ESPECIAL 34° Mostra de São Paulo - Por Janaina Pereira

11.11.2010
Janaina Pereira
  • Filme alemão vence o Troféu Bandeira Paulista

A 34ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo divulgou nesta quinta, 4, os vencedores do Troféu Bandeira Paulista (criação de Tomie Ohtake), durante a cerimônia de encerramento na Cinemateca Brasileira.

O júri internacional, composto por Alan Parker, Ana Luiza Azevedo, Carlo di Carlo, Michel Ciment, Miki Manolojvic, Samuel Maoz, Serge Avédikian escolheu o alemão Quando Partimos como melhor filme. O longa é o candidato oficial da Alemanha para o Oscar 2011 e narra a história de uma alemã que foge do casamento em Istambul e volta a morar com a família em Berlim. O júri entregou um prêmio especial a Beyond, dirigido pela atriz Pernilla August, que atuou em filme de Ingmar Bergman e Bille August. O filme também levou o prêmio de melhor atriz para Noomi Rapace.

Após a cerimônia de encerramento, o filme “A Rede Social”, de David Fincher, foi exibido.

Confira a lista completa dos premiados da 34ª Mostra Internacional em São Paulo.

TROFÉU BANDEIRA PAULISTA 2010

PRÊMIO FICÇÃO – COMPETIÇÃO NOVOS DIRETORES

Júri para Ficção – Competição Novos Diretores: Alan Parker, Ana Luiza Azevedo, Carlo di Carlo, Michel Ciment, Miki Manolojvic, Samuel Maoz, Serge Avédikian.

Melhor Atriz: Noomi Rapace, por “Beyond”, de Pernilla August
Prêmio Especial do Júri: “Beyond”, de Pernilla August
Melhor Filme: “Quando Partimos”, de Feo Aladag

PRÊMIO DOCUMENTÁRIO – COMPETIÇÃO NOVOS DIRETORES

Membros do Júri para Documentário – Competição Novos Diretores: Felipe Tassara, Rainer Hartleb, Wolney Attala.

Prêmio Especial do Júri: “O Samba Que Mora em Mim”, de Georgia Guerra-Peixe
Melhor Documentário: “Jardim Sonoro”, de Nicola Bellucci

PRÊMIO DA CRÍTICA

Prêmio Especial da Crítica: “Carlos”, de Olivier Assayas – França/Alemanha
Melhor Filme: “Mistérios de Lisboa”, de Raoul Ruiz - Portugal


PRÊMIO DO PÚBLICO

Melhor Filme Brasileiro: “Meninos de Kichute”, de Luca Amberg
Melhor Filme Internacional: “Balibo”, de Robert Connoly
Melhor Documentário Brasileiro: “José & Pilar”, de Miguel Gonçalves Mendes
Melhor Documentário Internacional: “Pense Global, Aja Rural”, de Coline Serreau
Prêmio da Juventude: “O Mágico”, de Sylvain Chomet

PRÊMIO AQUISIÇÃO CANAL BRASIL (curtas-metragens)


Júri: João Nunes, Luiz Carlos Merten, Alessandro Giannini, Nina Rahe, Dolores Orosco, Ana Paula Souza

Melhor Curta-metragem: “Pimenta”, de Eduardo Mattos.


PRÊMIO ITAMARATY

Júri para Filmes Brasileiros: Bernardo Spinelli, Eduardo Valente, Georgia Costa Araújo

Prêmio Especial – Homenagem pelo Conjunto da Obra: Carlos Reichenbach
Melhor Curta-Metragem: “Pimenta”, de Eduardo Mattos (R$ 15 mil)
Melhor Longa-Metragem - Documentário: “Lixo Extraordinário”, de Lucy Walker, João Jardim, Karen Harley (R$ 30 mil)
Melhor Longa-Metragem - Ficção: “Rosa Morena”, de Carlos Oliveira (R$ 45 mil)

PREMIO HUMANIDADE

Mahamat Saleh Haroun, diretor de "Um Homem que Grita".
Raoul Ruiz, diretor de "Mistérios de Lisboa".
Hannah Schygulla, atriz e diretora.

TROFÉU AMIGOS DA MOSTRA

Maestro Maurício Galindo.

  • Público escolhe os melhores da Mostra

Após serem exibidos na 34ª Mostra Internacional de São Paulo e votados pelo público alguns filmes de ficção e de documentário na seção Competição Novos Diretores concorrerão ao Troféu Bandeira Paulista. O júri presidido pelo cineasta inglês Alan Parker escolherá os vencedores.

A entrega do Troféu será no próximo dia 4 de novembro, às 20h, na Cinemateca Brasileira. Os prêmios são divididos nas categorias Melhor Filme, Direção e Ator, Melhor Documentário e Menção Honrosa.

FILMES DE FICÇÃO MAIS VOTADOS:

- A ÁRVORE (The Tree, França/Austrália), de Julie Bertucelli
- A VALSA DAS FLORES (Ryabinoviy Vals, Rússia), de Alyuona Semenovam, Alexander Smirnov
- ABEL (Abel, México), de Diego Luna
- AZUL DA COR DO MAR (Viola Di Mare, Itália), de Donatella Maiorca
- BEYOND (Svinalängorna, Suécia/Finlândia), de Pernilla August
- HERMANO (Hermano, Venezuela), de Marcel Rasquin
- IRMANDADE (Broderskab, Dinamarca), de Nicolo Donato
- PEEPLI AO VIVO (Peeplilive, Índia), de Anusha Rizvi
- QUANDO PARTIMOS (Die Fremde, Alemanha), de Feo Aladag
- ROSA MORENA (Rosa Morena, Brasil/Dinamarca), de Carlos Oliveira
- SOU TERRORISTA (Ich Bin Eine Terroristin, França), de Valérie Gaudissart
- TERCEIRA ESTRELA (Third Star, Reino Unido), de Hattie Dalton



DOCUMENTÁRIOS MAIS VOTADOS:

- A ROTA DAS TINTAS (La Voie de L´encre, França), de Pamela Valente
- CAMPONESES DO ARAGUAIA - A GUERRILHA VISTA POR DENTRO (Camponeses do Araguaia – A Guerrilha Vista por Dentro, Brasil), de Vandré Fernandes
- EXIT THROUGH THE GIFT SHOP (Exit Through the Gift Shop, Reino Unido), de Bansky
- JARDIM SONORO (Niel Giardino Dei Suoni, Suiça), de Nicola Bellucci
- O SAMBA QUE MORA EM MIM (O Samba que Mora em Mim, Brasil), de Georgia Guerra-Peixe
- OS DOIS ESCOBARES (Two Escobares, EUA/Colômbia), de Jeff Zimbalist, Michael Zimbalist
- SINFONIA DE KINSHASA (Kinshasa Symphony, Alemanha), de Claus Wischmann

  • Queridinho do público, Dolan mostra maturidade em seu novo filme

O mundo GLBT nunca mais foi o mesmo depois que o canadense Xavier Dolan surgiu. Ano passado, o jovem estreou como diretor com Eu matei minha mãe, uma histeria sobre o relacionamento problemático de um adolescente (o próprio Dolan) e sua mãe. O longa, exibido com sucesso no Festival do Rio, chegou ao circuito somente este ano, e vem conquistando mais e mais fãs. Confesso que não gosto do filme e criei uma antipatia brutal pelo diretor, mas fui convencida por um amigo a dar uma segunda chance a Dolan.

Foi assim que, quase por obrigação, fui ver Amores Imaginários, segundo filme de Dolan, que passou no Festival do Rio e chegou muito bem cotado à 34ª Mostra de São Paulo. E eu, que admito todas as minhas fraquezas e franquezas sobre o cinema, consegui simpatizar com Dolan e seu universo muito particular. Moderninho, cheio de referências, com uma trilha sonora bacana e um roteiro comum, sem grandes profundidades, o cineasta de apenas 21 anos apresenta um novo caminho, processo natural de amadurecimento para quem pretende deixar de ser apenas mais um na multidão.

Amores Imaginários mostra a que Xavier Dolan veio - e ele não veio a este mundo a passeio. Selecionado este ano da mostra Un Certain Regard, em Cannes, o longa aborda a mais trivial das histórias: o amor platônico, ou imaginário, como o próprio título diz. A história sobre mais um triângulo amoroso é moderna porque aborda o tema mais comum ultimamente - a mulher e o amigo gay se apaixonam pelo mesmo cara. E esse cara é um narcisista, que manipula os dois apaixonados.

Xavier Dolan é o amigo gay, fofo e carente. A mulher é Marie (Monia Chokri), heterossexual, vintage, carente e que não desgruda do amigo gay fofo. Em uma dessas festinhas na casa de um amigo em comum, eles conhecem e se apaixonam por Nicolas (Niels Schneider), um menino de sorriso encantador e cachinhos dourados. Mas Nicolas sabe que é gatinho e usa isso, supostamente, a seu favor: ele se aproveita da paixão alheia para ter os apaixonados sempre por perto, rodeando e bajulando ele. Os três se tornam inseparáveis, e enquanto os amigos disputam literalmente no tapa Nicolas, esse ( me desculpem a expressão) não fode mas também não sai de cima. Alguém já viveu isso alguma vez na vida? Pois é.

Dolan joga câmeras lentas (meio Closer, como muito bem observou um amigo jornalista), filtro de cores fortes (meio Almodóvar, referência do diretor desde seu primeiro filme) e uma trilha sonora fantasticamente indie. É tudo cool, feito para um público específico, mas que pode ser olhado sob outro contexto para quem não se 'encaixa' no perfil proposto no filme. Ok, algumas pessoas podem reclamar que o roteiro não tem muita profundidade, mas isso não chega a ser um defeito porque boa parte dessa geração que está ai é rasa mesmo. O curioso é ver como a piada ''solteiro sim, sozinho nunca' se repete em algumas cenas, porque sexo não tem nada a ver com amor, e isso a trama deixa muito claro.

Amores Imaginários pode não ir fundo nas relações, mas quem é que quer ir fundo aos 21 anos? O filme está ali para ser absorvido pelos seguidores de Dolan e apreciado por um ou outro como eu, que olha para trás e pensa 'É, eu também já fui assim." Atire o primeiro sapato vintage quem nunca se apaixonou por alguém escroto e não foi correspondido. Esse é o recado de Xavier Dolan para todo mundo, independente de sexo, raça, religião e guarda-roupa.

AMORES IMAGINÁRIOS

  • Filme baseado em conto de Saramago atrai público da Mostra

Quando Antonio Ferreira teve a ideia de adaptar o conto Embargo, de José Saramago, ele ainda era um estudante da Escola de Cinema de Lisboa, em Portugal, nos anos 1990. Anos depois, já com um longa-metragem na bagagem, Ferreira retomou aquele conto e o transformou em uma história que vai além das palavras de Saramago.

O longa Embargo, exibido no Festival do Rio, chegou também à 34ª Mostra de São Paulo, com a última sessão nesta quarta, dia 3, com ingressos esgotados antecipadamente. O roteiro transformou a ideia original de um homem preso ao seu carro a uma trama sobre um outro homem, preso não apenas ao seu carro, mas à ideia de que ele pode ficar rico com um tal escaneador de pés.

Em entrevista ao CinePOP, o diretor português fala mais sobre seu filme.

CinePOP Este filme é um projeto que surgiu há muito tempo. Como o conto do Saramago virou um longa-metragem?
Antônio Ferreira O longa nasceu como um curta. Era 1994, eu tinha acabado de entrar na Escola de Cinema, em Lisboa, e não tinha ainda muita noção do que queria fazer. Àquela altura comecei a filmar somente comigo, meu vizinho e minha namorada de então batia a claquete. Essa era a equipe do filme. Comecei a filmar, mas terminou que não deu em nada, nem sequer terminei as filmagens. Era mais um ímpeto de tentar fazer alguma coisa. Depois daquilo, esse projeto mudou completamente e aconteceu de novo quando houve uma nova greve em Portugal, e tive então um flash de que acontecia o que estava descrito no texto de Saramago.

CinePOP O que mais te atrai na obra de Saramago?
Antônio Ferreira A força da escrita. Ele tem um lado humanista, as questões humanas estão sempre lá. É um tipo de história que tem uma realidade concreta, embora abordada de forma surrealista. E a escrita dele é muito cinematográfica.

CinePOP É mais fácil ou mais difícil adaptar um conto ou livro para o cinema?
Antônio Ferreira Literatura e cinema são meios diferentes, ainda bem! Os cursos narrativos são diferentes. Eu, por exemplo, não gosto de narração em off, acho um recurso preguiçoso e desinteressante.acho que a literatura é um ponto de partida; é preciso transformar a obra literária e encaixá-la em um novo meio, que é o cinema.

CinePOP Qual a importância deste filme na sua carreira?
Antônio Ferreira Espero que seja muito importante. Em Portugal fazemos cerca de 12 filmes ao ano, temos dificuldade financeira para realizar esses projetos. O Brasil está em uma fase boa, tem o Walter Salles, o Fernando Meirelles... as produções aqui estão em alta. Para fazermos filmes em Portugal uma saída é a co-produção. E trazer Embargo para um festivais no Brasil é importante, um caminho natural. Espero que as pessoas aqui vejam o filme e que isso me abra portas.

EMBARGO

03.11.2010
Janaina Pereira
  • A Rede Social é o filme de encerramento da Mostra

Nesta quinta-feira, 4, a cerimônia de encerramento da 34ª Mostra exibirá A Rede Social (The Social Network), novo filme de David Fincher. É a primeira exibição do filme no Brasil. A cerimônia de encerramento, na qual serão entregues os troféus Bandeira Paulista para os melhores filmes da Mostra, será realizada na Cinemateca Brasileira, a partir das 20h.

A Rede Social conta a criação e desenvolvimento de uma das maiores redes sociais eletrônicas do mundo, o Facebook, com mais de 500 milhões de usuários ativos no mundo. A produção é estrelada por Jesse Eisenberg, Andrew Garfield e Justin Timberlake. O filme entra no lugar de Potiche, de François Ozon, um dos destaques do Festival de Veneza deste ano, que não poderá ser exibido por questões técnicas.

  • Filme alemão desponta como o melhor da Mostra

Se você tiver que escolher um único filme para assistir na 34ª edição da Mostra Inernacional de Cinema de São Paulo, sugiro Quando Partimos (Die Fremde), exibido no Festival de Berlim deste ano e representante da Alemanha na corrida para o Oscar 2011 de Melhor Filme Estrangeiro. Com uma história pesada e dramática, o longa com direção e roteiro da austríaca Feo Aladag trata de família, cultura, religião, etnia e a
busca por independência do ponto de vista de uma mulher que precisa enfrentar a submissão familiar.

A trama começa pelo final: dois adultos e um menino caminham por uma rua sem trocarem palavras. De repente, o rapaz para e aponta a arma para a mulher, que vira de frente para ele. Corta. O mesmo rapaz corre desesperadamente e entra em um ônibus. Suando muito e tentando recuperar o fôlego, algo lhe chama a atenção fora do ônibus. Corta. A mulher, uma alemã de origem turca chamada Umay (Sibel Kekilli) aparece
deitada, prestes a fazer um aborto. Ela volta para casa em Istambul, e enfrenta Kemal (Ufuk Bayraktar) um marido bruto e ríspido com o filho, Cem (Nizam Schiller). Farta da vida que leva junto ao marido, Umay decide viajar até a Alemanha para buscar abrigo na casa dos pais, mas terá que enfrentar uma série de problemas, preconceitos e violência em sua busca por liberdade.

Produções que tratam de religião sempre rendem polêmica. Difícil para um ocidental entender, por exemplo, como a corajosa Umay, mesmo sendo renegada por todos, insiste em ter contato com a família. É preciso, então, esclarecer algumas coisas: na cultura islâmica, o respeito pelo pai é supremo e uma mulher divorciada é banida da família. Estes dois pontos são importantes para esclarecer o porquê de Umay insistir tanto no contato familiar.

Também é bom esclarecer que nem todas as mulheres sofrem humilhações a violência - física e psicológica - como o filme relata mas muitas, como Umay, tentam se rebelar e não conseguem. Na cultura islâmica a mulher não tem poder de decisão. O respeito e a dignidade são coisas de homem. O filme não alivia neste sentido, mostrando uma sequência de brutalidade e absurdos. O impacto é forte: ninguém sai impune da exibição de Quando Partimos.

Os espectadores mais atentos devem reconhecer a protagonista deste filme. A espetacular atriz Sibel Kekilli é também a intérprete principal do premiado Gegen die Wand, um dos filmes mais conhecidos do brilhante diretor alemão de origem turca Fatih Akin. Aos 30 anos, é uma das grandes novas intérpretes do cinema alemão. Sibel é o
destaque, mas todo o elenco está muito bem no filme.

O grande acerto do longa é mostrar que a realidade da protagonista seria outra se ela tivesse nascido homem. De um modo geral, em um mundo machista, isso funciona igual para todas nós. Mas, em particular no mundo islâmico, isso soa bem pior.

Quando Partimos é uma reflexão sobre a luta da mulher muçulmana por respeito e dignidade. Ainda que elas paguem um preço alto por isso, é importante pensar em várias questões: a violência contra mulher não pode ser aceita; uma mulher não é inferior a um homem por causa de seu sexo; e nenhuma mulher deve se submeter aos caprichos de um homem, de sua família, de sua cultura ou da sociedade.

Que todas as mulheres do mundo entendam desde já que submissão não é o caminho para a felicidade de ninguém. E o resultado dessa submissão é, pura e simplesmente, um poço de ignorância.

QUANDO PARTIMOS

 

  • Comédias agitam a Mostra de São Paulo

Para quem gosta de dar boas gargalhadas, os últimos dias da 34ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo trazem duas ótimas comédias como atração. A romântica Querido Muro de Berlim, da Alemanha, e a escrachada Chance, do Panamá, dificilmente vão entrar em circuito, e por isso mesmo merecem uma atenção especial durante a Mostra.

Querido Muro de Berlim é uma história particularmente fofa. E a graça do filme está em seu casal de protagonistas, dois personagens que criam empatia imediata com o público. A história se passa em 1989, semanas antes da queda do muro de Berlim. A Alemanha dividida vive momentos de muita tensão política. Após uma pequena combinação de acasos, um guarda da Alemanha Oriental e uma jovem estudante da
Alemanha Ocidental se encontram e se apaixonam.

O romance, no entanto, tem um impecilho: o muro que os separa não divide apenas um país, mas as ideologias e perspectivas de um povo. Resta então destruir este muro, não em nome da política, mas em nome do amor. Com uma trilha sonora pop, o filme consegue fazer graça de um momento histórico para o mundo, sem, no entanto, deixar de questionar as coisas ruins que haviam nos dois lados do muro.

Já o hilário Chance é um raro filme produzido no Panamá, um grande sucesso que chegou a desbancar Avatar de James Cameron nas bilheterias daquele país no ano passado. A trama gira em torno de duas empregadas domésticas mal pagas que resolvem se rebelar e mantêm a família para a qual trabalham como reféns.

A questão da luta de classes normalmente rende produções densas, com críticas à sociedade e à política. Neste caso, o jovem diretor Abner Benaim optou por uma comédia e marcou um golaço em seu filme de estreia. Ele conseguiu realizar uma trama leve e engraçada mas, ao mesmo tempo, alfinetar segmentos da sociedade.

É fato que alguns personagens são caricatos e tendem a um exagero, como as filhas patricinhas, mas como é uma comédia, o excesso acaba resultando em boas gargalhadas. A empatia do público com as empregadas é imediata e, claro, todo mundo torce por elas. Afinal, é o triunfo dos pobres sobre os ricos, e nessa luta de classes, pelo menos no cinema, os pobres têm que se dar bem.

QUERIDO MURO DE BERLIM

CHANCE

01.11.2010
Janaina Pereira
  • O chocante Vênus Negra faz sucesso na Mostra

Depois de causar furor em Veneza, o francês Vênus Negra (Venus Noire), do cineasta tunisiano radicado na França Abdellatif Kechiche, já pode ser apreciado pelo público da 34ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Chocante, porém necessário, a produção conta, em 168 minutos, a história de uma mulher africana humilhada devido a seus genitais deformados.

Kechiche, autor de O Segredo do Grão, dirige a trama sem perder o foco nessa mulher exuberante, que no fim do século XVIII viajou da África à Europa perseguindo o sonho da fama como bailarina, mas que acabou vendida e exposta como um animal, estudada devido a seu corpo e genitália estranhos para os padrões europeus.

A triste e real história da sul-africana Saartjie Barman, símbolo da segregação racial, é protagonizada com brilhantismo pela cubana Yahima Torres, que chegou a engordar 13 quilos para fazer o papel. Aos 30 anos, ela estreia como atriz em um papel forte e difícil, aparecendo nua sem reservas. O curioso é que Yahima, que eu conheci no Festival
de Veneza, é belíssima, sorridente e carismática, contrastando com a lágrima no olhar que ela carrega ao longo de Vênus Negra. A atriz sustenta o filme com sua expressão de melancolia e angústia, em uma das mais poderosas performances do cinema recente.

O longa é daqueles que incomoda, com repetidas cenas do espetáculo montado para exibir Saartjie em Londres e Paris, mas Kechiche consegue envolver o espectador. É o típico filme que faz a gente parar para pensar em que mundo vivemos e como o ser humano consegue ser abominável.

VÊNUS NEGRA

30.10.2010
Janaina Pereira
  • Vencedores em Cannes estão em exibição na Mostra

Um dos filmes mais esperados na 34ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo já está em exibição no evento, em sessões disputadas. Vencedor da Palma de Ouro em Cannes este ano, Tio Bonmee que Pode Recordar Suas Vidas Passadas (que foi exibido no Gestival do Rio em apenas duas sessões) é mais um exemplar da peculiar estrutura narrativa, ritmo e trabalho de câmera que marcam o trabalho do diretor
Apichatpong Weerasethakul.

Acompanhando um homem à beira da morte que se recolhe com sua família em uma fazenda de floresta tropical no nordeste da Tailândia, o filme é do tipo que pede ao espectador que embarque na experiência sensorial e estética proposta pelo cineasta. Nerm todo mundo vai gostar - eu, particularmente, achei a história muito devagar, chata e cansativa. Mas há quem goste muito, como o diretor Tim Burton (Alice, Peixe Grande) que era o presidente do juri em Cannes. O que comprova aquele velho ditado: "gosto não se discute, lamenta-se."

Outro premiado em Cannes, Turnê, é o terceiro longa-metragem dirigido pelo ator Mathieu Amalric (O Escafandro e a Borboleta), que levou no festival francês o prêmio de melhor direção. Na trama, Joachim (Amalric), ex-produtor de televisão francês, vive de agenciar espetáculos de neoburlesco. Na turnê do título, ele viaja pela França com um elenco de dançarinas dos EUA, desesperado por não ter achado ainda um lugar para elas se apresentarem em Paris, o final da tour.

Com números musicais que beiram a bizarrice, Turnê não chega a ser ruim, mas é preciso, literalmente, embarcar na história para conseguir entendê-la. Quem consegue, adora; se não conseguir, vai achar o filme chatíssimo. Confesso que não embarquei muito na trama e estou tentando entender até agora o prêmio de direção para Amalric - um excelente ator, mas que como diretor não acrescentou nada em sua cinematografia.

O filme Outubro, de Daniel e Diego Vega, co-produção Peru, Espanha e Venezuela, também levou prêmio em Cannes - o especial do júri na mostra Um certo olhar, para jovens cineastas. A trama acompanha Clemente, um penhorista pouco comunicativo e a nova esperança amorosa de Sofia, vizinha solteira, devota em Outubro ao culto do Senhor dos Milagres.

A relação deles começa quando Clemente descobre uma menina recém-nascida, fruto da sua relação com uma prostituta que desapareceu. Enquanto ele procura a mãe da pequenina, Sofia ocupa-se dela e de fazer a limpeza na casa do penhorista. Com a chegada destes dois seres na sua vida, Clemente terá ocasião de repensar às suas
relações com os outros.

O grande mérito de Outubro é não fazer julgamento das pessoas e apresentar, sem pressa, o cotidiano delas. Vale ressaltar que, muitas vezes, a gente espera uma mudança brusca no roteiro de um filme, mas quando ela não aparece, também é benvinda. Portanto, atenção neste filme, aparentemente muito simples, mas que aborda que às vezes o exterior quer que a gente mude... mas essa não é a nossa vontade.

Também vencedor de Cannes este ano com o grande prêmio do júri, Homens e Deuses teve sua primeira sessão cancelada, na noite desta sexta, dia 29. A cópia ainda não chegou a São Paulo e as demais sessões programadas do filme ainda não foram confirmadas. De qualquer modo, o longa de Xavier Beauvois, que foi exibido recentemente no Festival do Rio, tem distribuição em circuito garantida para fevereiro de 2011, pela Imovision. Ele é o representante francês ao Oscar de filme estrangeiro, por tanto vale a pena uma boa olhada neste elogiado trabalho.

TIO BONMEE

TURNÊ

OUTUBRO

  • Mostra aposta em diversidade de filmes

A 34ª Mostra Internacional de Cinema oferece filmes para todos os gostos. Aqueles que gostam de blockbusters não devem se decepcionar com Atração Perigosa (The Town), segundo trabalho do ator Ben Affleck como diretor. Exibido fora de competição no Festival de Veneza, e uma das atrações do Festival do Rio, o longa até que distrai, embora se perca em seu final piegas e sem graça.

Todo ano, mais de 300 assaltos a banco acontecem em Boston. E grande parte dos assaltantes mora no pequeno bairro de Charlestown. Um deles é Doug MacRay (Ben Affleck), líder de um grupo de assaltantes de banco que se orgulham de roubar tudo o que querem e sair impunes. A única família que Doug conhece são seus parceiros de crime, especialmente Jem (Jeremy Renner), que apesar do seu temperamento perigoso e explosivo, é alguém que Doug pode chamar de irmão. Mas tudo muda no último trabalho da gangue, quando fazem a gerente de banco Claire Keesey (Rebecca Hall) de refém.

Affleck se sai melhor como diretor do que como ator, e tenta imprimir algum estilo como cineasta, mas ainda é muito cedo dizer que ele conseguirá ter sucesso por trás das câmeras. Em Atração Perigosa, pelo menos, ele tenta fazer algo diferente, embora não consiga atingir este intuito por completo.

Para quem busca filmes 'menores', uma boa pedida é Um dia a menos, documentário mexicano de Dariela Ludlow sobre um casal de idosos que aguarda ansiosamente a chegada dos filhos a cada feriado. E os filhos só aparecem no final do ano.

Quando o feriado termina, os filhos de Eme e Carmen terminam sua visita e vão embora. O velho casal, que entrou na casa dos 90 anos, começa a contar os dias até o próximo feriado, quando a família voltará a visitá-los. Para Dona Carmen, os feriados demoram a chegar. Ela contempla a quietude de seu apartamento quando só os dois estão lá. E os díálogos entre eles, com as características de quem está perdendo a memória e a vida, são a melhor coisa do filme.

Impossível não se emocionar e não lembrar de um pai, uma mãe, um avó ou uma avó que está ou esteve entre nós. No fundo, sabermos que é assim que vamos ficar é o que causa tanta comoção. Preparem os lenços porque as lágrimas são garantidas.

ATRAÇÃO PERIGOSA

UM DIA A MENOS

29.10.2010
Janaina Pereira
  • Comédia aborda as novas relações familiares

Enquanto alguns países do mundo, como o Brasil, ainda discutem se oficializam ou não o casamento entre homossexuais, o cinema mostra que estas relações são como qualquer outra, cheias de altos e baixos, afetos e crises. Quase perfeita para abordar as novas relações familiares é a comédia Minhas mães e meu pai (The kids are all right), de Lisa Cholodenko, em cartaz na 34ª Mostra Internacional de São Paulo.

Digo quase perfeita porque, lá pelo final, o longa dá um derrapada grotesca ao excluir uma das partes dessas novas relações do contexto familiar. Essa derrapada, porém, não tira o brilho de um filme que acerta em tantas outras coisas, como a escolha do elenco e a naturalidade como o roteiro e a direção mostram uma relação homossexual.

A trama fira em torno das lésbicas Nic (Anette Benning) e Jules (Julianne Moore) que, aparentemente, têm um casamento estável. A relação vira de cabeça para baixo quando seus filhos, Joni (Mia Wasikowska) e Laser (Josh Hutcherson), resolvem trazer Paul (Mark Ruffalo), o pai, doador de esperma, para suas vidas. As coisas ficam complicadas quando Jules, sentindo que seu casamento está cada vez mais monótono, se envolve com Paul.

Sucesso nos Festivais de Berlim e do Rio, Minhas mães e meu pai tem como grande triunfo as ótimas atuações de seu elenco, apesar de Anette Benning estar um tanto quanto exagerada em algumas cenas. Julianne Moore, no entanto, compensa tudo, sempre com a versatilidade que faz dela uma das melhores atrizes americanas.

O roteiro também é muito feliz na forma como aborda a relação familiar onde duas lésbicas têm os mesmos problemas que qualquer casal heterossexual, e seus filhos são bem resolvidos mesmo tendo sido criados por duas mães. Ou seja, existe sim normalidade nas relações homossexuais, com direito a todas as alegrias e sofrimentos de uma relação heterossexual.

Se o final decepciona em parte, no todo Minhas mães e meu pai cumpre não só seu papel de divertir, como também de apresentar ao público está mais do que na hora da vida, mais uma vez, imitar a arte.

MINHAS MÃES E MEU PAI

  • Filme venezuelano mostra a força do cinema latino

Nem só de brasileiros e argentinos vive o cinema latino-americano. Candidato da Venezuela ao Oscar de melhor filme estrangeiro, Hermano (Irmão), de Marcel Raquin, disponta como um dos melhores filmes da 34ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

É verdade que o longa lembra, em alguns momentos, Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, muito mais pelo ambiente de favela do que por qualquer outra coisa. O tema do futebol, outro ponto do filme, pode fazer lembrar Linha de Passe, de Walter Salles. Mas, tirando qualquer semelhança com uma ou outra produção brasileira, Hermano consegue envolver o espectador com seu roteiro que vai crescendo e se encaminhando para um final que, por mais que a gente imagine o inevitável, ainda assim surpreende.

A produção venezuelana fala de dois irmãos de criação, Daniel e Julio. Ainda criança, Julio, nascido em uma favela de Caracas dominada pelo tráfico, encontra o bebê Daniel, e eles crescem unidos pelos sentimento de gratidão e paixão pelo futebol. Daniel, que tem o apelido de Gato, está longe de gozar algum prestígio na comunidade em que mora. É virgem, não é bom de briga e é ótimo aluno na escola. A malandragem sugerida por seu apelido, na verdade, é uma alusão a sua incrível habilidade com a bola nos pés.

Quando está de chuteiras, Gato se transforma em tudo aquilo que está longe de ser sem elas. Ele é a estrela do time do bairro, o Ceniza (cinza, em português) e, ao lado do irmão Julio, forma a melhor dupla de ataque da liga local. Porém, a violência é o que impera no ambiente em que vivem, e uma tragédia vai transformar para sempre a vida dos dois rapazes.

Se eu contar mais vou estragar toda a emoção que o filme é capaz de causar. A trama vai se desenrolando para mostrar a superação de um garoto que “renasció de la ceniza” mas a última sequência é o que torna Hermano realmente grandioso, e faz dele um filme inesquecível. graças, especialmente, ao olhar emocionado que o diretor Marcel Rasquin tem por tràs das câmeras. Ele consegue dar ritmo de videoclip às cenas de futebol, e faz drama sem ser piegas.

Não perca a oportunidade de ver esta produção durante a Mostra, pois a exibição em circuito nacional é incerta. A não ser que o Oscar olhe com o carinho que merece para um filme que merece todos os aplausos.

HERMANO

  • Machete é o trash mais cult da Mostra de São Paulo

Exibido em pré-estreia mundial no Festival de Veneza e com passagem de sucesso pelo Festival do Rio, o novo longa de Robert Rodriguez, Machete, está em exibição na 34ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Para quem procura diversão com dose certa de ironia, o filme é um prato cheio.

O agente federal e imigrante mexicano Machete (Danny Trejo) cai em uma armadilha arquitetada por seu arquiinimigo, o traficante de drogas Torres (Steven Seagal), que resulta na morte de sua esposa. Três anos depois, Machete, que agora trabalha como operário, aceita uma oferta do empresário Michael Booth (Jeff Fahey) para matar o Senador John McLaughin (Robert DeNiro), que quer expulsar todos os imigrantes
ilegais do México.

Machete acaba sendo traído pelos homens de Booth e usado como bode expiatório em um plano arquitetado por McLaughin para retratar todos os mexicanos como terroristas e convencer a prefeitura a construir uma enorme muralha elétrica para mantê-los fora do país. A partir daí, o personagem bai em busca de sua vingança pessoal em sucessivas cenas que misturam, na mesma dose, tiros e sarcasmo.

Crítica ácida ao modo como os 'chicanos' são tratados nos EUA, o longa conta ainda no elenco com as beldades Jessica Alba, Michelle Rodriguez e Lindsay Lohan, que faz piada de si mesma. Sem jamais perder o humor, Rodriguez coloca os americanos sob a mira dos imigrantes e destila todo seu veneno em cenas divertidas e, claro, com muito sangue jorrando pela tela.

Não se deixe enganar pelo lado trash do filme. Machete é cult, é pop, mas, acima de tudo, coloca o dedo na ferida sobre quem está do lado de lá e de cá da fronteira EUA-México. E é clássico desde já.

MACHETE

  • Filmes sobre ditadura sulamericana são destaque na Mostra

Os anos passam mais uma ferida continua bem aberta na América do Sul: a ditadura ainda é exposta pelo cinema com todas as suas mazelas. Na 34ª edição da Mostra de São Paulo dois filmes se destacam com este assunto - o argentino O olho Invisível e o chileno Drama.

Em O Olho invisível (La mirada invisible), de Diego Lerman (exibido no Festival do Rio com um título bem melhor, O olhar Invisivel), a personagem central, Maria Teresa, é contratada como assistente de um colégio de elite em Buenos Aires. Enquanto a Argentina sofre os últimos momentos da ditadura militar, a direção da escola procura
manter uma rotina de ensino tradicional e os alunos à parte da realidade do país.

O supervisor chefe vê em Maria Teresa a funcionária que esperava e a instrui para ser o olho que tudo vê. Ela incorpora então o papel da vigilante deste mundo restrito e rigoroso, zelando avidamente pelo cumprimento das lei. O final extremamente perturbador do filme causa impacto, deixando claro que ainda há muita história sobre a ditadura argentina para ser contada. Vale dar uma olhada ainda no romance "Ciencias Morales", de Martín Kohan, que serviu de inspiração para O olho invisível.

Usando o teatro como aparente tema central, o longa chileno drama, de Matias Lira, mostra três jovens que confundem seus personagens no palco com a vida real. Um deles, Mateo, é atormentado pela raiva que sente do pai e o desaparecimento de sua mãe. Desaparecimento este que, já no final do filme, vamos saber que está relacionado com a
aterrorizante ascensão de Pinochet ao poder no Chile.

O interessente neste caso é que Drama mostra a ditadura calando os artistas e acabando com a liberdade de expressão, o que não difere dos dias atuais no Chile, onde ainda é preciso lutar para se expressar - o cartaz do longa foi censurado no país, como conta, a seguir, em entrevista para o CinePOP, o diretor Matias Lira.

E se há uma coisa que o cinema não faz, definitivamente, é colocar os panos quentes na ditadura. Ainda bem.

O OLHO INVISÍVEL

DRAMA

 

ENTREVISTA
Diretor chileno Matias Lira comenta sobre Drama, seu primeiro filme

Motivados pelas técnicas do Teatro da Crueldade do dramaturgo francês Antonin Artaud e por um singular professor, três estudantes de teatro começam a experimentar vivências ao limite numa busca por atingir a perfeição. Misturando realidade e ficção, o filme Drama, de Matías Lira, é muito mais do que parece inicialmente.

Com vários anos de experiência dirigindo programas de televisão, Lira estreia com Drama nos cinemas, marcando presença como mais um jovem diretor chileno a tentar conquistar o mundo. Em entrevista ao CinePop, o cineasta, que está em São Paulo apresentando seu longa na Mostra internacional de Cinema, revela como foi fazer seu primeiro filme.

CinePOP Como surgiu a ideia de filmar Drama?
Matías Lira Procurei um tema que para mim fora recorrente, eu desehava trabalhar algo que me identificasse. O filme tem 90% de realidade, de coisas que vi e vivi, e 10% de ficção.

E por que usar o teatro como pano de fundo da história?
Como já fui ator de teatro, peguei esse universo. Além disso, adoro filmes que usam o teatro como tema central. Um dos meus preferidos é O Estado das Coisas, do Wim Wenders. Então para fazer meu primeiro filme tinha que ser algo que me encantasse, e o teatro me encanta.

Você usa o Teatro da Crueldade do dramaturgo francês Antonin Artaud como ponto de partida da trama. As cenas de ensaio a partir dessa técnica são bastante angustiantes, com os atores passando por momentos exaustivos. O que vemos no filme são técnicas reais ou você exagerou?
Queria retratar a obsessão destes jovens estudantes por querer ser os melhores, por procurar sua identidade, mas no fundo devem compreender que não existem as pressões e nada é tão importante como a saúde física e psicológica.o que eu queria passar é que não é necessário viver no limite para atingir o sucesso. Em qualquer
carreira, os jovens, entre 18 e 23 anos, acham que se não fizerem sucesso nesta época, são fracassados. E isso não é verdade. Mesmo no jornalismo é assim, o jovem jornalista sente essa pressão. Todo mundo tem crise nessa idade, a genbte acha que se não conseguir algo vai fracassar para o resto da vida. Então coloquei as cenas de ensaio de
treatro mostrando como eles sofrem para atingir o sucesso, quando, na verdade, são inseguros e não precisam fazer sucesso tão jovens.

Na realidade o teatro é pano de fundo para um tema recorrente no cinema sulamericano, a ditadura.
Sim, e mais do que retratar o interior das escolas quis mostrar do que muita da gente relacionada com as artes cênicas está ao mesmo tempo muito conectada com a realidade. E mostrar isso e outras coisas no filme me causaram problemas com a censura no Chile.


Que problemas?
Os problemas já começaram no cartaz, que mostra os três protagonistas juntos, na cama, e remete a uma cena do filme. No Chile o cartaz saiu com uma tarja no rosto dos personagens, então não se vê que são dois homens e uma mulher. Além disso há críticas à igreja, e no Chile há muios casos de padres envolvidos com pedofilia. Falta diálogo no país, e essas coisas continuam acontecendo por causa dessa falta de diálogo.

Apesar dessa censura, o filme foi bem recebido pelo público no Chile, o que você acha disso?
Acho que a indentificação vem de que, apesar dos personagens principais serem atores, o filme trata de atuarmos na vida. É esta reflexão que deve ser feita e acho que isso tem atraido as pessoas.

25.10.2010
Janaina Pereira
  • Ator Diego Luna brilha na estreia como diretor

Se você não viu a primeira sessão de Abel, estreia na direção do ator mexicano Diego Luna (E sua mãe também), não perca a chance de ver o filme ao longo da Mostra de São Paulo. Apesar de um pequeno - mas perdoável - deslize no final, Luna mostra a que veio em um difícil trabalho de estreia por trás das câmeras.

Não se deixe levar pela sinopse de Abel que anda circulando por ai. A história, na verdade, mostra um menino que, devido a ausência do pai, se isola do mundo. Depois de dois anos internado eum um hospital para tratamento psicológico, o pequeno Abel volta para casa e assume, de um jeito muito peculiar, a responsabilidade pela sua família.

Repleto de cenas delicadas - um suposto incesto é tratado com humor e compaixão - Abel é um filme que não faz drama em cima de um roteiro que tinah tudo para ser pesado. A atuação convincente do fofíssimo José Maria Yazpik é , em grande parte, responsável por isso. O pequenino ator dá conta do recado, encantando o espectador com o jeito adulto de ser de seu personagem.

É fácil acreditar que Diego Luna vai ser um grande diretor, se continuar tratando suas histórias com tanto carinho e, claro, se contar com roteiristas habilidosas como Augusto Mendonza, que fez de Abel um filme de trama singular.

Para quem gosta de humor pastelão, Uma mulher, uma arma e uma loja de macarrão, de Zhang Yimou (O clã das adagas voadoras) é, sem trocadilho, um prato cheio. Mas se você curte uma comédia de verdade - e se é fã, como eu, dos irmãos Cohen, cuja obra Gosto de Sangue é a inspiração para este longa - passe longe dele.

Uma comédia de erros inspirada num filme dos irmãos Coen deveria ser, no mínimo, inteligente. Mas não é. A versão chinesa é muito chata, e repete por 95 minutos a mesma piada. Uma perda de tempo, a não ser que você seja o tipo de espectador que se contente com (muito) pouco.

Fazer um personagem tropeçar ou matá-lo mil vezes na tentativa de arrancar uma risada é realmente falta de assunto. Melhor escolher outro filme.

ABEL

UMA MULHER, UMA ARMA E UMA LOJA DE MACARRÃO

  • Kore-eda, Abbas Kiarostami e Sofia Coppola em destaque na Mostra

Os paulistanos finalmente vão ver o que os cariocas já viram: o premiado Um lugar qualquer (Somewhere), de Sofia Coppola, é um dos destaques do primeiro final de semana da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Vencedor este ano do Leão de Ouro em Veneza, o longa aborda o dia-a-dia nada glamouroso de John, um ator de sucesso (Stephen Dorff, em atuação inspirada), que vive cercado pelo velho clichê sexo, drogas e rock´n roll. Um belo dia ele precisa passar mais tempo do que de costume com sua filha pré-adolescente (Elle Faming) e arrasta a menina para sua rotina de hotel em hotel.

Não esperem diálogos profundos ou reviravoltas em Um lugar qualquer. O filme se resume aos 15 minutos iniciais, e depois fica se repetindo ao longo de mais de uma hora. Entre silêncios e uma boa trilha sonora, a diretora Sofia Coppola repete e repete a mesma cena mil vezes, reforçando o que todo mundo já tinha percebido: John é um cara
extremamente infeliz. A entrada de sua filha na sua rotina patética poderia provocar alguma mudança - e ela até vem, sutilmente, como a própria Sofia é. Autobiográfico a diretora garante que o filme não é, mas assume que fez algo muito pessoal.

O quarto longa da filha de Francis Ford Coppola vai agradar tanto quanto desagradar - foi assim em Veneza e no Rio - mas posso afirmar que o filme é um resumo da personalidade de Sofia Coppola, uma mulher doce, tímida, sutil e com um 'quê' de melancolia no olhar. E é este olhar melancólico que Um lugar qualquer transborda do começo ao fim.

Melancolia também é o forte de Cópia Fiel, do iraniano Abbas Kiarostami, que deu a Juliette Binoche o prêmio de melhor atriz em Cannes este ano. Ela interpreta uma dona de ateliê que vive com o filho na Itália e acaba se envolvendo com um escritor inglês, de
passagem pela Toscana para lançar um livro.

O escritor James Miller (o barítono William Shimell em seu primeiro papel como ator) questiona a originalidade das obras de arte e o valor das cópias, e desperta a atenção de uma mulher (Juliette, mais linda do que nunca). Ao lonfo de um dia eles vão seconhecendo e a relação dos dois, tão íntima quanto perturbadora, se desenvolve entre closes e sequências inteiras de diálogos ásperos. Em uma aula de direção, Abbas
Kiarostami envolve o espectador na trama até dar uma rasteira que deixa o mais atento cinéfilo boquiaberto.

Disparado um dos melhores filmes do ano, e certamente o melhor a ser exibido na Mostra, Cópia Fiel pode ser resumido pelo olhar vulnerável de Juliette Binoche, que atravessa todo o filme expondo a fragilidade feminina diante do amor - original ou falsificado, aí fica a critério de cada um decidir. Escrever mais é estragar a surpresa de um roteiro inspirado.

A falta de inspiração, no entanto, parece ter atingido o cineasta japonês Hirokazu Kore-eda. Depois do brilhante Seguindo em frente, exibido no Festival do Rio e na Mostra do ano passado, Kore-eda chegou a Mostra deste ano cercado de expectativas. Seu novo trabalho, Air Doll, lembra muito o episódio de Michel Gondry em Tokyo, só que invertido. Uma boneca inflável, companheira de um homem solitário, ganha vida durante o dia e explora o mundo fora do apartamento em que vive.

Exibido em Cannes, o filme é longo demais (125 minutos) para uma história sem muitas possibilidades. Ok, o ser humano está cada vez mas só, e ver um homem se comunicando com uma boneca inflável - sim, porque ele não a usa apenas para o sexo, ela também é sua companheira - é deprimente. Mas o filme vai além, com muitas cenas desnecessárias que tiram qualquer reflexão sobre o tema. Fica aquela sensação de que
o filme devia ter acabado muito antes, sempre precisar se explicar tanto.

Uma pena, porque Kore-eda é um dos mais brilhantes diretores japoneses da atualidade. Fica para a próxima.

UM LUGAR QUALQUER


CÓPIA FIEL


AIR DOLL

 

23.10.2010
Janaina Pereira
  • Cinema oriental é destaque no primeiro dia da Mostra

Enquanto Hirokazu Koreeda não chega às telas - o aclamado diretor japonês é uma das atrações da Mostra de São Paulo com seu novo filme, Air Doll, que começa a ser exibido ao público no final de semana - um outro diretor oriental foi o grande nome do primeiro dia do evento. O sul-coreano Lee Chang-Dong e o seu Poesia (Poetry) brilharam reforçando a tese de que o cinema asiático é mesmo singular.

O longa ganhou o prêmio de melhor roteiro este ano em Cannes, e foi um dos mais aclamados por lá. Exibido no Festival do Rio com sucesso, Poesia não vai passar desapercebido na Mostra - outras sessões do filme já estão programadas. A trama mistura, de forma bastante original, a poesia e o crime de forma impactante. A primeira cena, com um corpo boiando num rio, resume bem o que virá pela frente.

Por duas horas e trinta minutos somos conduzidos ao dia-a-dia de Mija - interpretada pela grande dama do cinema coreano, Yun Jung-Hee - uma senhora que começa a sofrer com os sinais da idade avançada, apresentando problemas de saúde e falta de memória. Criando o neto rebelde, ela vive sempre elegante mesmo tendo pouco dinheiro e levando uma vida extremamente simples. Para ganhar uma grana extra além de sua
pensão, Mija trabalha como empregada doméstica, cuidando de um senhor que sofreu um derrame.

Tudo é muito simples, como a maioria dos filmes orientais. O silêncio, a ausência de trilha sonora, os diálogos suscintos, a troca de olhares, as ações comedidas. As cenas vão se sucedendo e nos levam a uma história surpreendente, onde aos poucos descobrimos que os problemas de saúde de Mija são mais sérios do que podemos imaginar; sua relação com o idoso pode ter conseqûências imprevisíveis e seu neto está envolvido em um crime que lhe afetará diretamente.

Entre os percalços da vida, Mija encontra um pouco de (des)conforto em um curso de poesia, que lhe ensina a trabalhar as palavras que sua mente insiste em esquecer, e a observar os detalhes da vida como um bem precioso que precisa ser lembrado.

Embora se repita muitas vezes, Poesia não é cansativo, pelo contrário, é uma pequena obra-prima sobre as fraquezas e franquezas do ser humano. Um trabalho primoroso do diretor Lee Chang-Dong e da atriz Yun Jung-Hee, cúmplices dentro e fora da telona - a personagem Mija foi escrita especialmente para ela. Desde já, um dos melhores filmes da Mostra e, com certeza, um dos maiores do ano. É o cinema oriental dando uma rasteira nos ocidentais e mostrando como o ser humano é igual em qualquer lugar do mundo, e que a poesia é uma questão de percepção da vida.

POESIA

21.10.2010
Janaina Pereira
  • Filme de Manoel de Oliveira abre Mostra de São Paulo

O Estranho Caso de Angélica, de Manoel de Oliveira, é o filme de abertura nesta quinta, dia 21, da 34ª edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. O longa será exibido em sessão especial para convidados. A partir desta sexta o público poderá conferir mais de 400 filmes na programação da Mostra, que este ano homenageia o alemão Wim Wenders e o japonês Akira Kurosawa.

Além da exibição da filmografia desses dois grandes mestres do cinema mundial, a Mostra de São Paulo também aposta nos vencedores dos principais festivais internacionais. Tio Bonmee e Somewhere, respectivamente os ganhadores de Cannes e Veneza este ano, estão entre os filmes mais aguardados pelo público.

A Mostra de São Paulo acontece em diversas salas de cinema da cidade até o dia 4 de novembro.

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