Os Miseráveis
31.01.2013
Pablo Bazarello

Baseada no conto clássico de Victor Hugo (que já foi adaptado diversas vezes ao cinema), essa nova produção comandada pelo diretor Tom Hooper é a versão mais ambiciosa de “Os Miseráveis” até hoje. A última vez que “Os Miseráveis” foi ao cinema o resultado foi, digamos morno, com a obra de 1997, do diretor dinamarquês Bille August, protagonizado por Liam Neeson, Geoffrey Rush, Uma Thurman e Claire Danes nos papéis principais.

O filme passou desapercebido pela crítica e público, além obviamente do Oscar. Não foi o que aconteceu com essa versão de 2012, que abocanhou 8 indicações ao maior prêmio do cinema, incluindo melhor filme, ator, atriz coadjuvante, maquiagem, figurino e direção de arte. Na trama muito conhecida, Jean Valjean é um condenado foragido, que ao chegar ao fundo do poço de sua vida, decide se reformar. Oito anos depois e o criminoso é o limpo e honesto prefeito de uma pequena cidade na França, dono de uma confecção.

Na sua cola encontra-se Javert, agora um chefe de polícia que o conhecia na época em que era prisioneiro, e começa a reconhecê-lo em sua nova vida. Seu destino também se cruza com o de Fantine, uma ex-funcionária de sua fábrica, demitida, vivendo na sarjeta e se sujeitando a todo tipo de maus tratos, como prostituição, a fim de arrecadar dinheiro para sua filha, a pequena Cosette, que está sendo criada por amigos, ou pelo menos é o que a sofrida mulher pensa. Valjean promete para Fantine cuidar de Cosette, e assim mais alguns anos se passam com os dois convivendo agora como pai e filha, e a pequena criança aflorando numa jovem e bela mulher. Victor Hugo acrescenta a Revolução Francesa ainda na sua trama, e ao final temos seus personagens mergulhados no grande conflito. O cineasta Tom Hooper é conhecido por ter dominado a premiação do Oscar há alguns anos, com o politicamente correto “O Discurso do Rei”, mas já havia comandado eficientes produções como “Longford” e “Maldito Futebol Clube”.

O respeito e autonomia conquistados com “O Discurso do Rei” fizeram bem ao diretor, que se expõe e se coloca na linha com uma arriscada proposta para uma grande produção. O que acontece também é que por muitos anos o texto de Victor Hugo foi um musical de teatro apresentado ao redor do mundo, imensamente querido pelo público. Hooper pega a ideia e a leva para o cinema. Como é muito sabido aqui também, “Os Miseráveis” é um musical diferente de todos os outros. Geralmente esse tipo de filme é produzido com atores cantando as suas partes em estúdio, onde tudo pode ser melhorado e mexido, e depois durante as filmagens apenas dublam suas próprias vozes. Aqui, o diretor Hooper chega com a proposta de todos cantarem ao vivo suas falas, enquanto atuam junto da equipe. Todos os atores possuíam um ponto onde um músico escondido criava a trilha sonora em suas cabeças. Dessa forma apenas os atores ouviam os acompanhamentos e seu tempo era mesclado com as falas.

Somente na pós-produção a trilha sonora era acrescentada. Sem dúvidas é criativo e consegue passar uma emoção maior, ao sabermos que atores, como a ótima Anne Hathaway, choram e tiram de seus pulmões o que vemos na hora junto da cena. Essa é uma super-produção de 61 milhões de dólares e realmente vemos o dinheiro na tela. Tudo é impecável, desde os figurinos, a maquiagem certeira, e a grandiosa direção de arte (a primeira cena com os prisioneiros puxando um grande navio, mesmo obviamente fazendo uso de alguma computação gráfica, é algo imponente como abertura da obra). Os atores estão igualmente grandiosos. Hugh Jackman diz ser esse o papel de sua vida, sem dúvida porte e profundidade Jean Valjean possui. Jackman é um talentoso ator, e especialista em musicais no teatro. Aqui, o intérprete de Wolverine tem um desempenho honesto que lhe rendeu sua primeira indicação ao Oscar (Jackman disse repetidas vezes em entrevistas que por pouco não desistiu do personagem e do filme, por achar que era demais para ele).

Anne Hathaway está igualmente certeira na pele da sofrida Fantine, emagreceu e cortou os cabelos, transformações físicas que a Academia adora. Transformações essas que lhe garantem a vitória no Oscar (será muito difícil Hathaway não ser a vencedora de sua categoria), mesmo aparecendo um pouco mais de 10 minutos em cena. Já Russell Crowe vem sendo criticado por não se adaptar ao musical, e Sacha Baron Cohen e Helena Bonham Carter (veteranos de outro musical, “Sweeney Todd”) apesar de fazerem graça, parecem um pouco deslocados em teor em relação ao resto do filme, onde só temos miséria e desgraça, gente sofria, afinal o nome é “Os Miseráveis”. Dois destaques que precisam ser citados são as novatas Samantha Barks a versão jovem da filha de Cohen e Carter, e a menina Isabelle Allen, que interpreta Cosette criança, encantadora. O grande problema reside na estrutura do filme em si.

Particularmente tenho uma queda por musicais, simplesmente por adorar música em geral. Então sempre penso, se gosto de música e gosto de filme, por que não gostar de sua combinação. Diversos musicais foram acusados de tudo, desde “Across the Universe”, passando por “Mamma Mia!” até o recente “Rock of Ages – O Filme”, mas o que não podem ser acusados é de serem chatos. E isso é justamente o que o cansativo “Os Miseráveis” consegue ser. Para começar, ao contrário dos demais musicais onde temos uma trama, e os personagens se põem a cantar em determinados momentos cruciais, em “Os Miseráveis” não temos diálogos normais, tudo é cantado o tempo todo, como numa ópera. Vale lembrar que aqui temos quase três horas de exibição, o que testará implacavelmente sua resistência. A verdade é que para mim nada disso seria problema, e gostei de muitos aspectos do filme. O grande problema foi realmente a falta de identificação que a narrativa videoclíptica causa. Aqui temos cenas jogadas, amontoadas sem grandes ligações dramáticas. É até engraçado falar isso de um filme que tem 3 horas de duração, mas tudo acontece rápido demais. Não sentimos a trajetória dos personagens, apenas sabemos sua história e deduzimos sem grande envolvimento. “Os Miseráveis” possui muitos atrativos, mas como uma obra cinematográfica com começo, meio e fim não funciona, e talvez esse seja o problema, vê-lo como um filme.

 

Nota:

 

Crítica por: Pablo Bazarello (Blog)