Lincoln
25.01.2013
Wilker Medeiros

‘“Um filme grandioso, recheado de belas atuações, mas que é politicamente chato e demasiadamente longo.”.

Não é de hoje que os americanos adoram falar, com muito orgulho, sobre o 1º Republicano e 16º presidente dos Estados Unidos, Abraham Lincoln. Muitos filmes, seriados e documentários retrataram e se aprofundaram bem na imagem e história do político mais aclamado de todos os tempos.

Entretanto, anos se passaram e até o atual momento não tínhamos uma obra que fosse um referencial categórico, à sua altura, e estivesse marcada no orbe sétima arte. E foi, talvez, pensando nisso que a produtora Kathleen Kennedy, decidiu chamar o diretor norte-americano mais influente de sua geração, Steven Spielberg - cineasta que foi seu parceiro em obras como ‘A Lista de Schindler’ e ‘Jurassic Park - O Parque dos Dinossauros’ – para transmitir, através de sua experiência, o sentimento de vitória, honra e conquista vivido naquele período.

Em outubro de 2005, a escritora Doris Kearns Goodwin lançou o livro ‘Team of Rivals - The Political Genius of Abraham Lincoln’, sendo foi muitíssimo elogiado e tido por muitos como a obra definitiva e que melhor traduzia a figura política de Lincoln. E é justamente daí que foi inspirado o mais novo trabalho de Spielberg, obviamente intitulado de ‘Lincoln’. A trama se passa durante a Guerra Civil, que, fatalmente, acabou com a vitória do Norte. Onde é mostrado, através de debates muito bem planejados, no início da fita. Mas que em nenhum momento, se arrisca em encenar escarcéus das batalhas e revelar o resultado cruel dos combates. Mostrando de cara à que se veio. Não que isso seja de todo modo algo negativo, mas com certeza chamaria atenção do espectador e o colocaria mais ainda naquele contexto.

Só que, a bem da verdade, o filme se preocupa principalmente em despontar o conflito do republicano, que travava um duelo ainda mais difícil, em Washington. Onde ao lado de seus companheiros de partido, tentava passar uma emenda à Constituição dos Estados Unidos que acabava com a escravidão. Algo que para época era um assunto quase que irredutível, na cabeça dos cidadãos daquela região. Argumento que é aqui brilhantemente abordado durante todo seu tempo de exibição. É aí que está o grande mérito desse longa: Retratar detalhada e especificamente a situação atemporal, através de conceitos e referências históricas responsavelmente pesquisados. E, de um modo muito pungente, dar as caras tudo que aconteceu para que a maioria dos lideres dos estados americanos votassem e culminasse o fim daquele regime.

Em meio a uma produção grandiosa e uma direção de arte irretocável, Spielberg cria uma narrativa abalizada e contínua, que é apoiada por constantes elipses, indicando pontualmente toda trajetória do seu personagem. Porém, a película que é engendrada totalmente em cima de diálogos, tende, inevitavelmente, a falhar e torna-se, fatalmente, desinteressante e enfadonha. Justamente pela questão altercada. O tema que é por se só muito cabeçudo, para o público universal, tem uma extrema preocupação sobre a riqueza histórica de detalhes, que é minuciosamente aventada e debatida durante longas cenas quase empacadas. Que somente através de leves travelings e pequenos planos detalhes, temos um pouco de variação. Deixando tudo ainda mais lento e fazendo com que o publico se canse facilmente. E como se não bastasse, Spielberg, como sempre, cai no dramalhão, no intuito frustrado de emocionar a plateia, com a revolta da esposa do presidente.

A felicidade do cineasta foi puder contar com um grande elenco e um dos maiores e melhores atores da atualidade - porque não dizer, da história do cinema. É claro que estou falando do sempre espetacular Daniel Day Lewis. Dono de papeis lendários, em obras como ‘Sangue Negro’, ‘Meu Pé Esquerdo’ e ‘O Último dos Moicanos’. Aqui, não fugindo da regra, Lewis empresta seu charme e imponência a Lincoln, e concretiza uma das mais belas e delicadas atuações dos últimos anos. Nunca um ator foi tão bem ao perpetrar uma biografia. Nos trejeitos, na postura física, nos olhares e na entonação vocal. Tudo é meticulosamente planejado e genialmente realizado. E, não é só ele que faz aqui um ótimo trabalho, Tommy Lee Jones é também um dos maiores destaques do filme, vivendo o marcante Thaddeus Stevens.

A fotografia de Janusz Kaminski - cinematografo oficial de Spielberg – tem um papel muito eficaz dentro da narrativa. Através lentes azuladas e meio acinzentadas, consegue passar um aspecto frio, que reflete bem o clima vivido naquela época e a personalidade tranquila do presidente. Michael Kahn, também antigo parceiro do diretor, em quase todos os seus trabalhos anteriores, realiza uma montagem pouco inspiradora. Diria que até falha, já que o filme aparece o tempo todo sem ritmo. É como se estivéssemos numa longa leitura maçante. Já a trilha do mestre John Williams serve somente para pontuar o humor das cenas. Sem ela muitas vezes nem saberíamos se o clima está tenso ou não. Tendo em seu tema principal, quase que um hino, por se parecer muito com as canções feitas para marchas ou discursos.

Em todo caso, ‘Lincoln’ não é totalmente falho em sua proposta de mostrar detalhadamente a importância desse líder para o futuro e evolução da nação, e toda luta travada para que isso fosse possível. Mesmo cometendo graves pecados, no que se refere a direcionamentos narrativos ou por desmoronar-se no melodrama, ao mostrar o presidente no seu leito de morte, em meio a uma trilha triste e forçada. O título mantém-se de pé. E, se você quer conhecer um dos momentos mais heroicos da história americana, esse é um material indispensável para a sua cancha. E, que de forma alguma mancha a carreira do diretor. Pelo contrário, o tira do marasmo infantilóide de ‘Cavalo de Guerra’ e põe novamente num caminho mais sério.

 

Nota:

 

Crítica por: Wilker Medeiros (Blog)