COBERTURA 61º Festival de Cinema de Berlim

11.02.2011
FRED BURLE
  • Equipe de Tropa de Elite 2 chega a Berlim com status de grandes estrelas

Depois de fazer história no Brasil e passar no Festival de Sundance (EUA), chegou a vez de Tropa de Elite 2 fazer sua história em terras europeias. Para isso, nada melhor do que começar no Festival de Berlim, onde a primeira parte da história do Capitão Nascimento e cia antingiu seu ápice, levando o Urso de Ouro, prêmio máximo do festival, em 2008.

Recebidos com aura de estrelas em território alemão, o diretor José Padilha e os atores Wagner Moura e Maria Ribeiro concederam sua primeira coletiva de imprensa no salão do Grand Hyatt Hotel, onde só os convidados mais importantes do festival concedem suas entrevistas.

Sem papas na língua, os três falaram sobre a experiência de realizar a maior bilheteria e público do cinema brasileiro, sobre a situação política do Brasil e sobre a carreira internacional do filme.

Padilha agradeceu por ser recebido em Berlim pela terceira vez – a primeira foi em 2008 com o primeiro Tropa e a segunda em 2009 com Garapa – e sua relação com a cidade: “Berlim é muito importante para a minha carreira e mostrar Tropa de Elite 2 aqui é especial, porque este é um festival voltado especialmente para o público e como o berlinense já assistiu o primeiro, pode entender melhor o conjunto dos filmes. Estou ansioso para saber como o filme será recebido hoje à noite”, disse ele, referindo-se à sessão de gala que o filme ganhará, na noite desta sexta-feira, em Friedrichstadtpalast, cujos ingressos já estão esgotados.

Padilha falou também sobre a distribuição do longa no exterior e sobre o modelo de distribuição no Brasil: “Já assinamos com distribuidoras da Alemanha, França e Inglaterra e estamos analisando propostas que recebemos para distribuir o filme nos EUA. Estou feliz que Tropa 2 terá uma distribuição internacional ainda maior que o primeiro. Isso mostra que o êxito não será só o de ter sido maior no Brasil, mas possivelmente também será maior no exterior”.

Perguntado sobre sua relação com o governo brasileiro e sobre possíveis projetos para mudar as leis de fomento à produção e distribuição no Brasil, Padilha foi enfático: “Não tenho nenhuma relação com o governo brasileiro e não tenho intenção de mudar as leis de cultura estabelecidas; o que intenciono é desenvolver uma forma de distribuir os nossos filmes sem que o lucro das bilheterias fique concentrado nas mãos das majors estrangeiras. Quem assume a maior parte dos gastos com produção no Brasil somos nós, então, nada mais justo do que nós também ficarmos com a parte dos lucros”. “Com a distribuição independente deste filme provamos que isso é possível e um movimento entre alguns cineastas brasileiros está sendo feito, para que a continuidade deste processo seja dada”, contou ele.

Wagner Moura relatou que ficou espantado com a recepção do público ao seu personagem: “Os brasileiros começaram a ter o Capitão Nascimento como um herói nacional e isso é chocante para mim, porque ele não é, de maneira nenhuma, um herói. Ele mata, tortura”.

Também falando sobre o fascínio que o protagonista exerce no público, Maria Ribeiro contou: “Minhas amigas diziam que achavam um absurdo eu ter me divorciado do Nascimento, mas é claro que isso é porque elas gostam do Wagner, porque o personagem sempre foi um péssimo marido”. “Neste segundo filme, minha personagem amadureceu muito e passou a enxergar a situação por uma perspectiva diferente. No primeiro, ela era alienada, mas agora ela já se preocupa com o que acontece na sociedade, pois quer que o filho viva num lugar melhor”, constata a atriz.

Perguntado se achava que o governo Lula havia falhado em sua proposta inicial de combate à corrupção, Padilha opinou: “Com certeza, levando-se em consideração este prisma, o governo Lula foi extremamente fracassado. Foi um governo que decepcionou em diversas questões, mas também acertou em outras”. “Acho imperdoável que Lula, uma pessoa que intenta ser humanista e defende a democracia, tenha apoiado Ahmadinejah (presidente iraniano), sendo que aquele exerce repressão em seu povo, torturou e matou. As pessoas às vezes o perdoam por achá-lo ignorante, mas ele tem conselheiros que entendem melhor do que ele e ele não poderia ter feito isso”, disse Padilha, sob aplausos tímidos de alguns repórteres.

Indagado sobre como seria uma terceira parte da obra, o diretor foi direto: “Não sei como seria uma Tropa de Elite 3, porque não tenho intenção de fazê-lo. Já disse o que tinha que dizer sobre estas questões no Brasil e agora quero falar sobre outros assuntos”.

  • Bravura Indômita abre Berlim como prato requentado, mas de primeira qualidade

Berlim deu hoje às boas vindas à 61ª edição do seu festival internacional com muita pompa, estilo e organização.

Bravura Indômita” foi o filme de abertura e, mesmo já tendo sido exibido em diversos países e estando em cartaz já algum tempo e com muitas críticas e artigos já publicados na imprensa do mundo inteiro, foi recebido com euforia pelos críticos e pelo público presente, especialmente pela presença dos diretores do longa, Ethan e Joel Coen (Onde os Fracos Não Têm Vez), e das estrelas do elenco, Jeff Bridges, Josh Brolin e Haillee Steinfeld. Só foi sentida a ausência de Matt Damon, um dos principais atores do filme.

O filme arrancou aplausos ao fim da exibição fechada para críticos e levou jornalistas a lotarem a sessão de entrevista coletiva com os astros. Numa sessão concorridíssima, muitos tiveram que ficar de fora e assistirem tudo apenas por telão, mas aqueles que entraram tiveram aquilo que esperavam dos convidados: simpatia, piadinhas e até mesmo um pouco de sarcasmo com perguntas bobas.

Claramente a mais aplaudida ao ser apresentada, a jovem Hailee Seinfeld (14), disparou com segurança, quando perguntada sobre quais foram os desafios desta sua estreia nos cinemas: “Honestamente, acho que não houve nenhum grande desafio. O que houve foram pequenos desafios, que vinham a todo momento”. “Era superfácil. A gente pedia a ela que subisse numa árvore enorme ou que se jogasse com um cavalo dentro d'água e ela apenas dizia 'ok'”, disse o diretor Joel Coen, arrancando risadas.

Jeff Bridges elogiou os diretores: “Acho que, com este filme, as pessoas finalmente darão o braço a torcer de que os Coen são os melhores diretores do mundo”. “Também quero falar um pouco dos meus desafios”, disse ele, antecipando-se a prováveis perguntas neste sentido. “O meu maior desafio foi fazer um sotaque o mais fiel possível às pessoas da região e da época, sem tornar meus diálogos ininteligíveis. Em certos momentos, achei que precisaríamos de legendas, mesmo na versão em inglês”, exclamou o astro vencendor do Oscar por “Coração Louco” e agora indicado por este papel, na categoria de melhor ator.

Mas o momento de maior descontração veio por conta de Josh Brolin, calado na maior parte do tempo pela falta de perguntas direcionadas a ele. Numa pergunta feita por uma repórter brasileira a Hailee sobre “como foi ser praticamente a única mulher e a mais nova no set, em meio a um elenco que exalava masculinidade”, Josh de pronto se antecipou à garota e com timing perfeito disparou: “Acho que esta pergunta é mais para si mesma do que propriamente para a Hailee. Acho que quem gostaria de ser a única mulher no elenco era você”, disse ele, muitíssimo bem humorado, arrancando gargalhadas dos presentes e deixando envergonhada a jornalista.

Assim, num clima amistoso e bem agradável, com gosto de quentinha da mamãe, começou o Festival de Berlim. Agora é torcer para que mais bons filmes estejam na programação.

  • Começa o Festival de Berlim
Começa nesta quinta-feira (10), o 61º Festival de Berlim, um dos mais importantes festivais de cinema do mundo. A capital alemã se veste de película e toda a população fica em alvoroço em busca de muitos bons filmes – dentre os quase 400 títulos que compõe a programação deste ano – e de poder ver de perto astros do cinema mundial. Só para se ter uma ideia, mais de 32 mil ingressos colocados à disposição do público para o primeiro dia de festival, já esgotaram.

Acontecendo simultaneamente em 41 espaços da cidade de Berlim, o festival promove, em 2011, uma homenagem a Armin Mueller Stahl, que receberá o Urso de Ouro honorário; uma retrospectiva do diretor sueco Ingmar Bergman, com seus filmes sendo sucedidos por conversas com pessoas que participaram das equipes correspondentes; exibições-protesto em favor do diretor iraniano Jafar Panahi, condenado pelo governo iraniano a 6 anos de prisão e 20 anos de afastamento do cinema; sessões de gala de "True Grit", "O Discurso do Rei", filmes em 3D, entre outros; as cobiçadas mostras Panorama e Forum; a Mostra Generation Kplus e 14Plus; o Berlinale Talent Campus; o Teddy Awards; o Berlinale Shorts; e vários outros eventos paralelos. É programação para cinéfilo nenhum botar defeito.

Os brasileiros marcarão presença nas mostras Panorama (com Tropa de Elite 2); Forum (com Os Residentes); Generation 14Plus (com o curta Ensolarado); além de cerca de 50 profissionais de cinema, trabalhando em prol de fechar negócios e firmar parcerias para o cinema brasileiro, através do European Film Market – evento que contará, inclusive, com a presença da cantora Madonna, que exibirá, a negócios, alguns minutos do seu segundo filme como diretora.

Mas as principais atenções estarão voltadas para os filmes que compõe a Mostra Competitiva, com 16 filmes concorrendo ao Urso de Ouro de Melhor e aos Ursos de Prata para outras diversas categorias. O júri deste ano é presidido pela atriz Isabella Rossellini, a produtora Jan Chapman, o ator, produtor e diretor indiano Aamir Khan, a atriz alemã Jena Hoss, o cineasta Guy Maddin e a figurinista Sandy Powell, além de Jafar Panahi, que fora convidado para integrar o júri do festival, pouco antes de sua condenação. Como protesto e em consideração ao diretor, a direção do festival decidiu manter o seu nome entre os jurados desta edição.

Estaremos presentes no festival e traremos, a partir de hoje, uma ampla cobertura do festival, falando sobre todos os filmes em competição, os astros que passarem pelo tapete vermelho e um pouco de cada um dos eventos e mostras paralelas do festival. Pipocas em mãos, que a sessão vai começar.

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