Analisando 'Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge' [com Spoilers]

27.07.2012
Leonardo Campos

O herói está de volta. No fechamento da trilogia iniciada pelo diretor Christopher Nolan em Batman Begins, temos quase 100% de acerto. Tecnicamente bem estruturado, com ótimo elenco e roteiro, Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge é um delírio visual que vai além da superfície, investindo no perfil psicológico das personagens, pondo as cenas de ação e as incríveis sequências aéreas em um plano paralelo.

Não diria que em segundo plano, afinal, a ação é fundamental para um filme deste tipo, que precisa agradar a um público diverso (fãs dos quadrinhos, fãs de filmes de ação e até mesmo o público comum, que vai ao cinema no final de semana para ver algo e acaba se deparando com a opção Batman).

O filme se passa oito anos depois dos acontecimentos de Batman: O Cavaleiros das Trevas, marco do cinema, principalmente pela forte atuação do falecido Heath Ledger como Coringa. Bruce Wayne (Batman) deixou de agir em defesa de Gotham City e para alguns, não é visto como herói, mas como um vilão (é preciso remeter ao final do segundo filme para entender, por isso, indico ao público uma revisão básica com os dois primeiros filmes). O herói também abriu mão do amor e se mantém distante de tudo e de todos: frio e distante, ele continua tendo a companhia de Alfred (Caine), mordomo fiel e conselheiro. Batman tornou-se um fugitivo ao assumir a culpa pela morte de Harvey Dent.

A chegada de uma ladra esperta e dinâmica, e de um terrorista fazem Wayne sair do conforto do seu lar e vestir mais uma vez o uniforme do morcego.

Com 164 minutos de duração, Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge é intenso, dramático, frenético e bem direcionado. O diretor, que ao optar por não vincular o filme ao formato 3D, mostrou que acertou em cheio. A produção cinematográfica contemporânea, principalmente os produtos deste quilate, filmes adaptados de heróis dos quadrinhos, está ficando muito presa ao formato, distorcendo a noção de cinema. O 3D, que deveria ser esporádico, está se tornando quase uma obrigação em filmes de aventura e ação, e em muitos casos, deixando o enredo em segundo plano. Isso não acontece com este triunfal fechamento de trilogia.

E os quase 100% de acerto? O que significa? Esclareço aos caros leitores: acho que as cenas de luta entre Batman e Bane são demasiadamente longas. É um festival de murros, chutes e solavancos, em lutas coreografadas que poderiam ter pelo menos de um a dois minutos a menos. Entendo que haja a necessidade de legitimar a força física do antagonista Bane, mas ainda acredito que menos, aqui, seria mais. Porém, isto é só um detalhe à parte, que não prejudica a fluência do filme e a qualidade da marca autoral do competente Christopher Nolan. Fazer cinema de autor na contemporaneidade é algo sofisticado e pouco possível, principalmente diante dos produtores, profissionais que regem os investimentos das produções, e que muitas vezes, terminam os seus filmes como querem. Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge é um sucesso crítico e comercial, sem sombra de dúvidas. Convido-lhes a adentrar um pouco mais no universo desta aventura. Vamos nessa?

Como reger uma boa equipe: o elenco da nova aventura

Além da equipe técnica de qualidade, as performances dos atores é outro motivo de sucesso da trilogia Batman. Há um elenco bem articulado, profissionais que possuem experiência em produções alternativas, indo além das atuações de plástico que muitas vezes são submetidas na produção hollywoodiana. Christian Bale continua bem no papel do Batman. As mulheres da trama transcendem a sensualidade: Selina Kyle (Anne Hathaway) e Miranda Tate (Marion Cotillard) convencem nos respectivos papeis. Mostram que são mulheres fortes, qualificadas além da beleza e que rendem bem quando dirigidas adequadamente.

Os veteranos Morgan Freeman e Michael Caine dão um show como Lucius Fox e Alfred, respectivamente, personagens chave para o andamento e fechamento da trilogia. O vilão, bem direcionado na narrativa, é interpretado por Tom Hardy: apresentado de forma obscura e misteriosa, psicologicamente assustador, fisicamente idem. Na malha dos coadjuvantes, temos Gary Oldman como Jim Gordon e Joseph Gordon-Levitt, que ultrapassou a barreira dos romances juvenis superficiais, aparecendo bem crescidinho.

Gordon-Levitt surge como o colaborador do Batman, possibilitando, quem sabe, um filme solo no futuro, assim como pode acontecer depois com a Mulher-Gato. Vale ressaltar que a felina já teve um filme solo, fracasso de bilheteria e crítica com Halle Barrey anos atrás. Apesar da projeção aurática de Michelle Pfeiffer como a melhor interprete da ladra até hoje, Anne conseguiu dar dignidade ao ícone que é a Mulher-Gato. O Robin aqui não é um parceiro do herói, nem surge com trajes burlescos, como na versão com George Clooney e Chris O´Donnel, em 1998, mas mantém características e funções parecidas. Vale ressaltar que Blake se identifica com Bruce Wayne, o Batman, pelo fato deste também ser órfão.

O antagonista da vez: a ameaçadora presença de Bane

Para Christian Bale, interprete do Batman, o vilão Bane é um adversário bem físico. Bem construído no roteiro, Bane é um especialista em artes marciais que fala oito línguas. Nos quadrinhos, tem uma ligação com Ra´s Al Ghul, o vilão enfrentado pelo homem morcego em Batman Begins. Para alguns especialistas, Bane é o oponente mais perigoso do Batman. Diferente de Coringa, Pinguim e Charada, que surgiam para atazanar o herói, Bane surge como ameaça física também, bem apresentada pelos enquadramentos de Nolan, que faz questão de prestigia-lo com alguns rápidos contra-plogeés (plano que foca a personagem de baixo para cima, dando-lhe onipotência diante dos demais, geralmente utilizado numa cena entre vítima e algoz).

Fazendo as escolhas certas: a equipe técnica de Batman

Em time que está ganhando não se mexe. Esse jargão se aplica aos filmes de Nolan, principalmente na trilogia do Batman. Algo semelhante acontece com os filmes de Woody Allen, reprisando a sua equipe técnica em quase todos os filmes, tornando assim, possível, um cinema de autor na contemporaneidade, presa aos aparatos tecnológicos, em filmes visualmente belos e emocionalmente estéreis.

A fotografia, a edição, a direção de arte e o som do filme fazem de Batman um filme bem estruturado. Lee Smith, responsável pela edição de O Show de Truman e Sociedade dos Poetas Mortos, assina a edição, que mesmo dialogando com a linguagem do videoclipe em alguns momentos, consegue dar fluência à aventura.
O som é outro aparato bem delineado: Hans Zimmer, profissional inspirado e renomado assume o cargo. Em 1994, o compositor ganhou o Oscar pela trilha sonora de O Rei Leão e foi indicado outras vezes, como por exemplo, O Príncipe do Egito e Gladiador. A supervisão de efeitos especiais ficou para Chris Corbould, responsável pelo tratamento das cenas de 007 – Cassino Royale.

A fotografia de Batman é um delírio à parte, principalmente nas panorâmicas e demais planos de ambientação. Wall Pfister é o responsável, ganhador do Oscar por A Origem, e já colaborou com Nolan nos ótimos O Grande Truque, Amnésia e Insônia.

A direção de arte, competente, põe em relevo os ambientes que tornam o espectador mais próximo do pacto ficcional que é este filme, assinada pela dupla Nathan Crowley e Kevin Zaganaugh, que tiveram seus nomes nos créditos de A Casa do Lago, Inimigos Públicos, Coração Valente e Missão Impossível 2.