Quando um Estranho Chama

Já faz muito tempo em que filmes eram feitos para o entretenimento. A Indústria Cultural transformou-os em produtos e cifras e para que então não houvesse mais erros que resultassem em prejuízo, os filmes forma transformados em fórmulas: uma que funcione passa a ser copiada por várias e várias vezes pois é sempre sinônimo de lucro. Isso é o que aconteceu com as refilmagens de horror, se iniciando oficialmente com "O Chamado" (The Ring) em 2002 que logo deu origem às mais diversas refilmagens, a maioria delas se utilizando da idéia centra do filme original e dando todo um corpo novo ao material. Pois a verdade é que não é mais verdade que essa fórmula é garantia de sucesso, já que a qualidade esses remakes vêm caindo constantemente, assim como suas bilheterias. Não sou contra essas refilmagens, de algumas delas até gosto bastante, entretanto, "Quando um Estranho Chama" prova que elas estão próximas de deixar de existir.

Jill Johnson é a típica adolescente de classe média-alta, norte-americana ou não. Depois de ser traída pelo namorado pela sua melhor amiga, ela passa de todos os seus limites para seus pais, quando gasta mais de 800 minutos em conversação com seu namorado pela seu celular. Obrigada a pagar essa conta astronômica, o pai de Jill a força a trabalhar de babá de duas crianças filhas do riquíssimo casal Mandrakis. Tudo indicava um noite tranqüila, já que as duas crianças se encontravam dormindo desde a hora em que Jill chega à mansão. Mas a paz que reinava no noite da adolescente é interrompida por telefonemas recebidos de alguém que não se identifica, e que mal se comunica, deixando à Jill apenas o som de sua respiração. Os telefonemas começam a aumentar com o passar do tempo, assim como barulhos e sombras estranhas começam a deixar a babá apavorada. Tudo mesmo vira um pesadelo quando Jill percebe que não só está sedo observado pelo maníaco mas que ele já se encontra detro da casa.

Utilizar apenas a premissa original de "Mensageiro da Morte" (When A Stranger Calls) de 1979 é a primeira grande má idéia dessa produção. Enquanto o estranho ameaça Jill durante parte do filme de 79, em "Quando um Estranho Chama", tudo gira em torno dessa situação, nada criativa, nada instigante e nada original. São tantos os problemas de um filme como esse que é até difícil organizar o pensamento para dar coerência aos argumentos, uma vez que meu desejo é só vomitar xingamentos e ressentimentos. Começando pelo começo, "Quando um Estranho Chama" tem uma das aberturas mais pilantras que já pude presenciar em um filme. O bom senso e o senso-comum indicam que o começo de um filme têm o objetivo (mais do que lógico) de se iniciar a história para a qual dedicaremos a próxima uma hora e meia de nossas atenções ou pelo menos para dar o tom que o filme adotará. Pois nosso prefácio aqui ocorre em uma cidadezinha 200 quilômetros distante de onde mora nossa heroína Jill. L[a. uma outra babá passa a ser aterrorizada por telefonemas estranhos até que é atacada por um estranho. No dia seguinte acompanhamos um detetive indo ao local do crime, abrindo a porta do quarto, fazendo uma cara de puro choque e então vemos os policiais retirando quatro corpos (inclusive de crianças) da casa em questão. Seria interessante e até assustador se quando o filme chegasse ao final, percebêssemos que aquilo não passou de uma tentativa frustrada de inserir o fator "ameaça" na história, nos dando a ilusão de que logo mais, Jill terá que enfrentar um vilão realmente assustador. De fato ele aparenta ser assustador, conseguindo inexplicavelmente manter seu rosto sempre em sombras. Mas, como disse, é só uma tentativa frustrada do roteiro do estreante Jake Wade Wall (que também está cuidando dos roteiros da rafilmagem de "A Morte Pede Carona" e da nona parte de "Halloween") de nos deixar esperando pelo pior. Besteira, apenas.

Se o primeiro erro do filme é o seu roteiro, o segundo seria sem sombra de dúvida a direção, que nessa caso ficou por conta de Simon West, um diretor de filmes de ação como "Con Air - A Rota da Fuga" e "Lara Croft: Tomb Raider" e que flertou de leve com o suspense em "A Filha do General" (The General's Daughter). West não é e nunca foi a melhor opção para se dirigir um filme de suspense de (e para) adolescentes; é um diretor acostumado a trabalhar com um elenco adulto, o que tornou "Quando um Estranho Chama" um tremendo de um desafio em sua carreira, desafio o qual não conseguiu vencer. Além de não ter controle nenhum sobre os atores sob sua direção (culpa também do elenco inexperiente), West não tem a mínima noção de suspense e terror, incluindo seqüências desnecessárias e intermináveis. Os clichês são tantos (culpa também do roteiro, e de todos os envolvidos, uma vez que todos sabiam no barco que estavam entrando) que não tem nem como numerá-los. A velha "caminhada" de costas que qualquer personagem tem que dar em um filme desse tipo para então se surpreender com algo que certamente vai assustá-lo mas que é maisl motivo imbecil para um susto falso na platéia, seja um gato, seja um casaco atrás da porta. A falta de tato para o diretor comanar seqüências tensas é tanta que estas não duram mais de dez minutos e apesar de algumas soarem convincentes, parecem ter sido totalmente improvisadas, especialmente o confronto final entre Jill e o tal estranho, que é totalmente caótico e descordenado.

O final é outro ponto que merece um parágrafo somente para ele, já que conclui de forma patética e desinteressante um dos filmes mais sem história para contar dos últimos anos. Um filme deve acabar quando não se há mais história para contar, ou seja, "Quando um Estranho Chama" desobedece qualquer lógica e nos traz o final mais estúpido, mais sem graça, mais sem sentido, mais desnecessário, mais desinteressante, mais imbecil que eu já vi em muitos anos de experiência assistindo filmes de terror e suspense. Se você não assistiu ao filme (sorte sua!) e ainda quer conferir, não leia o resto do parágrafo. Não há como não comentar desse final. Depois de ter vencido seu arqui-inimigo em uma luta fraquinha (o que prova mais uma vez que aquele alvoroço do começo do filme era apenas fachada, já que uma colegial conseguiu vencer o perigoso serial killer), Jill recebe os cuidados médicos e o maníaco é preso. Em seguida, nos encontramos observando Jill deitada em uma cama de hospital se levantando do que parecia ser um sono profundo. Ela se levante e sai de seu quarto. No corredor, não há ninguém, assim como não há um ser humano sequer dentro do hospital. É óbvio de que se trata de um sonho, não há abertura alguma para outra interpretação já que no mundo real não existem hospitais vazios nem de dia nem de noite. O telefone então toca (o que só gerou risada por parte dos espectadores), ela retorna ao seu quarto e é então atacada pelo 'estranho', acordando gritando num hospital e agindo como louca, fazendo com que os médicos a deixem sedada. Fim. Terminou o filme. Qual é o propósito? Dizer que ela ficou louca devido a esse incidente? Tudo bem, mas mais uma vez: qual é o propósito? Uma experiência dessas é no mínimo traumatizante, mas terminar o filme de forma tão inutilmente mal-elaborada é realmente uma ofensa para quem pagou para assistir a essa refilmagem.

E se já não bastassem todos os problemas dessa produção, o elenco é um dos piores já reunidos para um filme de suspense/terror. A protagonista Camilla Belle (filha de mãe brasileira) até que tenta ingressar nesse gênero que impulsa carreiras, mas no seu caso, dependendo deste filme, acredito que ela vá ficar desempregada durante um bom tempo. A atriz, de 19 anos, nem ao menos se esforça para fugir dos esteriótipos do gênero, muito menos se preocupa em soar verdadeira, soltando gritinhos forçados e com trejeitos irritantes. O resto do elenco, apesar de não ter qualquer relevância na trama, parecem ter todos sido interpretados por atores e atrizes que realmente se arrependeram de participar de um filme desses. Mas a verdadeira vergonha mesmo é Katie Cassidy, que logo mais estará nas telonas novamente me outra refilmagem de horror, "Black Christmas". Ela é um esteriótipo ambulante da loira burra e piranha (como ela mesma se denomina) e ainda uma péssima atriz, de dar dó mesmo. Como essa daí conseguiu emprego como atriz é um verdadeiro mistério, talves até mais interessante do que o mistério de "quem é o 'estranho'?".

Assumindo o posto de Pior do Ano na categoria Suspense/Terror (o pior no geral é e vai ser "Uma Comédia Nada Romântica" durante um bom tempo), "Quando um Estranho Chama" é um filme inútil; uma refilmagem que mostra o porquê de não precisarmos de refilmagens, explorando com muita precisão cada detalhe que não deve ser feito por um diretor/roteirista/ator que está tentando ingresar no gênero.

Nota:
Crítica por: Arthur Castro
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