O Hobbit - Uma Jornada Inesperada
12.12.2012
Pablo Bazarello

Há exatamente nove anos chegava ao fim uma das trilogias mais lucrativas e prestigiadas da história do cinema. “O Senhor dos Anéis”, como todos sabem, é baseado na obra literária clássica escrita no período entre o fim dos anos 30 até o fim dos 40, durante a Segunda Guerra Mundial, pelo professor inglês da Universidade de Oxford, J. R. R. Tolkien.

Após ter os direitos comprados pela New Line, subsidiária da Warner, a obra de Tolkien (que se mantém como o terceiro Best-seller mais vendido de todos os tempos) finalmente veria as telas de cinema como superproduções dignas de filmes épicos e aventuras medievais, dirigidos pelo então desconhecido Peter Jacskon. Os filmes foram lançados respectivamente nos finais de 2001, 2002 e 2003, arrecadaram verdadeiros rios de dinheiro somando Um bilhão, 35 milhões e 94 mil dólares, para dividir com seu status de 17 Oscars (entre os três filmes, sendo 11 somente no último). Mas o que muita gente talvez não saiba é que antes da obra (que posteriormente foi dividida em três partes) o escritor Tolkien havia criado “O Hobbit”, livro de fantasia infantil que precedeu e serviu para criar o universo em que se ambienta a saga “O Senhor dos Anéis”.

E é justamente assim que o novo “O Hobbit – Uma Jornada Inesperada” poderia ser definido, uma aventura mais infantil e inofensiva do vimos retratado na trilogia épica. Novamente dirigido pelo perfeccionista Peter Jackson, que por um tempo se esquivou da possibilidade de voltar ao universo de Tolkien, cedendo lugar possivelmente para Guillermo Del Toro (que aqui atua apenas como roteirista). Após ver seu “filme sério”, “Um Olhar do Paraíso”, morrer na praia, principalmente com os votantes da Academia, Jackson atendeu o desejo dos fãs, e meteu ele mesmo a mão na massa no comando dessa nova aventura pela Terra Média. “O Hobbit” se passa antes dos eventos apresentados em “O Senhor dos Anéis”, mas no filme vemos tudo como um flashback quando Bilbo Bolseiro (ainda interpretado por Ian Holm no início do filme) relembra suas grandes aventuras. No passado Bilbo é interpretado por Martin Freeman (de “O Guia do Mochileiro das Galáxias”) na maior parte do filme, e o ator inglês de 41 anos se sai extremamente bem. O Bilbo de Freeman é carismático, e entrega momentos cômicos e dramáticos de forma satisfatória, seu personagem em “Uma Jornada Inesperada” é o que seu sobrinho Frodo foi para “O Senhor dos Anéis”.

Jackson tira o que de melhor a tecnologia pode entregar a essa altura, os efeitos são grandiosos mesmo não impressionando tanto quanto dez anos atrás. É inegável a importância de uma produção dessa magnitude, a obra de Tolkien conseguiu cativar os sentimentos e imaginação de milhões de seguidores, que ficarão mais do que satisfeitos em ver novamente seu universo querido levado ao cinema. Mais do que isso, “O Hobbit” é dito ser importante ao mundo mais abrangente da sétima arte em geral, já que é o primeiro filme da história do cinema rodado com uma tecnologia que nos permite ver um filme de forma mais realística, em 48 quadros por segundo ao invés dos usuais até hoje 24 quadros. Alguns especialistas comparam o fato ao advento do cinema falado e do cinema a cores. Na trama do filme, Bilbo, um orgulhoso e acomodado hobbit, é escalado para uma grande aventura pelo familiar mago Gandalf (da trilogia original), mais uma vez personificado pelo grande Sir Ian McKellen, que parece não ter mudado um fio da barba de seu personagem em sua caracterização em comparação aos outros filmes.

No começo, assim como em “O Senhor dos Anéis”, somos apresentados por uma narração que nos conta que o reino dos valentes Anões perdeu sua fortaleza desenvolvida dentro de uma caverna, para um dragão, criatura atraída por minérios segundo Tolkien. O resultado final é que “O Hobbit” não possui uma trama tão urgente e identificável quanto “O Senhor dos Anéis”. Por mais que Bilbo diga o quanto foi grande sua aventura na juventude, talvez realmente não tenha sido tão importante quanto a de seu sobrinho 60 anos depois. Frodo, ao lado de representantes de todos os reinos da Terra Média, lutou numa missão que seria comparável à Segunda Guerra Mundial, para impedir um domínio global, enquanto em “O Hobbit” Bilbo ajuda um grupo de 13 anões a reconquistar seu reinado, o que soa mais como a Guerra dos EUA no Oriente Médio. Analogias à parte, “O Hobbit” demora a engatar, e apresenta cenas cômicas infanto-juvenis (os anões chegando para tirar Bilbo de sua zona de conforto na aconchegante toca) e dois números musicais de cantorias (gostaria de ver a cara dos fanboys que clamam desprezar musicais).

Com 169 minutos de projeção, o que traduz-se em 2 horas e 49 minutos de filme, “O Hobbit” poderia ser muito mais diluído, até porque ainda veremos mais dois filmes. Mesmo assim a produção de Jackson ainda consegue guardar cenas bem legais de adrenalina (a batalha dos gigantes de pedra, com os heróis presos a eles), e momentos emocionantes (a primeira demonstração verdadeira de coragem de Bilbo ao impedir a morte do líder dos anões, Thorin Escudo de Carvalho), além do retorno de diversos rostos conhecidos do grande público como Elrond (Hugo Weaving), Galadriel (Cate Blanchett), Saruman (Christopher Lee), Frodo (Elijah Wood) e a criatura gerada por computador Gollum (Andy Serkis). Pode-se dizer também que “O Hobbit” não causaria tanto efeito fosse ele a primeira investida na Terra Média, ou seja, sem o apoio da mitologia estabelecida pela franquia “Senhor do Anéis” no cinema, e embora a trilogia original de Jackson tenha sido prestigiada com uma indicação ao Oscar de melhor filme para cada uma das três partes, creio agora após ter assistido “O Hobbit”, que a nova produção não deva ser indicada ao prêmio de melhor filme do ano, no Oscar 2013.

 

 

 

Nota:

 

Crítica por: Pablo Bazarello (Blog)