| Se há uma dor que não possa ser descrita em palavras, talvez seja a da perda de um filho. Mas este sentimento arrasador pode ganhar uma força inestimável através de imagens, se bem transportado. O roteiro de David Lindsay-Abaire foi baseado na peça homônima, também de sua autoria, ganhadora do Prêmio Pulitzer para Dramas em 2007, além de receber várias nominações ao Tony Awards daquele ano. |
De posse de um trabalho tão preciso e enxuto quanto este, o diretor John Cameron Mitchell (Shortbus) fez miséria e colocou o filme num patamar muito mais alto do que o que se esperava.

A história de Becca e Howie, casal que luta para reconstruir a vida após a morte do filho de 4 anos é densa, vagarosa, sofrida. Os dias se arrastam e cada vez mais a relação do casal parece se esvair em ressentimentos e fugas distintas. É assim que vemos na tela a fidedignidade do que normalmente acontece quando um casal precisa se reestabelecer, mas cada um encontra válvulas de escape diferentes e lida como pode com o próprio sofrimento.
Às vezes não se percebe que rumos a vida está tomando e a dor que se sente pode ser tão grande que impede que se aviste o outro. É duro ver uma relação assim e não há ninguém que possa dizer que esta ou aquela é a decisão certa.
Tanta dor é absorvida com impressionante introspecção por parte do elenco, especialmente por Nicole Kidman (Moulin Rouge), que por mais que esteja com menos expressão facial que antigamente e deformada por tanta plástica, mostra que ainda pode dar a volta por cima na carreira e realizar excelentes atuações como essa. Aaron Eckhart (Obrigado Por Fumar) segura bem as pontas como o pai, mas serve mais de escada para Nicole. O mesmo não acontece com Dianne Wiest (Edward Mãos de Tesoura) e Tammy Blanchard (O Bom Pastor), que fazem a mãe e a irmã da protagonista, respectivamente, e se põem no mesmo patamar alto de atuação.

O realismo da situação é forte e não deixa dúvidas: é duro conviver com uma perda tão grande. Nas palavras de Howie: “é como se ele (o filho) ainda estivesse por aqui. Às vezes sinto que ele está em seu quarto, brincando, escondido debaixo da cama...”. É duro deixar a ficha cair, mas a mãe de Becca, que também passara pela mesma tragédia, a certo momento sabiamente diz: “...na verdade, este ferida nunca será fechada; mas quer saber? Isso é bom.”
Alguém aí tem um lenço?