Um Sonho Possível


Resquícios de Oscar. Um Sonho Possível (The Blind Side), filme pelo qual Sandra Bullock ganhou seu primeiro Oscar de melhor atriz, estreia no Brasil com este gostinho. Resquício porque a premiação deste ano já é página virada – e esquecível – e resquício porque este é um longa que faz (bem levemente) o estilo que a Academia gosta de premiar, mas que neste caso faz mais o perfil de uma sessão da tarde do que propriamente um filme a ser lembrado por especialistas.

O longa é o maior sucesso da carreira de Sandra, tendo arrecadado mais de US$ 250 milhões de dólares só nos EUA.

Bullock faz o papel de Leigh Anne Tuohy, cujo marido é dono de uma rede de restaurantes nos EUA. Com uma família “perfeita”, eles resolveram ajudar Michael Oher, um garoto de 17 anos com problemas de aprendizagem e que estava sem lugar para morar, depois de ser expulso de casa.

A história é baseada no livro The Blind Side – Evolution of a Game, de Michael Lewis, que por sua vez, baseou-se na história da vida do bem sucedido jogador de futebol americano, Michael Oher para escrever seu livro. A direção fica a cargo de John Lee Hancock (nada relevante) e a música é assinada pelo “bola da vez” Carter Burwell (Crepúsculo; Onde Vivem os Monstros; Um Homem Sério; Queime Depois de Ler), mais uma vez fazendo um ótimo trabalho.

O fato é que o prêmio maior do cinema dado a Sandra Bullock parece-me mais uma questão de oportunidade de ovacionar uma atriz competente e querida pelo público e pelos colegas do que propriamente a confirmação de que esta foi a melhor atuação do ano. Sem dúvidas, Meryl Streep estava melhor em Julie e Julia, mas esta ainda fará muitos trabalhos passíveis de serem premiados, ao contrário, possivelmente, da concorrente. Meryl que provavelmente nunca ganhará um Framboesa de Ouro (prêmio concedido aos piores do ano) como miss Bullock ganhou na véspera deste Oscar, com o maior espírito esportivo, qualidade rara em Hollywood, é bom ressaltar.

O filme assume o tom de vídeos institucionais ou um telecurso sobre “como promover a inclusão social” ou ainda um “passo-a-passo para se tornar um bom cristão”.

A dinâmica é mais ou menos assim: mamãe manda e filhinho obedece. Não converse com estranhos; ajude o ceguinho a atravessar a rua; gritar não resolve, dialogue; não fale palavrão, é feio e bobo; tenha fé, Deus é mais; ajude o seu semelhante; não desperdice comida; economize água; seja gentil, mesmo num jogo de futebol americano; confie nos professores, eles darão a base para construir o seu futuro; e por aí vai. Nada que você precise ir ao cinema para ouvir ou aprender. Pelo menos não de forma tão explícita e chata.

Uma profusão de lições de moral ordinárias que devem ser vistas com desconfiança, ainda mais em se tratando do retrato de uma família influente. Não há dúvidas de que os Tuohy são exemplares naquilo que neles ressalta, mas tanta perfeição soa irreal.

O fato é que nada na vida é tão simples quanto o filme tenta transparecer. Não há um grande drama, empecilho ou defeitos nos personagens que nos levem a crer na autenticidade da história. Nem quando acontece um “acidente de percurso” o drama se desenvolve. A vida é sempre boa, amena e feliz. Alguém aí acredita em fadas ou papai noel? Eu não.

Com certeza, será amplamente utilizado em escolas, presídios, concentrações esportivas, igrejas, centros de reabilitação, entre outros lugares, como instrumento de boas mensagens e discursos demagogos. Pieguice por pieguice, o nacional O Contador de Histórias exerce este papel com muito mais delicadeza e melhores cuidados na produção.

Um Sonho Possível é apenas a prova de que mesmo um filme ruim pode ser agradável se tiver uma boa dose de empatia.

Nota:
Crítica por: Fred Burle (Fred Burle no Cinema)

 


 


 

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