| Considerado um ator excelente, Philip Seymour Hoffman, vencedor do Oscar por Capote, faz seu debut na cadeira de diretor com essa adaptação para os cinemas da peça homônima de Bob Glaudini, que também assina o roteiro. Porém, os atributos do ator parecem pouco refletir na sua condução, já que ele nos entrega uma obra rasa que jamais parece saber que rumo seguir. |
Jack (Hoffman) é um motorista de limusines que, junto com seu amigo, Clyde (John Ortiz), enfrenta o dia-a-dia de um subemprego na cidade de Nova Iorque. Com a ajuda de Clyde e sua esposa, Lucy (Daphne Rubin-Vega), o tímido motorista conhece Connie (Amy Ryan), uma mulher que, assim como ele, é atormentada por problemas psicológicos. Juntos, eles começam a traçar uma relação conturbada.
O que dizer de um filme que pode ser resumido a seus dois últimos planos? Nas mãos de um diretor experiente e de um bom roteiro, provavelmente esse seria um final poético que concatenaria com precisão toda a história que acompanhamos ao longo dos seus aproximados 100 minutos. Mas com Vejo Você no Próximo Verão, não é bem o que ocorre. Assim que os créditos sobem e encaramos o desfecho da película, somos automaticamente invadidos por uma sensação de vazio, com uma única frase martelando nossos cérebros: "Ah! Então era apenas isso?" Tal questionamento revela a inabilidade de Seymour Hoffman que, com um enredo frágil, nos entrega uma visão confusa dos acontecimentos. Sempre parecendo chegar ao limiar de uma possível linearidade, o diretor sabota seus próprios planos na sequência seguinte, num filme permeado de diálogos falsos e situações forçadas.
Em vários momentos a superficialidade vem à tona, ficando evidente numa cena em que Connie é atacada em um metrô de forma repentina e inexplicável para, no próximo instante percebermos que aquilo serviu só para aproximar os personagens principais e criar um envolvimento tocante, revelando quão maniqueísta Hoffman pode ser. Nota-se também a falta de uma linha de condução através de cada posicionamento de câmera, já que esses parecem não se encaixar ou possuir funções definidas, como nos travellings distintos que acompanham Jack e Clyde pelas costas. E mesmo ao final, quando a fita tem uma pequena chance de redenção ao levar seus personagens ao extremo, estes são mal aproveitados, pois não exibem quaisquer traços de personalidade que soem verossímeis. Se numa cena Jack se tranca no banheiro refletindo sua sensação de isolamento, poucos minutos depois Lucy repete o mesmo ato, criando uma repetição desnecessária e sem qualquer originalidade.
Mas apesar dos problemas, o roteiro consegue compor alguns momentos interessantes, como nos minutos iniciais quando acompanhamos Jack e Clyde ao trabalho e esses parecem tristes e apagados, numa óbvia alusão às experiências de vida que não são as deles; ou na grande metáfora do filme, que coloca em paralelo o inverno e o verão e os relacionamentos dos dois casais. E mesmo o diretor demonstra que possui atributos atrás das câmeras que, se fossem melhor explorados, teriam rendido uma produção menos apática. É bela e inspirada uma construção de sobreposição de imagens na qual Hoffman coloca seu personagem principal nadando numa piscina ao mesmo tempo em que está parado em uma ponte, tendo uma avenida movimentada no seu campo de visão. Outra passagem brilhante é aquela que enfoca um porta-retrato que resume todo o casamento de Lucy e Clyde, já que, na fotografia, ela encara firmemente a câmera, enquanto ele mantém a cabeça abaixada e os ombros caídos. E o que dizer da belíssima cena na qual Connie descreve, numa narração em off, o que ela deseja em seu parceiro e vemos Jack solitário ao centro de uma piscina com a câmera afastando-se dele? A montagem também se sobressai, além dos momentos já citados, no trecho que amarra os planos e contra-planos nos quais Clyde ensina, pela primeira vez, Jack a nadar. E se a abordagem metafórica que torna Jack um garotinho inocente é patética, ao menos seu esforço pela superação emociona.
Há méritos também para a direção de arte e o figurino, já que estes, em muitos momentos, dizem aquilo que Hoffman não conseguiu expressar e acabam sustentando determinados pontos do filme. Numa alegoria interessante, Clyde está vestido com os mesmos tons que estão presentes num pássaro que estampa um quadro em sua casa. Reparem como o quadro encontra-se caído em um canto, demonstrando que o marido está fora de lugar dentro de seu próprio lar. Observem também o quanto as indumentárias de Jack dizem sobre ele mesmo: uma boina que disfarça constantemente sua real natureza positivista, assim como as vestes formais e sem graça que fazem dele alguém que não corresponde às suas atividades sociais e trabalhistas, ou mesmo os fones de ouvido sempre presos às orelhas conduzindo seus pensamentos para longe de onde quer que ele esteja.
Mas, à medida que os minutos passam e a projeção se descortina, percebemos que esses pequenos fôlegos de brilhantismo jamais tornam o filme interessante como um todo, naufragando até mesmo as atuações de intérpretes experientes que são enlatados a personagens passivos e artificiais. Mesmo Seymour Hoffman, na sua composição, perfaz um Jack que não cria qualquer vínculo com o espectador, já que sempre parece perdido, mal consegue articular uma frase e procrastina tanto quanto o título do projeto que encabeça. Se estivéssemos diante de um enredo que tentasse criar um mundo de ilusões, enxergando apenas os devaneios daquelas personas psicóticas, talvez Vejo Você no Próximo Verão se imbuísse de sentido. Como se trata da mais pura realidade - diegética, é claro - aquele universo soa apenas chato, e vai à mão de uma de suas metáforas, ruindo com tudo que parecia frutífero.