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Na era dos heróis surge o mais impressionante de todos os guerreiros: Beowulf. Após destruir o demônio superpoderoso Grendel, Beowulf cai em desgraça perpétua diante da cruel e sedutora mãe da fera, que se valerá de todos os meios possíveis para conseguir vingança. A batalha épica que se segue ressoa pelos séculos, imortalizando o nome de Beowulf.
Notas de Produção Passado em uma era mágica, oculta pela névoa do tempo, repleta de heróis e monstros, aventuras e valores, ouro e glória, um homem especial, Beowulf, aparece para salvar um antigo reino dinamarquês da aniquilação por uma criatura perversa. Em troca, este lendário viking de quase dois metros de altura, cheio de ousadia e ambição, assume o trono. O nome Beowulf ressoa em todo o reino, cantam-se canções sobre suas proezas e feitos, depois que ele chega para resgatar o Rei Hrothgar, cujo reino fora devastado por Grendel, um monstro cruel que torturava e devorava os habitantes, mantendo-os sob constante pânico e terror. Cavalgando pelo reino em sua fera selvagem, Beowulf ganha fama e fortuna. Riquezas e tentações avassaladoras recaem sobre ele. O caminho da sabedoria, que ele escolhe para fazer valer o poder que acaba de descobrir, definirá para sempre seu destino como herói, campeão, líder, marido e, mais importante, como homem.
"Para ser sincero, nada no poema original tinha apelo para mim. Lembro-me de ter tido a incumbência de lê-lo na escola, e não ter conseguido, porque estava em inglês arcaico", admite Zemeckis. E continua: "Era uma daquelas tarefas horríveis. Nunca mais pensei nisso, nunca achei que poderia ser uma bela história. Mas quando li o roteiro de Neil Gaiman e Roger Avary, fui cativado de imediato. Perguntei a eles, 'O que tem esse roteiro, que transformou numa história fascinante um poema que, para mim, era chatíssimo?' E responderam, 'Vamos ver, o poema foi escrito entre os séculos VII e XII. Mas a história vinha sendo contada havia séculos antes disso. As únicas pessoas que sabiam escrever, no século VII, eram os monges. Então, podemos presumir que eles a editaram bastante'. Neil e Roger aprofundaram-se no texto, leram as entrelinhas, questionaram as lacunas no material que servira de fonte, e tornaram a acrescentar o que eles teorizavam como tendo sido suprimido (ou acrescentado) pelos monges, e por que o fizeram. Eles procuraram manter a essência do poema, tornando-o mais acessível a um público moderno, e fizeram descobertas revolucionárias pelo caminho. Isto pode suscitar algum debate acadêmico". Ao trabalhar com os roteiristas para desenvolver mais o enredo, Zemeckis tornou-se um estudioso do assunto, tanto que deixaria orgulhoso seu professor do tempo de colégio. "Quando me interessei pelo roteiro, reli o poema, conversei com especialistas em Beowulf e mergulhei na fábula. Muitos temas que ali encontramos foram tirados da Bíblia: a jornada de um herói, a luta entre o bem e o mal, e o preço da glória. Vemos que Beowulf é o alicerce de todos os nossos heróis modernos, sejam Conan o Bárbaro, Super-Homem ou o Incrível Hulk".
"O que há de tão atraente no mito de Beowulf é a embalagem desse mundo de ação, aventura, mitologia, épico, com monstros sedutores, criaturas que certamente existiram, pelo menos em nosso subconsciente, desde tempos ancestrais", acrescenta o produtor Jack Rapke. A CAPTURA DE GRANDES DESEMPENHOS Essencialmente, a captura de desempenho removeu a aparência, idade, cor e gênero, nivelando o elenco. A escolha de Zemeckis, que recaiu sobre Ray Winstone para representar o personagem principal, é o exemplo extremo da liberdade na escalação do elenco, permitida pela captura de desempenho. Inicialmente, Zemeckis não pensou em Winstone, porém quando ouviu a voz característica do ator, convenceu-se de ter encontrado seu Beowulf. "Minha mulher estava assistindo a uma adaptação de Henrique VIII para a TV, interpretada por Ray. Eu ouvi a voz dele e disse, 'Meu Deus, isso soa como se fosse Beowulf!' Parei para ver e ele passava tanta força, tinha a capacidade de entrar no âmago do lado animal do ser humano. Isto é importante no papel de Beowulf e ele tem essa qualidade visceral. Ele só se preocupa com o que vai matar, o que vai comer, quem ele vai ferrar. Ray é um ator surpreendente, forte, com capacidade para atingir esse aspecto primitivo", explica Zemeckis. Ninguém ficou mais surpreso do que Winstone quando Zemeckis o sondou para o papel. "Eu estava fazendo o filme de Martin Scorsese, Os Infiltrados, em Nova York, quando me ligaram dizendo que estavam interessados em me ver para A Lenda de Beowulf. Fui a Los Angeles me encontrar com Bob, e pensei, 'Vou fazer uma longa viagem para uma entrevista de seleção', mas valia a pena porque acho que ele é um gênio. Perguntou-me o que eu achei do roteiro, e respondi que era a história de um homem cuja ganância por ouro, poder e fama acaba por consumi-lo. De várias maneiras, é um monstro maior que os demônios que enfrenta. À medida que a conversa prosseguia, fui tomando consciência de que não se tratava de um teste para o papel, Bob queria de fato que eu fizesse o filme, o que me deixou em estado de choque", lembra Winstone.
Os elementos de aventura do roteiro atraíam Winstone, ao mesmo tempo em que ele tinha oportunidade de se aprofundar em uma nova mídia. Winstone, com simplicidade, foi o primeiro a dizer: "Eu nunca tinha lido o poema original. Meus filhos já o conheciam. Mas o roteiro é uma história fantástica e eu sempre quis fazer papel de viking. A grande coisa que há na técnica de captura de desempenho é que permite a uma pessoa como eu, com 1,80 metro, e não muito magro, encarnar um viking louríssimo de 2 metros de altura. O processo, no começo, parecia complicado e um tanto desconfortável, mas gosto um pouco de ir atrás de coisas que eu não consigo fazer, e fiquei animado para experimentar", relata Winstone. Outro atrativo para Winstone foi o elenco de astros coadjuvantes que Zemeckis reuniu. "As pessoas que trabalham neste filme são extraordinárias, a lista não tem fim. Anthony Hopkins é um dos meus preferidos, desde que eu era criança; só de vê-lo era um prazer. Eu já trabalhei com Robin Wright Penn em Londres, ela é ótima atriz, assim como Angelina Jolie, que conheci há cinco anos e acho fantástica. E Brendan Gleeson, velho companheiro, com quem trabalhei em Cold Mountain, e também Crispin Glover e John Malkovich, tão inteligentes e criativos. São atores excelentes, eu sabia que ia aprender alguma coisa em um trabalho desses, só de estar junto deles", ressalta Winstone. Anthony Hopkins, o primeiro ator a ser escalado, decidiu usar seu sotaque galês nativo, porque "no País de Gales se fala uma língua antiga, de muitos milhares de anos". Zemeckis assinala: "Houve longos debates sobre como o galês poderia ter derivado do inglês arcaico. De qualquer modo, quando Anthony dizia aquelas frases maravilhosas que Roger e Neil escreveram, com seu sotaque galês, elas soavam perfeitas". A cadência melodiosa de Hopkins tornou-se padrão para os outros atores. "Todos nós resolvemos fazer um sotaque 'agalesado'", diz Robin Wright Penn, que interpreta a mulher de Hrothgar, a amável e infeliz Rainha Wealthow. E acrescenta: "A história obviamente se passa na Dinamarca, mas foi escrita em inglês arcaico, e Tony tinha naturalmente um belo sotaque galês. Parecia um bom caminho do meio para se seguir, em vez do britânico tradicional, e não podíamos mesmo falar em inglês arcaico, ou ninguém entenderia. Os diálogos pediam que enrolássemos nossos erres, e o sotaque galês nos permitia fazer isso".
Beowulf se apaixona por Wealthow quando chega para salvar o reino do marido dela. Mas, assim como o Rei Hrothgar, os defeitos fatais de Beowulf, sua ânsia por poder e glória, sua fraqueza por outras mulheres, e a barganha que faz, na linha do Fausto, com a sedutora demoníaca, mas dissimulada, acabam por envenenar sua relação com Wealthow. "Ela se casou muito jovem com o Rei Hrothgar, um casamento negociado, e ele não é fiel", revela Wright Penn. "Wealthow mais tarde se apaixona por Beowulf, quando ele vem salvá-los e, tristemente, o modelo se repete. De certo modo, ela se apaixona pelo herói e fica cega para o que é o verdadeiro heroísmo. Beowulf é um herói, mas, afinal, é um ser humano, e quando a trai - da mesma forma que o rei - ela perde o amor e admiração que tinha por ele". A única confidente, guardiã e vingadora de Grendel é, por certo, sua mãe, uma criatura perigosa e sedutora que joga com as fraquezas dos homens para disso tirar vantagens diabólicas. Angelina Jolie foi escolhida para o magnífico papel deste espírito maligno. "A mãe de Grendel é um demônio, sedutora em enésimo grau, e ninguém poderia fazer esse tipo de personagem opressivo tão bem quanto Angelina Jolie. Quando ela entrava no set e se transformava na personagem, era poderosa de se ver. Magnetizava, hipnotizava todo mundo", diz Zemeckis. Jolie comenta: "Quando se menciona a mãe de Grendel, descobre-se que todos têm uma opinião sobre ela. Acho que ela é adorável, mas todo mundo a considera meio doida".
As ações da personagem, destaca Jolie, estão além do bem e do mal, são movidas por um profundo instinto maternal. "Sim, ela é um monstro, mas também é mãe, e esta é a essência de tudo o que faz. Grendel é um homem adulto, porém há algo de vulnerável e infantil nele. Eu pensava nele como se fosse sua mãe. Se alguém machucar o seu filho, você irá até o fim do mundo para vingá-lo. Foi esta a minha abordagem", diz. "A certa altura, Bob me disse que eu era livre para sibilar. Então, pensei, 'Hum, devo ter uma língua de cobra. Ou ainda, eu estava fazendo algo como se fosse essa mulher, e Bob disse qualquer coisa do tipo, 'Pegue isso'. Respondi, 'Mas estou segurando a espada com as duas mãos'. E Bob disse, 'Então, pegue com o rabo'. Foi aí que me dei conta de que tinha rabo. Em outra ocasião, ele me pediu para posicionar o pé como se estivesse usando salto alto, e eu pensei, "Ah, que bom, ele quer que eu seja sensual. Mas Bob disse, 'Não, não, sua mão e seu pé são como patas. Aí eu fiquei mesmo confusa. Ele me mostrou a foto de uma mulher sexy de verdade, toda feita de ouro, e quando se olha para os pés dela, são meio esquisitos. Então, eu tenho rabo, mãos no lugar de pés, e como se estivesse de salto alto! Fiquei curiosa para ver o filme, e descobrir como eu acabei aparecendo!". "Tivemos essa idéia, de que ela usasse uma longa trança, que é um tipo de rabo. Pudemos obter, assim, a sensação e o movimento exatos do rabo/trança. Cheguei a fazer com ela uma tomada em que mexia com a mão do mesmo modo que o rabo ia se mexer, para se ter a sensação precisa. E o ritmo era perfeito. É isso que eu amo nesta forma de arte, você consegue que os atores interpretem qualquer coisa, inclusive mover um rabo mágico", diz Zemeckis. "John é um de meus atores preferidos. Pode fazer qualquer coisa, e nunca se sabe o que se vai conseguir", diz Zemeckis. Malkovich se lembra de ter lido Beowulf quando era adolescente. "Não o vejo desde que éramos obrigados a ler, nas aulas de literatura da escola. Minha escola era antiquada, tínhamos mesmo que ler. Foi assim que o conheci", diz. E acrescenta: "Em geral, acho sempre perigoso comparar um roteiro de filme com o material de fonte, seja um romance ou peça de não-ficção, ou ainda, como neste caso, um poema épico". Para Malkovich, os elementos sinistros do roteiro têm apelo. "Achei o roteiro muito bom, sombrio e estimulante, no estilo das lendas míticas", diz o ator. UMA AVALIAÇÃO DE A LENDA DE BEOWULF Os acontecimentos de Beowulf, um único poema com três mil versos, desenrolam-se no século VI d.C., e se referem a uma batalha da qual existem evidências que a comprovam. Embora a maior parte da história se passe na Dinamarca, foi contada pelos anglo-saxões do norte da Inglaterra, duzentos anos após o fato. Os anglo-saxões não se consideravam britânicos, mas vikings, e seus heróis eram da Escandinávia.
O verdadeiro autor de Beowulf é desconhecido. O poema original foi escrito em folhas finas de couro curtido. Foi depois copiado e recopiado pelos duzentos anos seguintes. Por volta do ano 900, foi reunido em um volume que também continha a história de São Cristóvão, uma coleção de estranhas anedotas sobre a Ásia, uma carta tida com sendo de Alexandre, o Grande, e um poema sobre a heroína bíblica Judite. Este volume foi parcialmente destruído em um incêndio na The Cotton Library, a maior coleção do mundo de literatura da Idade Média, em 23 de outubro de 1731. Não apenas os documentos foram queimados, mas a reputação do poema sofreu nos anos seguintes. Escrito em inglês arcaico, foi considerado confuso com sua mistura de temas pagãos e cristãos. Estruturalmente, era considerado rudimentar por ter três antagonistas em vez de um, sendo que o último deles estava meio século distante dos outros. Além disso, Beowulf não tem rimas, mas aliterações. Não tem o verso pentâmetro iâmbico pois, de acordo com os contadores de histórias anglo-saxões, não importava quantas sílabas tinha um verso, desde que fosse curto e contivesse três aliterações. Comparado com as obras-primas da Antigüidade, como a Odisséia de Homero e a Eneida de Virgílio, Beowulf parecia apenas um poema malfeito. Pior ainda, o heroísmo e a moralidade estavam centrados em um homem que lutava com monstros. Os acadêmicos não podiam mesmo levar tão a sério um poema sobre gigantes e dragões. Somente no século XX Beowulf foi reabilitado por ninguém menos que J.R.R. Tolkien, autor de O Hobbit e O Senhor dos Anéis. Em seu ensaio de 1936, Beowulf: The Monster and the Critics, Tolkien escreveu que o problema de todos com Beowulf nada tinha a ver com a qualidade, e sim com o fato de ser ele injustamente comparado a Homero e Virgílio. Beowulf não estava em conformidade com as normas da poesia épica, criada pelos antigos gregos e romanos, pois era uma lenda escandinava, com métrica específica; nem melhor, nem pior, apenas diferente. E, ao contrário de muitos acadêmicos que o precederam, Tolkien argumentava que a defasagem de 50 anos entre a luta com a mãe de Grendel e a batalha com o dragão era exatamente o que permitia ao poema reivindicar sua grandeza. Beowulf, escreveu ele, não era a história de um jovem herói que triunfa sobre monstros, nem de um velho rei que morre ao tentar matar um dragão, porém, em vez disso, é a combinação da história de um homem que, quando jovem e cheio de soberba, caminha conscientemente em direção à própria morte trágica. As duas metades da história eram, precisamente, o que a faziam funcionar.
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Fonte: Warner Bros. |