Os Miseráveis
07.02.2013
Arthur Gadelha

Os filmes de gênero musical teatral sempre foram visto com meticulosidade; até onde foram cinema e até onde foram teatro. Em meio há tantos musicais, ponho uns dos meus preferidos Sweeney Todd e até mesmo o caricato Mamma Mia. Ambos contam com um elenco responsável; Johnny Depp e Meryl Streep se provam grandes atores e bons cantores nesses filmes.

Onde ficou o adjetivo “bons” costumava estar “maravilhosos”. Entretanto, Os Miseráveis chegou para mostrar e comprovar o que, de fato, são grandes atores e ao mesmo tempo, maravilhosos – agora digo sem receio – cantores.

Com absoluta certeza, digo que a grande surpresa e satisfação do filme é o elenco arrebatador. Hugh Jackman faz um dos papéis mais importantes e difíceis de toda a sua carreira. Arriscado em fazer algo que nunca foi visto antes, Hugh impressiona com toda a sua surpreendente habilidade – ou seria dom? – de cantar em tantos tons diferentes e de maneira tão perfeita... Daniel Day-Lewis incorporou um Lincoln e tanto em todos os seus trejeitos calmos e silenciosos, mas, mesmo que sinceros e fieis, não são tão absurdos quanto a qualidade de Hugh Jackman. Enquanto todos viram seus olhares ao Lewis, eu dou visão a Hugh Jackman, quem, de fato, merecia o prêmio da noite.

Mas Hugh não fica sozinho nesse time sublime. Anne Hathaway, mesmo com pouco tempo de aparição no filme, consegue provar com extrema maestria que é uma cantora lendária, além de ser uma atriz cativante. A cena na qual Anne canta o sucesso “I Dreamed a Dream” é espetacular; em todo o cinema é impossível que se tenha visto algo parecido. A cena é tão impulsiva, que é capaz de emocionar até o mais insensível dos humanos.

Samantha Barks emplaca, mesmo que por pouco tempo, grandes músicas que lhe pediram um esforço sem igual. Diferente do que muitos vêm achando, Eddie Redmayne, considerei uma verdadeira surpresa. Ora agudo, ora grave, toma inúmeras cenas para si, assim como o seu par romântico no filme, Amanda Seyfried que dá tudo de si, quase sempre num tom docemente agudo – nada comparável ao perturbador inferno sem fim soado por Johanna em Sweeney Todd. Russell Crowe talvez seja dono da voz que tenha me incomodado um pouco. – nada que retire a essência e o brilho da película. – E não tem como não falar deles, Helena Bonham Carter e Sacha Baron Cohen, casal integrante do núcleo comediante do enredo. – Participação mais que maravilhosa!

Enfim, não pude escrever sobre esse filme sem separar grande parte do texto para falar a respeito dos grandes cantores presentes. Ainda sobram muitos elogios, afinal... Tom Hooper opinou por uma versão do musical alternativa e arriscada. Ao invés da maioria dos musicais onde os atores gravam as músicas antes e depois somente dublam, Hooper opinou por fazer com que os atores cantassem ao vivo, na hora da filmagem. Essa foi, sem dúvida, uma das escolhas mais inteligentes... Percebe-se a intensa emoção dos personagens quando estão cantando. A música não os atrapalha; pode haver improviso ou pausas necessárias... Vemos as veias do Hugh Jackman saltarem de sua testa, sua língua tremida e sua força vocal exuberante, assim como Anne Hathaway, em sua cena marcante, onde sentimos todos os seus pesares em uma tomada única de Hooper – A melhor cena do filme. Os diretores técnicos do filme estão de parabéns. A arte é escandalosa, assim como a fotografia exacerbada ou os figurinos espetaculares...

Outro aspecto que anda em discursão é o fato de falta de ritmo no filme ou até que ele não sirva como filme. Deve haver cinco ou seis frases faladas e o resto é música sem parar! – Isso supõe que a ideia do filme nunca foi parecer um filme e sim, criar uma nova experiência nas salas de cinema – e criou. É como se estivéssemos em um teatro 2D; tudo imprime essa ideia: Os figurinos, os ambientes fechados e pequenos, a direção de arte, a fotografia, o roteiro e até as tomadas aéreas feitas por Hooper. Isso deixa de ser um aspecto negativo para virar um dos pontos mais altos do longa: A sensação de estarmos vendo um verdadeiro teatro, devido ao tamanho realismo nos atores. Os enredos e núcleos são típicos de um teatro – num teatro não há tempo para enrolar com cenas desprezíveis, assim, pulando instantaneamente de cenário para cenário, de personagem para personagem, sem que sejamos previamente avisados. Até isso foi mantido no filme para nos transmitir a certeza que a ideia sempre foi trazer um sentimento diferente ao assisti-lo.

Quando citei que As Aventuras de Pi era o filme pelo qual eu torcia no Oscar, não tinha nem ideia do quê esse filme seria. Agora digo com nitidez e confiança, que, de todos os indicados à melhor filme do ano, “Os Miseráveis” é o mais profundo, comovente, intenso, formoso e cativante. É o filme que, embora Academia não lhe dê muitas chances, eu adoraria vê-lo ganhar a estatueta da noite e sim, me emocionaria, assim como me emocionei ao ver cenas musicais tão lindas, em especial, a de Anne Hathaway.

As músicas são simplesmente maravilhosas! Se não as letras rápidas, mas os ritmos ficam soando na mente depois da sessão. Em Os Miseráveis, Tom Hooper consegue de maneira excelente, não só criar uma nova experiência, como também, fazer o telespectador trazê-la para fora do cinema.

 

Nota:

 

Crítica por: Arthur Gadelha (Blog)