Sobre o que Os Mercenários fala? Sobre sangue, explosões, tiroteios e quebra-paus, naturalmente. Os guerreiros profissionais são encabeçados por Barney Ross (Sylvester Stallone) e Lee Christmas (Jason Statham), e ainda contam com os homenzarrões Toll Road (Randy Couture), Hale Caesar (Terry Crews) e Gunnar (Dolph Lundgren), além de Ying Yang (Jet Li). Depois da saída de Gunnar, o time recebe a missão de derrubar o General Garza (David Zayas) na ilha latinoameticana de Vilena, e o resto é nitroglicerina pura.

Surpreendente, mas nem tanto, é o enfoque real do filme: a humanidade. É estranho que alguém faça uma fita de ação tão barulhenta que se preocupa de verdade com o íntimo de seus personagens. Não é estranho, por outro lado, que Stallone seja o diretor e co-roteirista dessa mistura aparentemente incompatível. Os filmes de seu personagem mais célebre, Rambo, são exatamente sobre o uso e desprezo de homens transformados em máquinas de guerra – ou seja, “descartáveis”, uma das traduções de “expendables”.
Aqui, eles não tentam sair dessa vida, evitando apenas perder completamente a sensibilidade perante as atrocidades que acompanham seu ganha pão. O mais interessante arco dramático é o de Christmas, que culmina em uma cena que é boa não pela sacada bacanuda da bola de basquete, mas porque mostra que resta algo humano dentro do assassino. Mais impressionante é a passagem em que o amigo dos mercenários, Tool (Mickey Rourke), relembra um evento de quando ainda aceitava missões. O monólogo traz uma angústia inimaginável graças à importância que o diretor dá ao instante e à sinceridade dilacerante do ator.

É também pelo senso de humor que os homens tentam provar que não são apenas monstros, como se vê nas reivindicações de Ying. Ele não consegue, obviamente, já que quer mais dinheiro por motivos um tanto hilários e, por isso, precisa continuar sendo um mercenário. Poucos conseguem se afastar desse círculo vicioso de violência, e se Stallone realmente se preocupa com os que tentam, também não dá nada para Hale, Toll e Ying além de brutalidade, piadas espirituosas e camaradagem de bar.
Outro desleixo inexplicável, mas menos sério, se dá nas cenas de ação. Nada que o diretor também não explique, afinal, Stallone filma tão bem quanto em Rambo IV – nada bem. Não chega a ser a catástrofe das câmeras de Esquadrão Classe-A, mas chega muito perto. Sem set-pieces elaboradas, apenas com uma fórmula “jogar os mocinhos (moções?) em tiroteios e perseguições e fazer um ou mais sentar a porrada nos vilões, e aí algo explode”, as sequências acertam pela honestidade. A posição “adrenalina é um prato que se come cru” chega a contagiar.

Mais admirável ainda é como a ação violenta, divertida e ensurdecedora dá espaço para questionamentos muito bem inseridos. As pausas são perceptíveis, especialmente na cena de Toll e no clímax, e não dá pra dizer outra coisa menos piegas: o filme prova ter um coração. É uma grata surpresa que uma constatação tão sentimental possa ser feita sobre a maior explosão de testosterona do ano.