O Passageiro - Segredos de Adulto

Com a contínua expansão do cinema nacional, vemos cada dia mais a variedade de estilos dentro da nossa produção, que vão da comédia ao drama, do romance ao suspense. Um dos poucos espaços que o Brasil ainda não flertou foi com o cinema focado no adolescente, sejam em comédias, romances, ou em dramas, como é o caso de "O Passageiro - Segredos de Adulto". Talvez seja realmente difícil retratar um grupo tão em constante mudança, ou ainda a imagem de que adolescente não seja público para o cinema (o que não é verdade, vide as bilheterias estrondosas de filmes voltados para este público). Ou ainda seja muito difícil focar este público, fazer um filme "vendável" e ainda conseguir fazê-lo sem os costumeiros esteriotipos que tanto assolam as produções nacionais (principalmente em TV) sobre jovens.

"O Passageiro - Segredos de Adulto" nos apresenta a Antônio (Bernardo Marinho, que comentarei à seguir), um adolescente de aproximadamente 16 anos, que vive todos os conflitos dignos de uma pessoa nesta fase da vida, na passagem da adolescência para a vida adulta. Somos apresentados para um Antônio vindo de família rica (filho de Mauro, vivido por Antonio Calloni e Ângela, de Giulia Gam), engajado em obras sociais, rapaz extremamente tímido e querido por seus amigos, um jovem como muitos em nossa volta (talvez nem tanto pelos trabalhos sociais, infelizmente). Em constante conflito com o pai por não concordar com o tipo de vida que leva (seu pai é banqueiro), por não se identificar com a mãe, uma socialite que não se preocupa com o Mundo à volta), Antonio tenta buscar seu eixo fora de sua família, atingindo em seu trabalho social e seus amigos um universo paralelo ao mundo que vive, conseguindo fugir da visão de que quem tem dinheiro é feliz, imposta por seus pais. Transitando entre esses dois universos, vemos a força do personagem em lidar com tantas pequenas histórias tão distantes uma das outras, tendo apenas como ponto que as une justamente o ritual de passagem para a vida adulta.

Com a morte suspeita de seu pai, Antônio mergulha em um processo de descoberta da intimidade de seus pais, do enfraquecimento de sua mãe com a perda do marido (Giulia Gam em boa atuação), um pequeno triangulo amoroso, o fortalecimento de uma amizade genuína (com Cristina, de Luiza Mariani, em ótima atuação), e o surgimento de uma mulher até então misteriosa (Carolina Ferraz, linda e também muito bem), tudo isso tendo como fio condutor um rapaz tímido e ainda inseguro quanto a várias questões, transformando o personagem em alguém facilmente identificável, seja pelos jovens atuais ou por qualquer pessoa que se lembre de seus tempos de adolescência (mesmo com todas as mudanças do mundo). E grande parte desta "fácil identificação" vem do bom trabalho do jovem Bernardo Marinho, que dá veracidade ao personagem, transformando suas falas e expressões compatível com o jovem de hoje e com aquele representado na tela, não existe nenhuma mão pesada na caracterização de Bernardo em Antônio, o que é um mérito da produção e principalmente do ator.

Como um retrato até bastante fiel do jovem nos dias atuais, "O Passageiro" se qualifica como uma produção que prima pela realidade e pela riqueza de seus personagens. Como na vida, ninguém é 100% bom ou ruim, 100% coerente ou incoerente, mas todos somos pessoas que cometemos falhas, temos medos, aspirações, ideais e conflitos. O diretor Flávio Tambellini (de "Buffo e Spallanzini"), consegue com êxito fazer com que seus personagens passem essa veracidade, provando com este longa que existe sim vida inteligente entre os jovens brasileiros (apesar de alguns pequenos deslizes na caracterização da "rebeldia" de Antônio, que por vezes resvala no senso-comum, com direito à Che Guevara e frases de efeito, mas que nem de longe atrapalham a beleza do filme), ao contrário do que "Malhação" e similares tenta nos mostrar.


Nota:
Crítica por: Rodrigo Soares
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