Reencontrando a Felicidade
05.05.2011
Fred Burle

Se há uma dor que não possa ser descrita em palavras, talvez seja a da perda de um filho. Mas este sentimento arrasador pode ganhar uma força inestimável através de imagens, se bem transportado.

O roteiro de David Lindsay-Abaire foi baseado na peça homônima, também de sua autoria, ganhadora do Prêmio Pulitzer para Dramas em 2007, além de receber várias nominações ao Tony Awards daquele ano.

De posse de um trabalho tão preciso e enxuto quanto este, o diretor John Cameron Mitchell (Shortbus) fez miséria e colocou o filme num patamar muito mais alto do que o que se esperava.

A história de Becca e Howie, casal que luta para reconstruir a vida após a morte do filho de 4 anos é densa, vagarosa, sofrida. Os dias se arrastam e cada vez mais a relação do casal parece se esvair em ressentimentos e fugas distintas. É assim que vemos na tela a fidedignidade do que normalmente acontece quando um casal precisa se reestabelecer, mas cada um encontra válvulas de escape diferentes e lida como pode com o próprio sofrimento.

Às vezes não se percebe que rumos a vida está tomando e a dor que se sente pode ser tão grande que impede que se aviste o outro. É duro ver uma relação assim e não há ninguém que possa dizer que esta ou aquela é a decisão certa.

Tanta dor é absorvida com impressionante introspecção por parte do elenco, especialmente por Nicole Kidman (Moulin Rouge), que por mais que esteja com menos expressão facial que antigamente e deformada por tanta plástica, mostra que ainda pode dar a volta por cima na carreira e realizar excelentes atuações como essa. Aaron Eckhart (Obrigado Por Fumar) segura bem as pontas como o pai, mas serve mais de escada para Nicole. O mesmo não acontece com Dianne Wiest (Edward Mãos de Tesoura) e Tammy Blanchard (O Bom Pastor), que fazem a mãe e a irmã da protagonista, respectivamente, e se põem no mesmo patamar alto de atuação.

O realismo da situação é forte e não deixa dúvidas: é duro conviver com uma perda tão grande. Nas palavras de Howie: “é como se ele (o filho) ainda estivesse por aqui. Às vezes sinto que ele está em seu quarto, brincando, escondido debaixo da cama...”. É duro deixar a ficha cair, mas a mãe de Becca, que também passara pela mesma tragédia, a certo momento sabiamente diz: “...na verdade, este ferida nunca será fechada; mas quer saber? Isso é bom.”

Alguém aí tem um lenço?


Nota:

Crítica por: Fred Burle (Blog)