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No Dia das Mães de 2006, a cidade de São Paulo está sitiada. Ataques a delegacias de polícia, ônibus incendiados, ameaças a shoppings, metrô e aeroportos. Quem lidera a ação é o Comando, uma poderosa organização criminosa. No meio do caos está a viúva Lucia, uma professora de piano, de classe média, que passa por dificuldades financeiras e tem uma missão: tirar o filho adolescente da cadeia. Rafael, 18 anos, está preso por ter se envolvido num incidente que terminou com a morte de uma jovem. Nas visitas ao filho na penitenciária, Lúcia conhece Ruiva, advogada do Professor, líder do Comando. A empatia entre as duas é imediata e Ruiva começa Paralelamente, o Comando vive uma acirrada luta interna de poder e ao mesmo tempo enfrenta o inimigo comum: o sistema penitenciário. A crise entre prisioneiros e o sistema carcerário se agrava e, numa demonstração de força, o governo transfere de uma só vez centenas de presos de alta periculosidade para presídios de segurança máxima do interior de São Paulo. A reação é imediata. O Comando envia seu código: Salve Geral. E São Paulo vira um inferno. Inspirado em fatos verídicos, ‘Salve Geral’ conta uma história de ficção das mulheres por trás do Comando e mostra que quando a lei e a ética são postas em questão o que impera é a força.
UM DESAFIO CHAMADO ‘SALVE GERAL’ 1. PLANO GERAL Na minha adolescência cinematográfica escrevi um poeminha chamado ‘O Caçador de Imagens’. O verso final dizia: “o caçador de imagens é o cego de nascença, que, súbito, vê.” Quase 30 anos depois, escrevi para a cena em que Lucia, a protagonista de ‘Salve Geral’ conversa com o Professor, presidiário com quem está tendo um caso de amor, essa fala: “Quando eu sinto medo, eu fecho os olhos, sempre fui assim, desde criança”. Abrir os olhos, ver, uma coisa aparentemente tão natural. Só aparentemente. Há muitas coisas que as pessoas e a sociedade preferem não ver, na ilusão de que assim elas não os afetarão. É o caso de Lucia, professora De certo modo, a sociedade brasileira é como Lucia. É duro ver de olhos bem abertos essa situação brutal. Há em todos nós o desejo de deixar tudo atrás dos muros reforçados dos presídios e penitenciárias do Brasil. A partir de maio de 2006, isso não foi mais possível. O presídio veio às ruas, tomou São Paulo e mostrou com violência inédita o seu poder. Se era preciso ver para crer, já vimos; agora, é preciso ver para entender. O assunto do filme era muito claro e preciso, mas só aos poucos fui definindo o tema que se impõe sobre a narrativa: o controle, ou melhor, o descontrole. O desejo de ter tudo muito bem organizado e controlado e a força
Era pra ser assim, previsível, a vida de Lucia e de seu filho Rafa. Era pra ser assim aquele fim de semana de maio, no tranqüilo almoço do Dia das Mães. Não foi. Quando Lucia teria imaginado que seu filho mataria uma pessoa? Nem em sonho imaginaria se apaixonar por um líder de facção, de um modo ou de outro fazer parte dela, acabar empunhando uma arma, abandonar São Paulo... Quando São Paulo imaginaria ver sua população em pânico trancada em casa? E as ruas desertas em pleno horário comercial? Quando o governo imaginaria que a organização, cuja existência negou durante anos, pudesse orquestrar tal manifestação de poder? Quando o inesperado – embora não de todo imprevisível – tomou as rédeas, o cavalo disparou e não pôde ser contido – ainda que momentaneamente –, se não com muita dor e sofrimento. Centenas pagaram com suas vidas. ‘Paz, Justiça, Liberdade’ são as palavras de ordem da maior organização de criminosos do Brasil. No avesso desse ideal de todos, violência, injustiça, prisão.
2. DOCUMENTÁRIO E FICÇÃO: PESQUISA E ROTEIRO Fazer filmes inspirados em fatos e personagens da história brasileira não é novidade para mim. Fiz isso em ‘O Homem da Capa Preta’, ‘Lamarca’, ‘Canudos’, ‘Mauá’ e ‘Zuzu Angel’. A diferença é que nunca tinha tratado de um assunto tão recente, contemporâneo mesmo. A idéia de fazer ‘Salve Geral’ me bateu subitamente em setembro de 2006, três meses depois dos fatos, dentro do carro numa viagem a Minas Gerais. Eu tinha acompanhado pela imprensa e TV todos aqueles acontecimentos. A coisa que mais me impressionou, de tudo que li e vi, foi a entrada em cena das mulheres no mundo do crime, com uma posição de força que eu nem suspeitava. Essa foi minha primeira intuição, construir o filme em torno dessas mulheres, personagens inéditas em nossa dramaturgia. A segunda decisão foi ter como protagonista uma mulher de classe média, inicialmente distante, depois mergulhando nesse mundo de criminalidade e violência. Foi por causa dessa visão que convidei Patrícia Andrade para trabalhar no roteiro. Patrícia foi jornalista antes de estrear no cinema com ‘Dois Filhos de Francisco’. Fomos juntos para São Paulo, entrevistamos muita gente, policiais, jornalistas, promotores. E mergulhamos alguns meses na pesquisa, farta, do material da imprensa. Mais do que fazer um documentário sobre aqueles eventos – ou uma cinebiografia dos personagens centrais do episódio –, tínhamos claro que devíamos construir um filme de ficção, com a liberdade de criar e fundir personagens, inventar situações, adaptar outras. Tudo para mais do que se deter sobre a tempestade, procurar entender como ela se formou. Lucia e Rafa são inteiramente ficcionais, assim como Xizão, HD, Tirso e Angela. Escrevemos o primeiro tratamento, depois Patricia se afastou para realizar outros trabalhos e fui sozinho até o tratamento final, ao longo de 2008. Do ponto de vista técnico, o desafio era equilibrar dramaticamente uma narrativa multifacetada, com quase 20 personagens importantes, divididos entre Lucia e o filho, os líderes da facção, a policia, e a turma de Ruiva, que faz a ponte entre os dois mundos. O roteiro final tinha 222 cenas, das quais umas dez resolvi não filmar e outras dez foram abandonadas na montagem. Por outro lado, na montagem mexemos pouco na estrutura: as cenas foram montadas na mesma ordem em que foram escritas.
3. DECUPANDO A REALIZAÇÃO Uma história no papel. Como filmá-la? Onde colocar a câmera? Com quais lentes? Filmei ‘Salve Geral’ com uma liberdade muito maior que nos meus longas recentes. Em filmes de época, como ‘Mauá’ e ‘Zuzu Angel’, o cenário cenografado já impunha de cara restrições de enquadramento. E, além disso, achei que esses filmes deveriam ter um enquadramento clássico, uma decupagem precisa. ‘Salve Geral’ foi feito de outra maneira. Se estou longe de ser um admirador do treme-treme de câmera que um modismo fez vigorar por bom tempo, achava que um certo tom “jornalístico” na maneira de filmar reforçaria a narrativa do filme, inspirado em fatos verídicos. Embora não tenha aposentado o tripé, nem a grua, ou o travelling, começamos a filmar usando bastante o steadycam. Mas logo ele foi deixado de lado: Fabio Burtin, nosso operador, passou a filmar com a câmera na mão. Conseguiu resultados extraordinários, como na cena em Ruiva recebe o ‘Salve’ para iniciar a onde ataques, uma cena rodada inteira num plano só. Essa liberdade me levou a mudar a mise-èn-scene, a maneira como os atores se movimentam no quadro. Nesse filme, a câmera não disse aos atores onde eles deveriam se colocar, nem como se movimentar. Pelo contrário, eles tiveram a liberdade de marcar suas posições e nosso trabalho era buscar as melhores soluções visuais a partir disso.
Do mesmo modo com relação ao texto. Os diálogos estavam todos escritos. Alguns atores, como Denise Weinberg, disseram exatamente o que estava no roteiro. Outros, não. Andréa Beltrão mudou praticamente todas as suas falas. Ajeitou tudo para o seu ritmo e sensibilidade. Aliás, a inteligência cênica de Andréa é espantosa: ela não só faz maravilhosamente a sua parte, como propõe um jogo aos colegas absolutamente surpreendente, sempre a favor da narrativa. Também me dei a liberdade de modificar situações de filmagem. A cena em que Xizão é morto era prevista para ser um atentado a uma agência bancária. Por acaso passei um dia diante de uma loja de noivas, em Campinas, onde a gente estava filmando. Imediatamente tive a idéia de fazer a cena ali. Ao invés de atacar o “sistema financeiro”, Xizão atacaria seus sonhos, seus fantasmas, um mundo que ele, pobre marginalizado, jamais poderia alcançar. É uma das cenas
4. CLOSE NO ELENCO Sessenta e dois personagens com fala. É isso aí, 62. Onde encontrar tanta gente talentosa e adequada aos personagens? O ponto de partida foi fácil. Escrevi o personagem de Lucia para Andréa Beltrão. Só pensava nela, sem que ela soubesse e sem que eu soubesse se seria possível que fizesse o filme. Fui atrás de Andréa como um peregrino vai a Meca. Não foi fácil, seus compromissos no teatro e na TV quase inviabilizaram meu sonho. Houve um momento em que para nossa dupla decepção jogamos a toalha, não ia dar. Mas num prosaico encontro numa loja de departamentos percebemos a besteira que estávamos prestes a fazer. Andréa me disse que andava sem dormir pensando no trabalho que ia deixar de fazer, eu lhe disse que ficava acordado só pensando em como fazer o filme sem ela. Ali, de pé diante de uma empacotadora de loja, percebemos que o impossível não era aceitável. Adiamos o início da filmagem em alguns meses, Andréa ajeitou sua agenda, veio para o filme
Mas no caso de ‘Salve Geral’ sempre achei que iria precisar de rostos desconhecidos do grande público. Pensava – e hoje tenho certeza, com o filme realizado – que isso daria um mistério ao filme. Se os personagens fossem entrando e o público não tivesse um reconhecimento imediato sobre eles, se seriam grandes ou pequenos, bons ou maus, galãs ou não, esses clichês que inevitavelmente – e à revelia dos próprios atores – vão se grudando às suas personas públicas. Rostos desconhecidos, mas grandes artistas. Nunca cogitei atores não-profissionais. Na minha maneira de ver o cinema não vejo nenhum sentido nisso. Fui beber na maravilhosa cena teatral de São Paulo. Atores espetaculares, basicamente dedicados aos palcos, conhecidos e reconhecidos no meio teatral, mas sem o desgaste de imagem que a televisão gera. Ensaiamos bastante, não tive um preparador de elenco. Não tenho nada contra esses profissionais, mas para mim é como se eu convidasse alguém para fazer meu papel na noite da lua-de-mel. Não me tirem esse prazer de trabalhar com os atores.
Trailer do Filme
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Fonte: Sony Pictures/Downtown |