisa sobre o desfecho é estragar boa parte dos méritos (que não são poucos) desta produção perturbadora. Filmada em apenas 37 dias com um orçamento de 11 milhões de dólares, a fita só peca por deixar de aprofundar uma discussão que poderia ser muito interessante, sobre a existência ou não de Deus e seus "enviados" à Terra, e sobre o fanatismo que acomete algumas pessoas a ponto de cegá-las e desvirtuá-las.

Mas, francamente, "A Mão do Diabo" não é e nem pretende ser uma discussão sobre fé e religião. É, mais do que isso, um suspense grandioso (apesar da modéstia), que conta uma história macabra e angustiante dirigida com surpreendente firmeza por um calouro na arte de se fazer cinema. Paxton tirou a sorte grande.

Nota: 
Crítica por: Diego Sapia Maia
Site Oficial : ---

 

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