Tão Forte e Tão Perto
27.02.2012
Caio Viana

Stephen Daldry é um cineasta poderosíssimo, não só pelo que demonstrou em uma das grandes produções da sétima arte – As Horas – como também pelo que repete aqui, em seu novo filme. Antes é preciso dizer que Tão Forte e Tão Perto não é uma fita fácil, não por trazer um enredo complexo ou excessivas abstrações, mas por sofrer de males que impedem que a história possa caminhar.

E justamente por isso, Daldry revela talento ao conseguir fechar positivamente um roteiro cheio de conflitos internos.

Aqui acompanhamos o crescimento do garoto Oskar (Thomas Horn), portador da síndrome de Asperger, que tem que lidar com o infortúnio da perda do pai (Tom Hanks), enquanto acredita que este deixou escondido para ele um segredo em meio a mapas, diários de bordo e anotações secretas. Do outro lado, Linda Schell (Sandra Bullock), mãe de Oskar, tenta conter o filho impulsivo e esperançoso, enquanto luta contra a dor da morte do marido.

Encarar a sombra do onze de setembro, principalmente para aqueles que a vivenciaram, já não é algo simples, mas trazendo para o espaço fílmico, torna-se ainda mais complicado não saber que caminho trilhar assim que começamos a acompanhar a projeção. De um acontecimento de grandes proporções, o público é atirado para o microcosmo pertencente tão somente aos devaneios de Oskar e nesse ponto, o roteiro de Eric Roth (Forrest Gump, O Curioso Caso de Benjamim Button) afrouxa e nos deixa livres para optar que rumo seguir. Se escolhermos encarar o filme baseando-se apenas em nossa realidade, muito do que ocorre durante Tão Forte e Tão Perto soará absurdo, criando um afastamento do universo da obra e uma artificialidade insuportável. Já se encararmos toda a fita apenas pela visão de um garotinho imaginativo, logo a história ganha cores e as peças do quebra-cabeça se encaixam. Como as reações dos espectadores não são fáceis de prever, a nova produção de Daldry corre um sério risco de ser considerada apenas estapafúrdia.

Porém, as falhas do roteiro de Roth não param aqui, e mesmo que consigamos nos projetar para dentro dos pensamentos do rapazinho e acompanhar seus passos, ainda assim sofreremos a cada instante pela nossa decisão, visto que o personagem de Thomas Horn é abusrdamente chato, tirando o interesse de vontade e vitória que poderíamos depositar nele. E quando Oskar vem a se redimir, já é tarde demais. Por sorte, como apresentei no primeiro parágrafo, Daldry possui talento suficiente para não se deixar abalar e mesmo com problemas tão graves que poderiam afastar até o cinéfilo mais desejoso, Tão Forte e Tão Perto é dotado de inúmeras qualidades que, quando pesadas na balança, suplantam seus defeitos. A começar pelo elenco…

E aqui aplaudo de pé a condução do estreante Horn, já que mesmo tendo em mãos uma persona impossível de se lidar, ainda assim consegue dotá-lo de graça em muitos momentos, ajudando o público na dura trilha que é acompanhar Oskar. Basta observar a cena que ele divide com Jeffrey Wright para perceber o potencial do garoto. Através de pequenos gestos e olhares, Horn derruba a muralha que separava seu personagem do espectador e emociona. Tom Hanks e Sandra Bullock, mesmo com pouco tempo em cena, também arrancam suspiros por suas interpretações. Como um pai amável e protetor, Hanks faz de Thomas Schell uma figura sempre interessante de se ver, e mesmo nos instantes em que apenas é uma voz ao telefone, o experiente ator consegue brilhar, não se salvando apenas do vergonhoso momento em que aparece em pleno ar, numa queda. Bullock é o oposto: sempre de cabelos desgrenhados e olhar triste, a moça parece carregar um peso muito maior que seus ombros podem suportar, e é interessante notar como, no momento em que escuta um “Eu te amo” de seu filho, ela desaba, deixando transbordar todos os tipos de sentimentos estocados.

Mas a grande força das atuações foca-se mesmo em outros dois: Viola Davis, cada vez mais esbanjando talento, aqui encarna uma mulher que sofre com o fim de seu casamento ao passo que tenta ser gentil com as sandices de Oskar, e o veterano Max von Sydow, que encarando um personagem que não pronuncia uma palavra sequer ao longo da película, é o principal motivo para querermos seguir Oskar em sua busca alucinada. Não tendo como se expressar além das rugas da face, Sydow fala mais que qualquer outro em cena apenas com o olhar.

Melhor que ver grandes intérpretes em suas atuações, é segui-los de perto enquanto são embalados pelo mais que eficiente compositor Alexandre Desplat. Aqui ele reverbera momentos exibidos em A Árvore da Vida e ainda remonta peças de Philip Glass, que em muitos casos nos lembram As Horas. Cada mínima nota consegue expressar a leveza do universo de Oskar ou mesmo a escuridão na qual o garoto se encontra em vários momentos. Some-se a isso a belíssima fotografia de Chris Menges e o que temos são cenas brilhantes como a já citada conversa entre Oskar e William Black, ou mesmo o choque de realidade que ocorre num “diálogo” entre o garoto e o personagem de Sydow. Na primeira, o cenário azul em quase sua totalidade denota tristeza, por uma série de motivos que não devem ser citados aqui. Já o instante entre o jovem e o senhor poderia ser preenchido de sombras por cinegrafistas convencionais, mas aqui Menges resolve executá-lo em plena luz do dia, realçando as expressões de Sydow e tornando claras as lágrimas e a confusão que se estampam no rosto do rapaz.

Assim, Tão Forte e Tão Perto, mesmo cheio de falhas, revela-se uma fábula deliciosa de se acompanhar se soubermos para onde olhar; uma caça ao tesouro que nos guia até um baú onde esperanças são depositadas. Na jornada do pequeno Oskar, o que vemos brotar é a esperança de um mundo melhor, mais coeso e gentil, mais fácil de ser atingido pelos problemas alheios, onde muitos parecem dispostos a estender a mão. E mesmo quando as luzes acendem e retornamos para o lado de cá, saímos da sessão com o profundo desejo que aquele universo fictício venha à tona.


Nota:

Crítica por: Caio Viana (Blog)