Os Smurfs
11.08.2011
Caio Viana

Quando, ao final da sessão, você perceber que está prendendo a respiração e com todos os músculos do seu corpo tensionados, não se transtorne. Assim que os créditos sepulcrais do filme surgirem, as impressões que foram talhadas ao longo da projeção na sua mente virão à tona e só então você poderá retornar ao seu mundo.

Os Smurfs foram, originalmente, personagens secundários criados para quadrinhos pelo artista belga Peyo. Devido sua escalada de sucesso, não demorou muito para que eles passassem a protagonizar histórias e, mais tarde, um série animada produzida pela Hanna-Barbera; série essa que foi transmitida pela Rede Globo nos anos oitenta e que muitos adultos hoje ainda lembram com saudosismo enquanto cantarolam mentalmente sua música-tema.

Ressuscitados quase vinte anos depois, as adoráveis criaturas azuis retornam em grande pompa num filme que mistura live-action e animação. Nele, Os Smurfs estão prestes a comemorar o Festival da Lua Azul quando o bruxo Gargamel (Hank Azaria) e seu gato, Cruel, encontram a vila dos pequeninos. Numa sucessão de acidentes, seis membros daquele povo acabam cruzando um portal mágico e alcançando a cidade de Nova Iorque. Perdidos, encontram ajuda e conforto no casal de humanos, Patrick (Neil Patrick Harris) e Grace (Jayma Mays).

Apesar das inúmeras suposições alegóricas que os quadrinhos e desenhos geraram, desde viagens alucinógenas de seu criador até representações do comunismo, é inegável o poder apaixonante que aqueles seres míticos despertavam nos espectadores (ou leitores). O filme trata de deixar toda a especulação de lado, obviamente, e leva o público a conhecer a faceta diegética dos Smurfs. Numa apresentação apressada, porém eficiente, acompanhamos o azul Desastrado numa sequência de tropeços através da vila mágica. Assim, entre travellings e muitos cortes, conhecemos segundos de características dos membros mais importantes daquele povo através de ações que se refletem em seus nomes (como Vaidoso ou Ranzinza) - um recurso óbvio, porém criativo, já que estamos falando de um filme infantil, com pouco tempo de projeção e que, no decorrer dessa, importarão apenas seis dos Smurfs: aqueles que conduzirão a história.

É interessante a maneira como Bill Boes, diretor de arte, constrói o vilarejo de cogumelos. Os detalhes são muitos e, apesar de não abandonarem o tom cartunesco, jamais deixam de soar realistas. Pena que o cuidado com tal elemento passe a ser trabalhado numa escala decrescente de criatividade à medida que a película avança. Basta perceber que, assim que os Smurfs alcançam Nova Iorque, encontram uma lata de lixo, criando um interessante contraste entre os mundos. Contudo, esse recurso é utilizado unicamente nessa cena, pois dali em diante a cidade surge como um espelho da vila Smurf na arquitetura humana. O realismo abandona completamente a composição da metrópole dando lugar a cores saturadas e calçadas perfeitas. E já no ápice do filme, Boes parece se entregar ao piloto automático quando recria um cenário de um castelo medieval sem qualquer sinal de brilhantismo, onde mesmo os muros da construção soam falsos.

Se é possível deixar essa questão de lado, ao menos um dos grandes temores em relação ao roteiro se mostra infundado: a retirada dos pequeninos de seu mundo e a transição deles para o nosso. É evidente que o universo criado por Peyo é rico o bastante para que tal artifício não precisasse ser utilizado, o que poderia gerar até um filme mais interessante do ponto de vista criativo. Porém, seus produtores não iriam se arriscar em terreno onde tantos já fracassaram nos últimos anos, a exemplo de As Crônicas de Nárnia, e se entregam ao velho e cinzento costume de mesclar fantasia e realidade. Mas graças ao carisma de Papai Smurf e companhia, mesmo esse intercâmbio se mostra aprazível, e não deixam de ser hilárias algumas gags e soluções encontradas pelos quatro roteiristas, como em dois momentos nos quais os Smurfs viajam no capô de um táxi e, para se manterem ocultos aos olhos dos transeuntes, camuflam-se em propagandas do Blue Man Group e do Blu-Ray Disc.

Outro aspecto curioso diz respeito ao reconhecimento de Peyo pelo enredo. Não tomando para si os créditos da criação, Raja Gosnell e equipe compõem passagens emocionantes onde homenageiam o artista, seja nos créditos finais ao inserirem os desenhos originais das criaturinhas, ou mesmo durante o filme quando os Smurfs encontram num livro alguns dos quadrinhos do desenhista e citam seu nome, mesmo sem o conhecerem, com deslumbre. São também funcionais as descobertas pelos seis das coisas no nosso mundo, seja quando chamam um notebook de "janela mágica" e idolatram o Google ou quando veem um carro pela primeira vez e Papai Smurf usa a expressão "carroça mecânica" para designá-lo. As descobertas de Gargamel não são menos inusitadas e funcionam bem com a personalidade do vilão, vide os instantes nos quais ele se identifica com um mendigo intitulando-o feiticeiro ou ao encontrar fumaça saindo de bueiros e fazer uso dela para criar uma "entrada mais eficaz". Porém, como numa montanha-russa, o script tem seus baixos e eles, em sua grande maioria, ocorrem pelo excesso da metalinguagem que, assim como em Shrek, deixa de ser engraçada após as primeiras aparições.

Num dado instante quando Gargamel é preso, ele convoca uma mariposa para libertá-lo da prisão, lançando uma magia para que ela convoque águias numa clara citação à prisão de Gandalf em Orthanc n'O Senhor dos Anéis, compondo uma cena que não é digerida facilmente já que destoa da natureza apresentada até então. Outro momento completamente desnecessário é aquele em que Smurfete recria a clássica cena de Marilyn Monroe e seu vestido branco erguido pelo vento, o que nos leva novamente a crer que, se se tivesse investido apenas no mundo mágico dos Smurfs, a obra poderia evitar passar por tais constrangimentos que só evidenciam a falta de criatividade de alguns de seus desenvolvedores. Infelizmente, a história expõe também furos imperdoáveis, ficando evidente que tantas mãos em um só roteiro normalmente não são uma boa opção. A título de exemplo, menciono a ação que transcorre numa antiga biblioteca onde, inesperadamente, Gargamel surge com um pouco mais da Essência Smurf que, cenas atrás, alegara não possuir.

E se a narração é balanceada entre boas e más decisões, o mesmo não ocorre com a direção. Raja Gosnell, de Esqueceram de Mim 3 (a parte da franquia que deveria ser esquecida), recai no lugar-comum ao compor planos e enquadramentos que às vezes paqueram com os desenhos animados, mas que, na maior parte do tempo, são formulaicos e desinteressantes, dignos de uma produção com cadeira cativa na Sessão da Tarde. Há elipses bruscas, evidentemente por culpa da montagem também errática, e construções que maculam a alma dos azulzinhos, como aquela em que os Smurfs jogam Guitar Hero (ou qualquer um de seus derivados) juntamente com Patrick. E é uma pena que, com exceção das composições instrumentais, a trilha incidental se afaste tanto do propósito do filme, já que tem claras intenções de atualizar a obra, criando passagens sem qualquer contexto.

Quanto aos atores de carne-e-osso, todos os méritos vão para Hank Azaria, que recria um Gargamel tão excêntrico e fiel à obra, que acaba despontando como um dos vilões mais divertidos do cinema neste ano. Suas interações com o gato Cruel perfazem o conjunto das cenas mais hilárias do filme e todos os trejeitos do personagem são tão bem absorvidos pelo ator que, mesmo nos instantes em que Gargamel lida com humanos, é impossível não rir das soluções encontradas e dos comentários do vilão. Já Neil Patrick Harris e Jayma Mays estão presentes por pura necessidade e não acrescentam nada além do que se podia esperar em seu envolvimento com os visitantes do outro mundo, salvando-se apenas em passagens mais tocantes, como numa conversa entre Patrick e Papai Smurf no alto do prédio, mas não por méritos de atuação. E Sofia Vergara surge aqui com um papel completamente descartável numa das tramas mais fracas da história.

Com exceção dos problemas não resolvidos em relação aos olhos "vítreos" de personagens animados, os efeitos especiais são bem convincentes, mesmo nos encontros dos pequeninos com elementos ou pessoas da nossa realidade, algo que fica bem claro em dois dos momentos mais cômicos do filme: o primeiro contato de Patrick e Grace com os seis e a ação que se passa numa loja de brinquedos. E a recriação da vila, rica em detalhes palpáveis, acaba sendo uma das passagens mais belas da fita - um ponto positivo para a Sony Animation.

Ao final, uma coisa era certa: as crianças vibravam na mesma toada dos Smurfs, o que não deixa de ser emocionante, pois mesmo irregular, o filme diverge da linha de violência e insinuações com as quais os infantes têm que lidar no cinema dos dias atuais. Por ser obviamente infantil, engraçadinho e, principalmente, inocente, o filme escapa de outros deméritos merecendo mais créditos do que os que foram concedidos até então. Não há como negar que os personagens da altura de três maçãs são dotados de extremo carisma e, certamente, ficarão nas mentes dos pequenos por muito tempo.


Nota:

Crítica por: Caio Viana (Blog)