A Hora Mais Escura
20.02.2013
Janaina Pereira

A cineasta Kathryn Bigelow chamou a atenção do mundo ao conquistar o Oscar de melhor direção por Guerra ao Terror (2010), e se tornar a primeira mulher a receber este prêmio. No 'Clube do Bolinha' que é Hollywood, a ex-mulher de James Cameron impõe respeito e ganha admiradores por fugir do estereótipo de 'diretora de comédias românticas/dramas' e apostar em filmes essencialmente masculinos.

Seu novo trabalho, A Hora mais Escura (Zero Dark Thirty), é, na minha modesta opinião, o melhor dos concorrentes ao Oscar - ao lado de Amor, de Michael Haneke.

A trama relata o que supostamente aconteceu na caçada a Osama Bin Laden, inimigo número 1 dos EUA após os atentados em 11 de setembro. Seguindo a determinação da agente da CIA, Maya (Jessica Chastain), o filme narra os bastidores da ação que mataria Bin Laden em maio de 2011.

Apesar da trama ser original, foi baseada em relatos de agentes que estiveram envolvidos na caça a Bin Laden, incluindo a agente mulher que liderou boa parte da operação, e que inspirou a personagem de Jessica. A CIA teria, inclusive, dado acesso a alguns documentos à Bigelow e ao roteirista Mark Boal (que também é jornalista), mas depois do lançamento do filme questionou as cenas de tortura que aparecem no longa, negando que os EUA façam qualquer coisa neste sentido.

O grande diferencial de A hora mais escura é o fato do filme ser dirigido por uma mulher. Bigelow dá um olhar feminino à trama, mostrando os dramas pessoais entre as cenas de ação. Dificilmente um homem deixaria tão claro que foi o desejo pessoal de uma mulher que levou Bin Laden à morte - e é essa visão feminina em um terreno masculino e árido que transforma o filme em algo mais do que uma história de ação/guerra.

Infelizmente Kathryn Bigelow sofre com o machismo e a falta de compostura tipicamente americana quando o assunto é abafar seus próprios podres. Machismo porque só isso explica a não-inclusão da (ótima) diretora na categoria direção do Oscar 2013, mesmo seu filme concorrendo em outras categorias importantes, como melhor filme e roteiro original (no total, foram cinco indicações). A campanha que vários políticos americanos fizeram contra A Hora mais Escura - pelo fato de o filme apresentar cenas de tortura - só mostra como o povo que acha que domina o mundo também acredita que nós, pessoas de outros países, realmente achamospensamos que os EUA nunca torturam ninguém. Bigelow não disse nada que a gente já não sabia.

Também é importante ressaltar o ótimo desempenho de Jessica Chastain, atriz que nos últimos dois anos vem se transformando em um dos nomes sólidos do cinema americano. Indicada ao Oscar, era favorita até Jennifer Lawrence (O Lado Bom da Vida) começar a arrebatar todos os prêmios - o que é uma pena, pois Jessica tem atuação infinitamente melhor que Jennifer, e é merecedora de todo e qualquer prêmio.

Mesmo que A hora mais escura tenha sido extremamente questionado pelas cenas de tortura, é importante lembrar que o filme não se baseia apenas isso, pois esta seria apenas uma das táticas usadas pelos americanos para conseguirem o que desejam. Neste ponto, o roteiro de Mark Boal é bem claro, apontando todas as controvérsias do sistema americano. Também deixa claro que não há heróis nem vilões, pois tudo que é feito - de um lado ou de outro da 'guerra' - tem sua justificativa.

Espero que longe dos EUA, A hora mais escura faça o sucesso que merece. É, desde já, um dos grandes filmes do ano, e um filme que passa a limpo um dos pontos mais importante da história recente

 

Nota:

 

Crítica por: Janaina Pereira (Cinemmarte)