Eu adoro o diretor Peter Jackson, não pelo seu trabalho na trilogia Senhor dos Anéis, mas pelo filme Almas Gêmeas, um dos meus preferidos de todos os tempos, em que a então atriz adolescente Kate Winslet foi lançada. Jackson mostrou ali que sabia filmar histórias difíceis com sensibilidade. Ele parecia retomar aos temas complexos ao escolher levar para a telona a adaptação do livro Uma vida interrompida - The Lonely Bones (algo como 'restos angelicais') que em português virou Um Olhar do Paraíso.

A história é chocante, abordando como Susie, de 14 anos, que é estuprada, morta e estripada, permanece entre os vivos como uma espécie de vigilante da família e do assassino. A menina não consegue se desencarnar e vê seu lar ser desfeito por causa da tragédia. Ao mesmo tempo, o homem que a matou continua vivendo sem nenhuma suspeita sobre o que ele fez.
A trama tinha tudo para se transformar em um grande filme, não necessariamente sobrenatural, mas especialmente sobre crime e castigo, uma espécie de Ghost mais profundo e tenso. Infelizmente Jackson erra a mão e abusa dos efeitos especiais, fazendo um filme longo, chato, sem graça e extremamente irritante graças aos erros grosseiros do roteiro e da edição.
Desde cenas em que a personagem de Rachel Weisz aparece de cabelos longos para, na sequência, estar de cabelos curtos - sem passagem de tempo! - até datas erradas - a história se desenrola entre 1974 e 1975 mas no filme há trechos que se referem a 1977 - há de tudo um pouco quando se trata das falhas de Um Olhar do Paraíso. E o que tem para dar e vender são efeitos especiais que tornam a trama um festival alucinógeno, com muita cor, muita fofura e muita compaixão no suposto 'estágio pós-morte' de Susie.

Para interpretar a doce menina assassinada, Jackson escalou Saiorse Ronan, de Desejo e Reparação. Ela está bem no papel, ao contrário de Mark Walberg e Rachel Weisz, que fazem os pais de Susie. Eles não despertam qualquer sentimento diante da tragédia. Susan Sarandon, que faz a avó da garota, parece só levar seu nome de peso para o cartaz. E Stanley Tucci, ator sempre talentoso e indicado ao Oscar de melhor coadjuvante, demonstra estar pouco a vontade como o assassino.
No final das contas, a trama pesada vira uma história arrastada e nada acrescenta a filmografia de Peter Jackson. Lamentável.