Indomável Sonhadora
02.10.2012
Pablo Bazarello

Uma das coisas mais legais em festivais de cinema é descobrir pequenas pérolas como esse “Indomável Sonhadora”. Exibido nos festivais de Sundance e Cannes desse ano, a produção agora chega ao Brasil no Festival do Rio. Na trama, somos apresentados a uma menininha de seis anos de idade, conhecida como Hushpuppy, papel da encantadora Quvenzhané Wallis, que vive na grande pobreza de sua comunidade nos bayous (área pantanosa) do estado sulista da Louisiana.

Hushpuppy é criada da maneira que pode por seu temperamental pai, vivido de forma impactante por Dwight Henry. Seu progenitor tenta ensinar independência desde cedo à menina, afirmando que na vida não podemos de fato confiar em ninguém, e para isso o sujeito inclusive criou um lar diferente do seu, para a menina. A liberdade e a proximidade com a natureza são elementos fortemente defendidos pela obra. Essa comunidade humilde produz seus próprios alimentos, que quase sempre consiste em animais campestres. Após um grande golpe sofrido pela natureza, a comunidade é desfeita devido a fortes chuvas torrenciais, e uma tempestade que inunda o local.



Diversas famílias abandonam a área em nome da sobrevivência, mas Hushpuppy e seu pai decidem permanecer no local. Enfrentando os percalços de uma enchente, os protagonistas correm o rio que se tornou os arredores dos bayous, em busca de sobreviventes. Logo encontram o último recanto com remanescentes do local. Decididos a resistir, essas pessoas criam alternativas e investem em meios de sobrevivência. Essa é uma história de transição e amadurecimento, somos apresentados a esse mundo peculiar e inusitado, pelos olhos da menina Hushpuppy, que no filme aprende sobre o mundo da forma que lhe é acessível. Muito mais do que uma obra feel good, “Indomável Sonhadora” é um eficiente docu-drama que fala sobre o espírito humano. Baseado na peça “Juicy and Delicious” escrita pela também atriz Lucy Alibar, que assina o roteiro ao lado amigo Behn Zeitlin (diretor do filme), a produção foi vendida para a Fox Searchlight (braço de filmes de arte da Fox) por basicamente seu orçamento, dois milhões de dólares. Quase todos os atores da obra são verdadeiros moradores da área usada como locação para as filmagens, o que acrescenta grande realismo ao tom documental da produção.

Grande apelo da obra é conseguir ser igualmente crua, dura, doce e agradável. Apesar da triste realidade dos personagens, em momento algum os realizadores desejam que o público sinta pena delas. E para isso salpicam tudo com uma qualidade mágica, e doses de surrealismo. Em partes um conto de fadas, “Indomável Sonhadora” consegue se manter na tênue linha com a realidade, e o choque dos dois mundos ao final da projeção se torna inegavelmente emocionante. Como dito, o talento da pequena protagonista Wallis é impressionante; inteligente e cheia de vida ela funciona muito melhor do que diversas atrizes mirins treinadas, em produções de milhões de dólares, de gente de renome. Igualmente convincente é a performance de Dwight Henry como seu pai. Em certo trecho, uma personagem mostra sua tatuagem na coxa, que exibe a figura de grandes animais para a menina, e daí a produção apresenta contornos do excelente infantil “Onde Vivem os Monstros”, de Spike Jonze, quando Hushpuppy imagina que seu lar foi desfeito após o derretimento de calotas polares, que por consequência descongelam grandes bestas, similares a bisões.



O encontro da liberdade e do aprisionamento provido pela modernidade, e do rural contra o urbano, se torna um dos temas levantados na produção do casal de amigos escritores. Desde já “Indomável Sonhadora” se torna também uma das melhores obras cinematográficas do ano, e forte candidato a indicações no próximo Oscar. A obra ganha pontos por apresentar uma locação incomum, que ganha tanta vida e consegue se tornar além de forte elemento, um personagem em si. E mais do que isso, por contar nessa locação uma história igualmente diferente de tudo ao que estamos acostumados a ver. Grandes filmes necessitam nos envolver com sua trama, causar identificação, e também de certa forma serem acessíveis ao grande público; “Indomável Sonhadora” alcança todos os quesitos não sendo apenas uma produção feita sob medida para agradar. É um pedaço da realidade, um filme adulto que serve igualmente para entreter como (e até mais) para informar e passar uma mensagem (papel do cinema de arte). Com recomendações de Oprah Winfrey e do presidente Barack Obama, “Indomável Sonhadora” está pronto para ser um dos destaques do 2012.

 

Nota:

 

Crítica por: Pablo Bazarello (Blog)