'O Hobbit': Preparando-se para uma (Muito) Esperada Jornada: Parte 3

Antes de começar, leia a PARTE 1 e a PARTE 2.

“Enquanto isso, os anões...” Assim começa o capítulo XIII do livro. No anterior, vimos a saída de Smaug da caverna. Passamos um capítulo inteiro acompanhando os anões tentando sair da caverna, alheios ao que aconteceu com Smaug. A narrativa consegue passar a tensão. Achamos que a qualquer ruído é sinal de perigo.

As intenções do autor ficam claras quando começa o capítulo seguinte falando da nossa curiosidade em ter notícias de Smaug. Quando retornamos à Caverna, no Capítulo XV, já estamos em segurança, restando o deleite com as confusões dos anões.

Em meio a tantos acontecimentos, há um detalhe singelo, que ganhará importância na parte final: Bilbo, em segredo, guarda uma pedra preciosa em seu bolso mais fundo. Ele passa a ter certeza de que é um ladrão.

A notícia da morte de Smaug se espalha pelas Terras Ermas e a ganância surge nos corações. Homens do Lago e Elfos iniciam uma marcha ruma à Montanha Solitária para exigir seu quinhão. Os anões se aquartelam no interior da Montanha. Thorin Escudo de Carvalho manda notícias aos anões das Colinas de Ferro. Bard e o Rei Élfico exigem que o tesouro seja dividido. Thorin se recusa.

Cai a noite. Bilbo toma uma de suas mais importantes decisões: coloca o anel e sai para falar com Bard e o líder dos Elfos. Ele oferece sua parte do tesouro. O que Bilbo desconhece é o valor de sua parte: a Pedra Arken vale mais do que todo o resto do tesouro de Smaug e é o objeto mais desejado por Thorin. Ao retornar, BilboGandalf entre os homens e os Elfos e percebe que fez a coisa certa.

No outro dia, Bard, o Rei Élfico e Gandalf vão tentar um acordo com Thorin. Este fica decepcionado ao ver a Pedra Arken nas mãos adversárias. Nesse momento, o exército dos anões chega aos pés da Montanha Solitária. Nessa altura, a narrativa alcança sua maior ambiguidade.

Até sua morte, Smaug era o vilão. Sem sua presença impondo o terror, as relações de poder nas Terras Ermas ficam instáveis, assim como as nossas certezas. Em seu momento mais irônico, Tolkien faz com que o fim da maldade gere ganância! Ora, para quem vamos torcer? Por um breve instante, Tolkien expõe o que de pior tem nos homens. Porém...

Antes de elfos, humanos e anões se enfrentarem, orcs e wargs surgem dispostos a pilhar todo o tesouro. Diante de um inimigo comum, todos se unem! E começa a Batalha dos Cinco Exércitos! As descrições impressionam em sua grandiosidade. Novamente, não vou disputar com Tolkien. Digo apenas que a passagem é de perder o fôlego. É empolgante quando as forças do bem recebem o apoio de Beorn e das águias. Enfim, vocês podem ter certeza de que, ao menos no papel, Peter Jackson tem bastante material para uma senhora sequência de ação!

Disse nos textos anteriores que “O Hobbit” era uma narrativa moral. Essa dimensão se revela na parte final. Primeiro, na ganância. Todos os povos das Terras Ermas querem o tesouro e não aceitam ceder em suas posições. Ou seja, o fim do mal (a morte de Smaug) não gera, imediatamente, a paz. Apenas depois a Batalha dos Cinco Exércitos é que a harmonia prevalece sobre os maus sentimentos.

Fica claro que os puros desejos de poder e riqueza pouco valem diante de tanto sangue derramado. E Tolkien faz sentirmos na pele, através da morte de Fili, Kili e... Thorin! Especialmente Thorin! A sua morte já não é mais a de uma personagem. É a morte de um amigo, de um companheiro de aventuras. Sentimos sua perda. Sentimos saudades e sentamos ao lado de Bilbo para chorar por Thorin.

De que adiantou tantas lutas, tantas mortes, tanta ganância se perdemos pessoas tão queridas? Por que a paz só veio depois da guerra? Sim, porque vencidos orcs e wargs, e tantos mortos para velas, elfos, anões e homens chegam a um acordo, o Valle e a montanha voltam a prosperar. Por que só depois??? Por que não antes????

E a guerra acabou, Smaug faz parte do passado, os orcs e wargs foram derrotados, os mortos foram chorados, o tesouro dividido. A prosperidade retornou ao Valle. Cada um seguiu seu caminho: os anões rumaram para suas terras, os homens retornaram ao Lago, os Elfos à floresta. E Bilbo, o nosso hobbit?

Bem, ele ganhou uma parte no tesouro e, na companhia de Gandalf e Beorn, regressou ao condado. Claro que não levou tudo que lhes haviam prometido, mas duas pequenas arcas, uma com ouro, outra com prata, apenas o que seria capaz de carregar. Nesse regresso, eles contornaram a Floresta das Trevas pela extremidade norte, por uma estrada que agora, sem o perigo dos orcs, parecia convidativa. Mas claro, tiveram perigos e aventuras, afinal “o Ermo ainda era o Ermo...” Ficaram por um tempo na casa de Beorn, até que na primavera prosseguiram viagem. A passagem pelas Montanhas Sombrias, agora sem o domínio dos orcs, fora tranquila. “Foi em Primeiro do Maio que os dois finalmente chegaram à borda do vale de Valfenda, onde ficava a Última (ou a Primeira) Casa Amiga.” Depois de um tempo, partiram, agora sim, rumo ao Condado.

Essa viagem de regresso, revendo locais tão conhecidos, mas agora pacificados, provoca no leitor um gosto bom de saudade e melancolia, uma sensação agridoce de não querer que aquela aventura termine. Mas, assim como Bilbo já deseja o aconchego de sua casa, todo o leitor anseia pelo final do um livro.

Ver Bilbo revisitando todos os cenária dessa grande jornada em tão poucas páginas, gera um contraste interessante. Percebemos o quanto esse hobbit cresceu. A jornada mudou o homem. E em poucas páginas, percebemos do quanto a grande literatura é capaz.

Toda arte narrativa permite que conheçamos profundamente uma personagem. Porque compartilhamos com ela suas alegrias, tristezas, medos, expectativas. Os seus amigos são os nossos amigos. Os seus sonhos são os nossos sonhos. E, ao menos no espaço de um livro, deixamos de ser o nosso cotidiano para nos tornarmos um Elfo, um mercador da Cidade do Lago, um Anão, um Mago, ou um Hobbit!

Se realmente temos em nossas vidas a chance de conhecer profundamente poucas pessoas, ler esta obra-prima de Tolkien nos permite conhecermos intimamente Bilbo Bolseiro, ao ponto de seus defeitos tornarem-se qualidades. Uma criatura tão pequena, que queria apenas ficar em sua toca, mas enfrentou os medos em busca de aventura.

Aí, Bilbo já é um reflexo do nosso desejo de sairmos das nossas tocas para abraçarmos alguma jornada inesperada. Mas, se nem sempre podemos fazê-lo, que façamos através de uma pessoa agradável. Sim, porque Bilbo Bolseiro de Bolsão não é mais uma simples personagem, é aquele amigo com o qual compartilhamos uma grande aventura.

E quando, passados os anos, já nas últimas páginas, lá e de volta outra vez às nossas vidas cotidianas, sentimos que também somos outros. Que também já somos um pouco Bilbo!