Querô

Noite de Sábado na bela Tiradentes, interior de Minas Gerais. 20 horas, hora da exibição para a platéia mineira do longa "Querô", de Carlos Cortez. O filme, uma adaptação da obra de Plínio Marcos, nos apresenta à um garoto como vários nascidos à cada dia nesse Brasil. Filho da prostituta Piedade, vivida por Maria Luíza Mendonça, o garoto nascido Jerônimo (Maxwell Nascimento) é criado pela cafetina Violeta, mulher que ao longo da projeção percebemos que não o dedicou nenhum tipo de carinho ou cuidado, deixando o jovem Jerônimo à margem da própria sorte.

Sem uma base familiar ou uma perspectiva de um futuro digno, Jerônimo se transforma em Querosene, ou simplesmente "Querô", um jovem delinqüente que em uma tentativa de furto acaba caindo na Febem. Nesse ponto o filme se engrandece, mostrando a triste realidade que milhares de jovens podem estar passando neste momento: ao invés de usufruírem um ambiente de reeducação e ressocialização, nos deparamos com uma realidade tão cruel que a das ruas: jovens esquecidos, sem qualquer ocupação, servindo apenas de local para o aumento do ódio e da revolta daqueles vários jovens. Neste momento era possível ver a fixação da platéia no filme, envolvidas não só na exibição do longa, mas pensando que a realidade é tão cruel quanto à ficção, infelizmente.

Em uma fuga em massa Querô volta pras ruas, passa por situações que fazem cada vez mais reafirmar que a vida não lhe deu outra opção. O menino nascido Jerônimo não existia, a vida, injusta para muitos, havia lhe oferecido apenas à opção de ser o delinqüente Querosene. Não necessariamente era a vida que o garoto desejava, mas fruto de diversos fatores (sociais e familiares), é isto que lhe resta.

Existem vários pontos a se destacar no filme: Maxwell Nascimento é o ponto alto do filme (ao lado dos 40 meninos que compõem todos os internos da Febem), dando ao protagonista seu misto de carência, inocência e ódio, despertando no espectador sensação diferentes, mas que podem caminhar juntas: a compaixão e o medo. Impossível não se assustar com Querô, afinal, ele é o típico garoto que, infelizmente, está em cada esquina das cidades pelo país. Entretanto, é impossível não se comover pela realidade que o colocou naquela situação, torcendo para que o jovem nascido Jerônimo tenha um destino um pouco menos cruel do que os que vemos diariamente nos jornais. Apesar de não ser ator profissional Maxwell está à vontade em cena, sustentando muito bem o filme (já que ele está em praticamente todas as cenas), sendo merecedor de cada elogio até aqui, coroado com o prêmio de melhor ator no Festival de Brasília.

O diretor Carlos Cortez consegue levar pras telas um filme que é bem construído, bem interpretado por todo elenco (talvez nem tanto por Aílton Graça, que está um tom acima, mas que não atrapalha na narrativa) demonstrando com sua câmera toda inquietude que o público sente. Vindo da produção de documentários, o diretor consegue dar uma veracidade quase documental à sua história. Um filme real, que sem dúvida desperta no espectador uma indignação com tudo que acontece no país e a forma com que nos posicionamos quanto à isso. Apesar da realidade do tema, "Querô" não é um filme panfletário, com diálogos moralistas como muitos (o que com certeza faria o filme ser inferior); é uma ficção, que através da tela grande propõe além de entretenimento um novo pensar sobre nossa juventude. E consegue êxito nos dois.

Nota:
Crítica por: Rodrigo Soares
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