Entra ano, sai ano, diretores vêm e vão e ele lá, intacto, com seu público fiel, ansioso por novas velhas paranoias.
Woody Allen tem um ritmo de produção impressionante, conseguindo concluir cerca de um filme por ano. Tudo Pode Dar Certo ainda nem estreou no Brasil e seu novo filme, You Will Meet a Tall Dark Stranger já está pronto e terá premiére no Festival de Cannes, em maio próximo.

A neurose e a intolerância de quem é muito inteligente serão retomadas nesta nova obra, que trata do relacionamento improvável entre um professor de física aposentado e uma estudante, novamente em Nova York, cidade na qual o diretor tanto filmou, mas há algum tempo não a retratava em seus filmes.
“Tudo pode dar certo” passa a ser o lema do protagonista, depois que ele percebe que seu relacionamento com uma jovem desmiolada funciona, apesar das diferenças, intelectuais e de idade. Mas as coisas complicam quando os pais da moça resolvem aparecer.
O grande trunfo deste filme não é nenhuma novidade: os diálogos inteligentes, piadas ácidas, personagens cheios de cacoete, trilha sonora de comédias pastelão e roteiro bem amarrado, todos quesitos fáceis de serem encontrados nos filmes de Woody Allen.
Seu protagonista conversa com o público e divide com ele suas angústias e pensamentos filosóficos, como se Woody fizesse do público seu confidente, julgando inclusive, que este é tão inteligente e tem todas as referências que ele tem.

Sempre aborrecido com a vida, rabugento, manco e hipocondríaco, Boris é um dos personagens mais engraçados dos últimos tempos, interpretado por Larry David, um alterego claro do diretor, que têm em sua parceira de cena Evan Rachel Wood o seu contraponto ideal: uma menina espevitada, bobinha, mas com insights de inteligência, mesmo que ela não saiba o que acabara de dizer.
Enquanto estão em cena apenas os dois, a comédia divide espaço com o romance, mas logo que acontece o reencontro entre mãe e filha, a comédia se sobressai, especialmente pela ótima atuação de Patricia Clarkson no papel da mãe, uma mulher católica fervorosa e... bêbada.

Tudo Pode Dar Certo tem em seu desenvolvimento seus melhores momentos, mas toda a criatividade e inteligência se esvaem no final, uma solução convencional que o deixa muito próximo de sitcoms televisivas. Um desperdício, ainda mais por saber que Woody Allen é capaz de finalizar muito melhor as suas histórias.
De qualquer maneira, é um deleite assistir uma obra sagaz e muitíssimo engraçada, que encanta pela sua identificação, já que todos temos uma porção neurótica, que se ainda não aflorou, um dia há de se mostrar.