Séries: 'LOST' Final(mente!)

Domingo foi a final nos EUA. Terça foi aqui no Brasil. Ficamos órfãos. Terminou uma das maiores séries televisivas. É titulo merecido: começou com grande audiência, caiu depois, é verdade, mas acabou com inserções comercias no valor de 900 mil dólares; foi cultuada; foi e será debatida; mudou a dinâmica da TV; narrou uma grande história. Vamos ao final!

O Final

Se você não viu o final pare! Tá cheio de spoilers aí em baixo! Vou soltar a língua! Nesta temporada, no lugar dos flashbacks e flashforwards, tivemos um universo paralelo. Ao menos, fomos levados a pensar. Nele, vimos a chegada do voo Oceanic 815 ao destino. Na ilha, os sobreviventes tentavam sair e também acabar com o Monstro da Fumaça Preta (MIB). Um começo de muitas expectativas.

No fim descobrimos que a ilha era verdadeira. Mas o universo paralelo não era uma realidade alternativa, mas um local onde todos estavam mortos. Podemos pensar que LOST tem dois finais: o do mundo real e o do além túmulo (ou afterlife para ser mais in).

Primeiro, a Ilha:

Poucas coisas foram tão didáticas nesse final quanto a frase do pai de Jack falando que a ilha era real! Os roteiristas afastam a ideia da ilha como purgatório. Então, que porra era ela?

Bom, como o final de LOST foi tudo menos for dummies, só respondemos a pergunta colhendo as pistas deixadas ao longo da série. A ilha seria um local que guarda no subsolo forte energia eletromagnética. Tal energia que foi explorada pela Iniciativa Dharma na 5ª Temporada.

No antepenúltimo episódio, onde foi explicado a origem de Jacob, conhecemos a gruta de onde emanava uma luz. E vimos Jacob lançar seu irmão nela e sair o Monstro da Fumaça Preta. Aparentemente, a gruta era o ponto principal de eletromagnetismo e uma rolha retinha a energia. E quem era o MIB?

O Monstro da Fumaça Preta, ou carinhosamente MIB, aterrorizou a série desde o começo. Até a última temporada não tínhamos nenhuma noção do seu significado, origem ou mesmo função. Na reta final, descobrimos que ele era o homem de preto que sempre conversava com Jacob nos flashbacks.

MIB tinha um desejo de sair da ilha. Os motivos dependem de como você interpreta o seu nascimento. Ele apareceu depois que Jacob jogou o irmão dentro da caverna da luz. O corpo dele reapareceu fora da gruta e foi enterrado junto com a mãe (que não era mãe!).

Assim, ou o MIB era uma entidade ligada à ilha que consegui se libertar por conta do corpo lançado na caverna. OU... seria a alma do irmão de Jacob. No primeiro caso, suas razões para sair da ilha ficam muito obscuras, talvez destruir o mundo! Porém, os acontecimentos do final fortalecem a segunda corrente.

Depois de Desmond tirou a rolha, MIB que havia assumido a imagem de Locke torna-se mortal. Ora, ele sempre dizia que não podia sair sozinho da ilha. Na verdade, ele não podia sair porque, como fumaça, estava ligado à ilha. Precisava de alguém especial para retirar a rolha, liberar a energia e voltar para a forma humana e se libertar. Ele nunca precisou sair acompanhado da ilha, mas de ajuda para liberar geral.

Sendo o MIB a alma do irmão de Jacob, seus motivos são prosaicos: era seu desejo desde jovem conhecer o mundo, mas sua mãe o impedia. Algo que Freud, se assistisse LOST, iria gostar de responder.

Por que a energia da ilha não poderia ser liberada? Tenho duas respostas: ou seria o fim do mundo, ou a ilhota iria a pique. Se ela for tão importante para o mundo, Jacob seria um guardião da Terra, impedindo que gananciosos com a Dharma destruíssem o mundo.

Pessoalmente, acho melhor a segunda: primeiro, no universo paralelo vemos a ilha afundada, provavelmente um dica dos roteiristas sobre o que poderia acontecer. Jacob teria o interesse de proteger a ilha que, para ele, era o mundo! Lembrem-se: sua mãe dizia que nada existia além mar. Mesmo consciente do mundo lá fora – Jacob aparece no continente várias vezes – aquele pedaço de terra cercado de água e mistérios pelos lados era o quinhão mais importante.

E os LOSTies? Todos sobreviveram à queda do voo 815 da Oceanic. Muitos morreram ao longo da série. O grupo que chegou ao último capítulo teve três destinos: Kate, Sawyer, Lapidus, Claire, Richard e Miles saíram da ilha no avião da Ajira; Hurley tronou-se o guardião da ilha com o auxilio de Ben; Desmond foi resgatado da caverna, com o comprometimento Hurley de levá-lo para casa; Jack recolocou a rolha, restabelecendo o equilíbrio e morreu no bambuzal ao lado de um cão.

A razão deles estarem na ilha, fica com o outro final.

O universo paralelo não era uma realidade. Tudo que vimos nela eram cenas deles mortos.

Só descobrimos quando Jack escuta de seu pai que todos já estão mortos. Ele deixa claro que a ilha foi real, que cada um deles morreu em instantes diferentes, mas precisavam se reunir para seguir juntos.

Muitas interpretações podem ser feitas sobre o universo paralelo: uma outra encarnação, o purgatório, um local onde as almas devem tomar consciência de sua morte. Gosto desta última. Do dialogo ente Jack e seu pai aparente que tudo já tinha acabado, mas eles precisavam tomar consciência para seguir juntos.

Vemos depois todos reunidos na nave da igreja. Uma enorme paz toma conta. O pai de Jack abre a porta da igreja e uma luz branca inunda a cena. Imagens de Jack agonizando na ilha, entre os bambuns, são intercaladas.

Para onde eles foram? Para o céu, para o Nirvana, outra vida, outra dimensão. Qualquer resposta é permitida quando os roteiristas enchem um dos cômodos da igreja com referências a todas as grandes religiões.

Resposta aos fãs

Bentinho está sentado no sofá. Capitu, parada em sua frente, confessa ser amante de Escobar e que o filho que teve era dele. Imaginem, se Machado de Assis tivesse deixado os pratos limpos ao final de Dom Casmurro o livro não teria passado de interessante. Talvez achássemos hoje bem preconceituoso com as mulheres. Ele permanece como o grande texto da nossa literatura porque deixou mais perguntas do que respostas.

Muitos não gostaram do final de LOST. Sentiram falta de respostas. Confesso, seria legal tudo respondido. Mas, pensem, o quanto a série – e nós – perderíamos.

Se daqui a alguns anos fossemos revê-la, acharíamos interessante, legal, sentiríamos saudades. Poderíamos mesmo achá-la genial. Mas, só com a quantidade de interrogações continuaremos a assistir LOST com a sensação de coisa nova. Continuaremos a rever aos episódios buscando descobrir segredos, novas teorias vão surgir. E com o final, digamos, metafísico, interpretações mais profundas estão permitidas.

LOST permanecerá viva não só na memória dos fãs, mas em fóruns na internet, comunidades, fã-clubes, livros, etc... Se o fim desagradou os ortodoxos do Sci-Fi, elevou definitivamente a séria ao patamar de arte.

Desde o começo os produtores alertaram que LOST era sobre redenção. O desfecho foi fiel ao alerta. E, ao mesmo tempo, quebrou nossos queixos surpreendendo com algo incomum em obras de ficção-científica. Muito corajoso!

LOST nunca foi didático. Quem reclamou de falta de respostas ou não viu direito ou é fã que queria que Jacob sentasse com os sobreviventes com um caderninho e respondesse cada mistério. Ora, muita coisa foi explicada ao longo da séria. Outras tantas foram respondidas no universo expandido como o jogo “LOST Experience”.

O que é a Dharma? O que ela pesquisa? O que são os números? Algumas coisas tiveram respostas na série, outras devem ser complementadas por coisas como “Lost Experience” (para saber mais: http://pt.lostpedia.wikia.com/wiki/Lost_Experience).

É uma forma bem diferente de ver televisão. Sem simplismos, sem se limitar à TV. Quem queria tudo preto no branco, veja “A Próxima Vítima” e descubra os motivos do assassino Adalberto Vasconcelos!

Se olharmos para todo universo de LOST encontraremos muitas pontas soltas que, amarradas, darão respostas. Nunca simples, poucas detalhadas, quase todas ambíguas. Seu maior mérito é resolver quase tudo sem acabar com os mistérios.

O legado

LOST deixa para os seus fãs um universo para ser desvendado. Continuaremos a assisti-lo com voracidade para descobrir os mistérios. Talvez, livros, séries, fã-filmes ampliando os acontecimentos da série – assim como “Guerra nas Estrelas” – podem aparecer.

A série também foi importante para a mídia. LOST foi a cara da televisão na era da internet: logo depois de exibido nos EUA, os episódios estavam disponíveis em download com legendas feitas por fãs; os produtores abusaram da internet para ampliar a série; seu surgimento coincidiu com o de outras séries americanas caracterizados por enredos mais complexos.

Claro que ela não inventou nada disso. Apenas foi a que melhor combinou esses elementos!

E que bom que ficaram mais perguntas que respostas. A séria terá vida longa em debates. Vamos ter prazer e interesse maiores em revê-la. Quem queria respostas para tudo talvez não tenha apreciado a mitologia. Se tudo fosse colocado no cartão resposta, acabaria com o culto da série. Seria como George Lucas dando uma explicação biológica ao poder dos Jedis na nova trilogia (apócrifa).

Por ter deixado diversas pontas soltas e algumas coisas sem nenhuma resposta que o box de LOST ficará no pedestal das nossas prateleiras.