O incêndio no poço de petróleo é uma das melhores seqüências do cinema neste inicio de século. Ela inicia quando um jato de gás lança o filho adotivo do explorador de petróleo Daniel Plainview contra um anteparo, deixando-o surdo. Daniel leva o filho nos braços para um escritório acompanhado por uma música destoante. Logo em seguida, o poço se incendeia. O contraste entre o fogo e a vasta escuridão domina a cena. Já com o sol, os funcionários acabam com o fogo e Plainview se ergue, dominando a tela, uma síntese visual do seu caráter ganancioso.

Essa é apenas uma das belíssimas imagens do novo filme de Paul Thomas Anderson, "Sangue Negro". Ele acompanha a saga de Daniel Plainview (Daniel Day-Lewis) do fim do século XIX aos anos 1920, quando já é um grande empresário petroleiro. Depois de um bom tempo sem fazer longas, Anderson nos presenteia com um trabalho recheado de contrastes.
Além dos contrastes da cena descrita acima, Plainview e o pastor Eli Sunday (Paul Dano) encarnam duas características opostas: a ambição capitalista e o fanatismo religioso, respectivamente. Religiosidade e capitalismo são as pedras fundamentais da sociedade americana. Quando Anderson põe em confronto as personagens ele tenta mostrar a gênese dos Estados Unidos.
Ao chegar a um vilarejo na Califórnia, Plainview sai comprando terras para explorar. Sunday tenta tirar um naco para sua Igreja da 3ª Revelação. Aparentemente defendendo bandeiras opostas, ambos querem poder. O final do filme - que não contaremos - traduz o que o diretor acredita ser a força predominante na sociedade americana.

Contrastes também no comportamento de Plainview em relação com seu filho, chamado unicamente de H. W.: se em parte do filme ele demonstra amor, em outras - principalmente após o acidente - o filho figura uma estorvo. Apesar de sua declaração final sobre o filho, ainda permanece a dúvida sobre os seus sentimentos para com ele.
Hoje, Anderson é um dos diretores que melhor usa a música como elemento dramático. Nesta obra, ela acentua diferenças. Tprna-se é elemento central em passagens como a do incêndio e a primeira cena do filme. A trilha foi composta por Jonny Greenwood, guitarrista do Radiohead. Com formação clássica, ele fez uma trilha-sonora sortida atendendo as várias dimensões do filme. E Anderson sabe trabalhar esses elementos, ressaltando ou contrastando com as cenas. Já fazia tempos um diretor não se saia tão bem com a música.

O filme merecidamente concorre ao Oscar em categorias como melhor ator (Daniel Day-Lewis), melhor diretor e melhor filme. Se ele não vencer melhor filme ou diretor, não tem problema, ele já passou a porta de entrada do Olimpos da Sétima Arte!