Pecados Íntimos

Retratar a vida em um subúrbio americano com sua calmaria, preconceitos e o modo de vida americano é um dos pontos de partida do filme "Pecados Íntimos". O cotidiano de uma dona de casa fora do seu mundo habitual, um pai desempregado e que assume a função de dona de casa, um pedófilo que acaba de ser solto e um policial linha dura cheio de preconceitos são alguns dos personagens que compõem essa pacata cidadezinha.

O filme começa anunciando a volta do pedófilo para o bairro e a preocupação dos moradores com esse fato, como se esse fosse o fator e o personagem mais assustador que irá habitar o bairro e sua história. Mas o que observamos ao longo do filme são os desejos e frustrações de cidadãos comuns, que lidam com isso todos os dias e que aos poucos vão liberando suas vontades de diversas formas.

Sarah (Wisley) e Brad (Wilson) começam um caso pela falta e amor por parte de seus companheiros. Ela larga sua vida acadêmica em prol da filha e vive com o marido que só pensa em ganhar dinheiro, e mais tarde, em pornografia pela internet. Brad convive com a pressão da esposa, que sustenta a casa, para que ele passe na prova da Ordem dos Advogados, os dois sempre estão discutindo sobre gastos e despesas e há muito não têm uma vida a dois, pois ela só pensa em trabalho. O envolvimento de Sarah e Brad surge como uma válvula de escape, não só sexual, mas também emocional para ambos. Brad é quase um adolescente que foi obrigado a crescer fora do tempo (podemos observar isso quando ele beija Sarah inconseqüentemente no parquinho e como ele admira adolescentes andando de skate), para ele o caso é como uma tentativa de reviver essa fase da vida. Já Sarah vê nele um homem sensível e a possibilidade de viver algo real.

O personagem de Ronnie (Haley), o pedófilo, chega a causar pena e uma aproximação com o telespectador. O amor que sente pela mãe e as dificuldades que enfrenta por seu problema sexual mostram que ele é uma mescla sensibilidade com distúrbios sexuais tendo que conviver com o preconceito da cidade, principalmente por parte do ex-policial Larry (Emmerich), que o persegue como se estivesse caçando um animal não deixando Ronnie e sua mãe esquecerem o passado e seguir sua vida. O que nos lembra de nossos próprios preconceitos e naqueles que temos que aturar durante a vida.

Field em seu primeiro longa "Entre Quatro Paredes" coloca o dedo na ferida de uma pacata família americana e os segredos que a acompanham e levanta temáticas próximas do seu segundo longa. Todd Field nos faz pensar nos sonhos que deixamos para trás e as frustrações que isso pode nos causar, nos levando a tentar desesperadamente de alguma forma pelo menos vivermos, por algum tempo, essa sensação de liberdade e felicidade.

O diretor opta pela presença de um narrador que hora narra o pensamento de algum personagem ou conta algo do seu passado, dando ao filme toques de humor e leveza a narrativa. A câmera, quase sempre está em primeiro plano, traz um tom intimista entre o público, os personagens e seus sonhos.

Podemos nos identificar com os personagens e suas fraquezas e a esperança de que um futuro melhor ou mais promissor nos acompanha.

Nota:
Crítica por: Cinara Patrícia
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