É o momento da verdade nos estúdios do famoso programa de televisão e de grande sucesso na Índia chamado "Quem Quer Ser Um Milionário?" (Who Wants To Be A Millionaire? ou 'Show do Milhão' aqui no Brasil). Diante de um público que aguarda no seu mais completo silêncio e iluminado por somente uma luz, o menino da favela de Mumbai, Jamal Malik fica diante de sua pergunta final - e também da possibilidade de ganhar a extraordinária quantia de 20 milhões de rúpias.

O apresentador do programa, Prem Kumar, não tem muita simpatia por esse tipo de participante que veio do nada e está prestes a se tornar um milionário. Tendo conseguido galgar o seu espaço longe das ruas, Prem simplesmente não aceita ter de dividir as atenções com esse novo milionário e recusa-se a acreditar que esse menino de favela pudesse saber todas as respostas do programa.

Quando o programa passa da sua hora e começa a avançar pela madrugada, Prem já tem a polícia esperando do lado de fora do estúdio para prender Jamal, pois ele acredita realmente que o garoto esteja fraudando a competição.

Interrogando o participante por toda a madrugada, o inspetor de polícia percebe que Jamal está tão confuso quanto qualquer outra pessoa e não consegue entender como conseguiu chegar tão longe no concurso. Eles revisam cada pergunta, uma a uma; Jamal explica como conseguiu chegar a cada uma das respostas. Na medida em que ele vai explicando, a história extraordinária de sua vida tão jovem começa a emergir.


Sobre a Produção

A origem para o filme Quem Quer Ser um Milionário? (Slumdog Millionaire) começou quando a Diretora responsável por Filmes e Dramas do Channel 4, Tessa Ross, recebeu uma ligação da analista de histórias em livros do Film4, Kate Sinclair, que explicou que ela havia acabado de ler uma prova de uma história extraordinária. Mesmo sem ter sido publicado, quando Sinclair escolheu a história, Ross imediatamente comprou os direitos do livro.

"Entre o momento da compra dos direitos do livro e a sua publicação, eu organizei um jantar para os escritores, diretores e produtores e eu falei com Simon Beaufoy, que eu já conhecia de longa data e era uma pessoa muito querida para mim e com quem era muito agradável trabalhar, e contei sobre o nosso "projeto premiado", Ross se recorda. "Ele simplesmente adorou a idéia e entrou no projeto muito rápido".

Ross sugeriu que, apesar do livro ser muito difícil de ser transformado em um roteiro, ela sentiu que Beaufoy teria a habilidade e a experiência para fazer esse trabalho. Beaufoy acreditava que a grande maioria do público de cinema do Ocidente não tinha vivenciado a visão da Índia que Swarup explora no livro. "É uma cidade em crescimento constante," ele diz. "É a Londres de Dickensian no século 21. Ela está se desenvolvendo rapidamente. Os pobres são ainda mais pobres do que antes imaginado. Os ricos são ainda mais ricos como nunca antes imaginado. E existe essa massa de pessoas no meio tentando romper a barreira e tentando achar um lugar lá em cima."

A simples premissa da história de Swarup possibilitava que Beaufoy pudesse se concentrar em dois elementos-chave quando se faz uma adaptação de uma história para o roteiro. Primeiramente, a óbvia característica de um conto de fada, onde os nossos heróis superam enormes obstáculos para alcançar uma conclusão positiva. Em segundo lugar, a extraordinária cortina de fundo na qual a história é desenvolvida. Mas existiam várias dificuldades técnicas aí, já que a adaptação de um livro para um roteiro de cinema exige do escritor uma visão muito diferente do que quando o escritor está escrevendo um roteiro original a partir do zero. O desafio de Beaufoy então era conseguir reter a alma do livro, mas ao mesmo tempo traduzir esses personagens para a grande tela.

"O maior problema em converter a história do livro em um roteiro era que na verdade tratava-se de uma série de histórias - doze pequenas histórias na verdade," Beaufoy explica. "Algumas delas nem estavam ligadas de alguma maneira. Não havia nenhuma narração que ligasse uma à outra. Não era uma história de uma pessoa desde o seu nascimento passando por toda a sua vida. Na grande maioria das vezes, eram histórias desconectadas e algumas das histórias eram somente alguns contos que não tinham nenhuma ligação entre si e não faziam nenhuma referência ao personagem principal. É bem diferente começar com a idéia de alguém e aí desenvolvê-la. Quando se faz uma adaptação, você tem uma responsabilidade com o livro. Podemos comparar a situação com uma mala que foi entregue a você e você tem que desfazê-la, com um monte de roupas lá dentro que servem e tantas outras que simplesmente não servem. Essa não é minha mala. É a mala de alguém. Mas de alguma maneira você deve fazer com essa mala seja sua."

Beaufoy acredita que tendo Jamal no programa de TV e voltando ao passado com flashbacks, ele conseguiria manter uma linha de segmentos para oferecer uma mistura de gêneros. "Você consegue disparar em diversas direções. Você consegue ter uma pitada de romance, uma pitada de comédia ou ter uma pitada de gângster perigoso e ainda mantê-lo enclausurado num único tom, o que foi maravilhoso para mim. Isso deu ao filme uma opção de vários temas, pois você não precisa ficar preso a um gênero somente."


Quando o roteiro estava bom o suficiente para ser filmado por um diretor, a opção número 1 de todo o grupo foi o diretor Danny Boyle. "Nós nos sentamos e nos perguntamos quem seria a melhor pessoa do mundo para dirigir esse material e nós só pensamos em Danny Boyle!," Colson se lembra. "Nós enviamos para ele o roteiro, que leu e disse "podem contar comigo,'" fala Colson. "E foi dessa forma assim tão fácil."

A chegada da equipe na Índia causou não somente um grande impacto na comunidade local, mas também foi um choque de cultura para a equipe que teve de experimentar a loucura e a energia de Mumbai. "Eu nunca tinha estado na Índia," diz Boyle. "Meu pai tinha estado lá durante a guerra e ele havia me contado diversas histórias e eu sempre quis ir visitar. Eu imaginei que seria um lugar extraordinário, um lugar de extremos que você experimentaria apenas estando lá. Mas, o mais importante, são os desafios que você enfrenta que estão muito além do que você poderia efetivamente imaginar." Ele ri ao contar.

Boyle acredita que a grande maioria dos cineastas se concentra na experiência do conceito de controle - a idéia de que o diretor e a equipe podem modificar tudo para manipular o meio ambiente de maneira a alcançar o tom que eles haviam imaginado e visualizado para a confecção do filme. Mas na Índia essas regras simplesmente não podem ser aplicadas. "Você simplesmente não tem esse tipo de controle na Índia. Se você ficar procurando isso, você vai ficar louco. Você vai ser lançado de um despenhadeiro em uma semana. Você deve lidar com a realidade e ficar observando o que acontece. Em alguns dias você pensa: "nós não vamos conseguir nada - nem mesmo uma única coisa." E de repente às quatro horas da tarde, tudo se volta para você - o lugar vai te retribuir - se você realmente acredita nisso, isso faz todo o sentindo."

Quando Boyle chegou pela primeira vez em Mumbai a mistura da pobreza absoluta e a mais alta tecnologia do país o deixou fascinado. "Eu já estive em países bem pobres, em favelas do tipo da Kibera no Quênia, mas aqui existe esse cheiro que te pega primeiro e essa incrível mistura de excremento (que pertence a todos nós) e depois o açafrão. É simplesmente a mistura do doce com o azedo," ele ri. "O que é extraordinário sobre a Índia é que eles são um dos líderes em energia nuclear. Eles têm armas nucleares. Ou seja, eles estão entre os seis ou oito países que mais têm energia nuclear no mundo. Mas por outro lado, eles não têm banheiros públicos."

O processo de escolha do elenco levou Boyle e Colson a viajarem por todos os Estados Unidos, Canadá, Inglaterra e Índia na busca dos atores certos que pudessem executar uma atuação convincente em inglês e também se adequar nas três idades da história - 7, 13, e 18 anos.

Eles também optaram em escolher uma diretora de elenco indiana, Loveleen Tandan. "Seu papel estava em constante expansão durante o processo de escolha de elenco e filmagens, não apenas no que se refere a encontrar as crianças certas, mas também em traduzir o que elas diziam e o que eu dizia para elas e dirigir essas crianças junto comigo,' diz Boyle, 'ela me guiou através das mais interessantes complexidades culturais da vida nas ruas, e eventualmente até dirigindo a segunda unidade conforme nos seguia em torno da cidade. Ela foi realmente uma co-diretora em muitos momentos do filme e eu não poderia ter feito o filme sem ela"

A intenção sempre foi fazer as filmagens em inglês apesar do fato de que as crianças das favelas de Juhu em Mumbai falariam autenticamente o Maharati, um dialeto local Hindi. Muitos dos jovens atores que podiam falar inglês foram educados em uma escola de classe média e, no entender da produção, eles não serviam por duas razões importantes - a aparência deles e o comportamento deles em geral diante das câmeras, e a dificuldade que eles poderiam ter em filmar nas favelas dentro de uma comunidade retirada de suas próprias vidas.

"Nós entrevistamos centenas de jovens crianças interpretando as falas em inglês e nós entramos realmente em desespero," diz Colson. "Nós não acreditávamos que iríamos chegar onde queríamos de verdade. Mas alguém nos sugeriu que as crianças menores interpretassem as falas de Beaufoy na própria língua deles e que de alguma forma os personagens poderiam mudar para o inglês durante o segundo ato".

"Nossa diretora de elenco e co-diretora, Loveleen Tandan, saiu de cena e fez uma rápida tradução. Eu acredito que seja a cena do banheiro que nós temos no começo do filme e conseguiu logo em seguida trazer algumas crianças da rua ou das redondezas do set de filmagem, para interpretar essa cena em Hindi e eles foram hilários. De repente, tudo pareceu real. De repente, nós definitivamente entendemos que nós devíamos ir por esse caminho.

"Então foi uma decisão a que nós realmente chegamos por um acaso, mas que, eu acredito, deu ao filme uma real sensação de autenticidade. Essa decisão também nos permitiu que encontrássemos três jovens crianças atores incríveis."

Azharuddin Mohammed Ismail que interpreta o papel do jovem Salim e Rubina Ali, que interpreta a jovem Latika, foram ocasionalmente encontrados nas favelas, mas desde então foram colocados em instituições de ensino pela produção para receber orientação educacional. "Nós demos um jeito de colocá-los na escola e esperamos que eles fiquem lá até os dezesseis anos," diz Boyle. "Na última vez que eu estive lá, eles estavam começando a aprender um pouco de inglês. Rubina, em especial, estava falando comigo em inglês, o que é incrível e Azza é realmente bastante talentoso em desenho, eu acredito. Ele ama desenhar e colorir."

A dificuldade de Boyle em encontrar o seu Jamal adulto foi principalmente com relação à aparência. Apesar dos testes para escolha de elenco estarem sendo feitos em Mumbai, Calcutá, Delhi e Chennai, a equipe achou que a maioria dos candidatos era muito velha para o papel e surpreendentemente não estavam na forma física desejada.

"Eu não conseguia encontrar alguém jovem o suficiente para interpretar esse personagem," Boyle explica. "E os jovens meninos de Mumbai, por conta da cultura, tendem a ter um corpo realmente bem definido, forte. Eles estão na academia porque é esse o corpo que é esperado que eles tenham. Então se eles têm que criar qualquer impacto nos filmes, eles precisam ter esse corpo definido e eu realmente não queria esse tipo de corpo, você sabe. Eu queria um cara realmente comum. Eu não queria alguém que pudesse parecer como um herói."

Mas não foi Boyle que encontrou Dev Patel para interpretar o papel de Jamal, e sim a sua filha. "Caitlin é uma grande fã do drama adolescente chamado "Skins" (Skins). Ela disse para a sua mãe que estava fazendo os testes para escolha do elenco no Reino Unido, "Você devia levá-lo para ver Dev Patel." Eu realmente não havia pensado em Dev," ele diz. "Eu já tinha visto só um pouco de "Skins" (Skins). Eu tinha gostado um pouco, mas e assim que ela disse isso, eu pensei, é isso mesmo.

"Uma das coisas que foram mais encorajadoras em escolhê-lo para o papel foi que isso fez com que nós nos voltássemos para um elenco muito jovem. Então, inicialmente nós estávamos pensando em ter esses adolescentes interpretados por jovens de dezoito anos e então, na cena final do filme, quando ele está no programa, ele já está com os seus vinte e poucos anos e eu percebi que aquilo estava errado - é importante mostrar que o que acontece com eles, acontece quando eles têm treze anos. E isso é o que é extremo e inaceitável e muito indiano sobre isso. Então você tem essa idade de sete, treze, dezoito anos e o que eles vêem nesse curto período já é suficiente para preencher uma história de vida."

Patel foi uma das poucas pessoas que acabaram sendo escolhidas a partir do elenco de Londres. A maioria do elenco foi escolhida em Mumbai. "Nós sentimos que Dev tinha aquela qualidade maravilhosa de peixe fora d´água," diz Colson. "Ele é imensamente querido - imensamente simpático. E nós não queríamos um rapaz com aquele tipo físico muito definido. Tem uma boa dose de inocência em relação ao personagem de Jamal, um grande otimismo, se você assim preferir. Ele é alguém que nunca perde a sua bondade, apesar das várias maldades que perpetraram o caminho dele. E ele é um personagem que nunca perde a sua inocência, realmente, apesar de tudo o que acontece com ele durante a história."

"Eu passei por quatro testes - na verdade, cinco e depois de cada um dos testes eu pensava comigo mesmo, "Que droga. Eu não consegui o papel", Patel se lembra do processo de escolha de elenco. "Eu fui pra casa quase chorando, com lágrimas nos olhos. Então eu me lembro da minha mãe que estava no banco e eu iria encontrá-la para fazermos algumas compras e quando eu cheguei ela tinha lágrimas nos olhos. E eu disse, "Mãe, o que aconteceu?" Ela disse, "Você não vai acreditar de quem eu acabei de receber um telefonema. E ela me contou a novidade e nós ficamos em estado de êxtase. Eu estava literalmente chocado. Pra ser sincero, eu realmente não estava acreditando naquilo e realmente queria ouvir isso do próprio Danny para checar se aquilo tudo era legítimo ou se alguém estava me passando algum tipo de trote."

Em sendo o seu primeiro papel em um filme de longa metragem, e tendo sido criado em Harrow em Londres, Patel estava bastante nervoso em interpretar um personagem supostamente nascido e educado nas favelas de Mumbai. Ele sentiu uma pressão enorme para aprender o sotaque e o jeito das favelas. Chegando sempre um pouco antes do horário marcado para filmar as suas cenas, ele imergia na atmosfera das locações para absorver a forma de agir e ser do seu personagem.

"Eu tive que interpretar cenas de muita emoção, cenas de esforços físicos e tudo isso saiu realmente de dentro de mim," ele diz. "Danny realmente encontra um jeito de conseguir tirar aquela determinada emoção de você em cada uma das cenas."

O filme ganhou 8 Oscars, nas categorias de Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Edição, Melhor Fotografia, Melhor Trilha Sonora, Melhor Canção Original ("Jai Ho") e Melhor Som. Foi ainda indicado nas categorias de Melhor Edição de Som e Melhor Canção Original ("O Saya").

Trailer do Filme

Canções

 

Fonte: Europa Filmes/CinePOP

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