Django Livre
16.01.2013
Pablo Bazarello

Quentin Tarantino, um dos cineastas mais populares da atualidade volta três anos depois de seu último filme para entregar sua tão sonhada homenagem aos faroestes com “Django Livre”. Um cinéfilo de carteirinha, Tarantino é conhecedor de verdadeiras obras obscuras, e apreciador de todos os gêneros cinematográficos.

O diretor já deixou sua marca pelo cinema de kung fu, de guerra, de máfia, black sploitation e inclusive pelo cinema de horror B conhecido como “grindhouse”. Em todos esses casos Tarantino tinha muito o que dizer, assim como acrescentar a esses subgêneros. Com “Django Livre” (que recebe o título do nome de um personagem vivido pelo italiano Franco Nero – que aqui faz uma ponta obviamente – da década de 60) acontece o mesmo. O Django de Tarantino é um escravo (Jamie Foxx) libertado por um caçador de recompensas alemão que dubla como dentista (Christoph Waltz). Os dois partem numa jornada a fim de matar criminosos procurados e cobrar seu alto pagamento.

Por mais que não seja saudável a idolatria, temos que tirar o chapéu para Tarantino. De tempos em tempos aparece um profissional em uma área específica tido como revolucionário, e por mais que os depreciadores digam que o diretor de “Pulp Fiction” não é tão especial ou inovador assim, é inegável sua importância e influência para o mundo da sétima arte. Com apenas duas obras assinadas na direção, em 1994 Tarantino já era sensação mundial, e um dos cineastas mais imitados em estilo, sem que nenhum dos copiadores jamais chegassem perto. Não é novidade um cineasta aparecer com força causando impacto, o louvável é se manter relevante por duas décadas. É inquestionável que Tarantino possui um estilo único que inclui diálogos longos e carregados sobre um tema específico, atenção assustadora aos detalhes, e uma mescla de humor (muitas vezes negro) e ultra violência. É admirável a dedicação de Tarantino a seus diálogos, e no Globo de Ouro desse ano ao receber o prêmio pelo roteiro de “Django Livre”, o autor falou um pouco sobre seu processo que faz uso de uma plateia cativa.

Originalmente planejado para Will Smith (Tarantino sempre tem o ator na cabeça na hora de criar seus personagens), o escravo liberto Django, que sai numa jornada pessoal em busca de sua amada Broomhilda (a bela Kerry Washington), acabou caindo nas mãos do vencedor do Oscar (“Ray”, 2005), Jamie Foxx. O ator descoberto por Tarantino para “Bastardos Inglórios”, Christoph Waltz, reprisa a parceria com o diretor. Uma curiosidade é que o ator planejado originalmente para viver o vilão Coronel Hans Landa era Leonardo DiCaprio, que aqui finalmente personifica o vilão num filme de Tarantino, e em toda a sua carreira. Por mais que Django seja o herói dessa história, é Christoph Waltz e o seu Dr. King Shultz que ganham toda a atenção dos diálogos explorados minimamente do diretor. Isso é, até a aparição do antagonista Calvin Candie (DiCaprio) com 1 hora de projeção (de três). O protagonista de “Titanic” nunca esteve tão bom e se entregando tanto a um personagem.

É sabido o desconforto de DiCaprio durante as filmagens, devido a seu personagem, mas através do estímulo do diretor e de seus colegas de elenco, o jovem ator entrega um de seus melhores desempenhos nas telas, e inclusive tem um machucado na mão para provar sua intensidade (DiCaprio se cortou numa das cenas e seguiu em frente, o sangue que é visto nas telas é o do próprio ator). Leonardo DiCaprio é o melhor ator em cena, e por mais que tenha sido Christoph Waltz o indicado ao Oscar, é DiCaprio que surpreende numa interpretação visceral nunca antes tentada em sua carreira. Quem a essa altura do campeonato ainda era descrente sobre o talento do jovem não terá mais dúvidas. No demais “Django Livre” é puro Tarantino, ou seja, uma ida a montanha russa, cenas empolgantes, muitas risadas, e um desfecho (que inclui arcos de personagens) inesperado. É um grande desafio para qualquer um não gostar desse filme. E quanto a polêmica levantada por Spike Lee sobre a qualidade ofensiva da obra, como fazer um filme sobre escravidão sem apresentar cenas angustiantes que talvez nem cheguem perto do verdadeiro horror. Tarantino além de um grande cineasta tem se mostrado um herói, e com sua máquina do tempo, também conhecida produção cinematográfica, mudado a história.

 

 

Nota:

 

Crítica por: Pablo Bazarello (Blog)